Governo Lula tenta capitalizar operações contra crime organizado e defende PEC da Segurança
BRASÍLIA – O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou as três operações deflagradas nesta quinta-feira, 28, para reforçar o discurso de combate ao crime organizado e disputar os dividendos políticos dos resultados com autoridades estaduais. Em coletiva, os ministros da Justiça, Ricardo Lewandowski, e da Fazenda, Fernando Haddad, defenderam a aprovação da PEC da Segurança Pública, de autoria do Palácio do Planalto e em trâmite no Congresso.
No início do dia, a Polícia Federal e os ministérios públicos de dez Estados cumpriram mandados contra suspeitos de lavar dinheiro para o crime organizado por meio de postos de gasolina, distribuidoras de combustíveis e instituições financeiras.
Tanto Haddad quanto Lewandowski pregaram a união entre órgãos federais e estaduais de investigação para desarticular facções e trataram as ações como um exemplo de como tal parceria poderia ser institucionalizada.
“A proposta do governo do Brasil é justamente que todas as forças de segurança do País se entrosem, que as informações sejam compartilhadas e as operações, coordenadas”, disse o ministro da Justiça ao defender o projeto.

Lewandowski reforçou a atuação do governo federal na maior operação feita até hoje para combater a infiltração do crime organizado na economia formal do País e defendeu a PEC da Segurança, em tramitação no Congresso.
“O crime organizado não é mais local, é global. Apenas uma visão macro a partir do governo brasileiro, que se espraia pelos Estados, tem êxito. São operações em dez Estados”, disse.
Segundo ministro, o setor de combustíveis é o primeiro foco das forças de segurança, mas outras vão avançar para outros setor. Lewandowski ainda defendeu a institucionalização da cooperação de órgãos públicos via PEC da Segurança.
Haddad destacou a colaboração de autoridades estaduais, como os Ministérios Públicos e as polícias, nas investigações e nos cumprimentos dos mandados. “Essa operação é exemplar porque ela conseguiu chegar na cobertura do sistema, no andar de cima do sistema.”
Para ele, a PEC da Segurança vai “transformar em rotina” a troca de informações e a atuação conjunta desses órgãos.
“Vejo na PEC encaminhada pelo governo federal um caminho para que essa coordenação seja naturalizada, que seja o dia a dia da nossa ação contra o crime. Isso vai criar sinergias importantes entre as diversas forças envolvidas. O Brasil com isso lidera e fortalece as instituições para esse enfrentamento e protege o consumidor, que é a parte frágil disso tudo.”
As três operações, deflagradas simultaneamente nesta quinta, tinham entre os alvos escritórios na Av. Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, centro do sistema financeiro do País. Como revelou o Estadão, houve 42 alvos na localidade. Uma das operações, batizada de Carbono Oculto, foi capitaneada pelo Ministério Público de São Paulo, mas tinha alvos em comum com as incursões da PF.
Os suspeitos utilizavam uma rede de fundos de investimento para ocultar recursos de origem ilícita. De acordo com a investigação, o esquema se estruturou a partir de uma cadeia de relações societárias, em que fundos detinham participações em outros fundos e empresas como forma de blindar o patrimônio dos envolvidos e dificultar a identificação dos beneficiários finais dos crimes.
De acordo com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues, a Justiça Federal autorizou sequestro dos fundos e bloqueio de R$ 1,2 bilhão.
Para efetivar o ganho de dinheiro ilegal, os investigados teriam simulado operações de compra e venda de títulos e imóveis sem nenhum propósito econômico entre firmas do mesmo grupo. A PF cumpriu 12 mandados de busca e apreensão nas cidades de São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto.
A PF também cumpriu mandados contra grupo suspeito de ter lavado pelo menos R$ 600 milhões por meio de empresas que incluía postos de gasolina, distribuidoras de combustíveis e entidades de pagamento. Os suspeitos movimentaram R$ 23 bilhões desde 2019. Nos dez Estados, mil postos de combustíveis foram identificados na investigação.
Haddad, afirmou que as três grandes operações deflagradas nesta manhã chegaram à “cobertura” do sistema do crime organizado.
Segundo o ministro, o combate a essas organizações exige uma resposta igualmente organizada e coordenada entre diferentes agentes públicos. “Porque são muitas camadas que precisam ser abertas para se chegar no patrimônio do crime organizado, sem o que fica muito difícil você vencer o crime, porque se você prende uma pessoa, mas o dinheiro fica à disposição do crime, essa pessoa presa vai ser substituída por outra”, afirmou.
Haddad citou que o esquema criminoso possui muitas camadas, envolvendo, por exemplo, fundos fechados, o que demanda a atuação de auditores fiscais com inteligência e precisão para identificar o destino final dos recursos.
“Se não fosse por isso, nós não teríamos conseguido chegar a mais de mil postos de gasolina, quatro refinarias, mais de mil caminhões que estavam à disposição do crime organizado para transportar o combustível, geralmente adulterado”, disse.
Diretor da PF diz que prisão de menos da metade dos alvos é atípica
O diretor-geral da Polícia Federal afirmou que a prisão de apenas seis dos 14 alvos das operações deflagradas nesta quinta contra fraudes e lavagem de dinheiro por integrantes do crime organizado é um indicador atípico. Andrei Passos Rodrigues afirmou que ainda é preciso reunir informações sobre o cumprimento dos mandados para verificar se há indícios de vazamento das ações. A PF tenta cumprir o restante até o fim do dia.
“Não é uma estatística normal da Polícia Federal. é preciso relatar o que foi encontrado lá. E aí sim poderá ser inferido se houve ou não vazamento de informações”, disse.
Os mandados de prisão são da Justiça Federal do Paraná. Em São Paulo havia apenas mandados de busca e apreensão. Conforme revelou o Estadão, promotores do Ministério Público de São Paulo suspeitam que a Operação Carbono Oculto tenha vazado para seus alvos.
Dois detalhes levam a Promotoria a suspeitar que informações sobre o cerco à fabulosa rede de 300 postos de combustíveis controlada pelo PCC chegaram a investigados antes da deflagração da megaoperação nesta quinta.
O primeiro ponto destacado pelos agentes: computadores e outras provas estavam escondidas em um prédio da rua Conselheiro Saraiva, no bairro de Santana, zona norte da cidade de São Paulo.
Rodrigues também descartou que tenha havido conflito com órgãos de investigação estaduais, que em São Paulo, foram responsáveis pela condução das investigações.
“Nós trabalhamos em absoluta harmonia entre as três operações. Não há nada de conflito. Houve, sim, a unificação. É claro que com juízos diferentes, mas é normal”, disse.