Justo é tudo que vem em minha defesa
A arte, a literatura e os clichês, sim, também os clichês, fazem dobra no tempo, porque veiculam verdades que desdenham da linearidade dos conceitos de passado e futuro. Apenas são, conjugam-se sempre no presente. Por isso, frases que, de maneira literária ou direta, cunham aspectos fundantes da condição humana, atravessam os séculos, como axiomas sempre atualizados.
A frase do título é de Shakespeare, extraída da divertida e perspicaz tradução de Millôr Fernandes para a obra Rei Lear. Tragicomédia que ressalta a relação diretamente proporcional entre temas tão mesquinhos quanto caros à humanidade como disputas de poder e a sucessão familiar num reino liderado pela “tirania senil que governa não pela força que tem, mas porque permitimos”.
O monarca de Shakespeare é um dos seus personagens mais complexos. Ele representa o arquétipo do governante que, ao confundir poder com amor, precipita sua própria ruína. É um rei orgulhoso, impetuoso, vaidoso e, sobretudo, vulnerável ao desejo de reconhecimento. Toma a bajulação por amor, entende qualquer crítica como afronta, rejeita verdades incômodas e os mensageiros dessas verdades, confunde a realidade e a sua própria tempestade interior.
Ao tempo em que Rei Lear foi escrita, etarismo ainda não era uma categoria discriminatória, mas não é disso que se trata. As vicissitudes do monarca dizem muito mais sobre sua condição psicológica, seus complexos autoritários, seu ego na resistência de ceder o poder, sua impulsividade e o choque de gerações. Fala sobre medidas desesperadas (e desprovidas de lógica) tomadas, no ocaso da vida, por um governante arbitrário, determinado a manter, a qualquer custo, a própria relevância.
Deixo ao leitor a tarefa interpretativa de tirar suas conclusões sobre o paralelo que se pode traçar com as lideranças globais de nosso tempo presente.
Mas, voltando à frase título, que reduz, com ironia bastante próxima da realidade das Cortes e sobretudo dos Tribunais Digitais da modernidade, os questionamentos filosóficos sobre o conceito de justiça. O que é justo?
Edmundo de Shakespeare é pragmático e honesto em sua resposta: a justiça é uma opinião particular fluída, adaptável àquilo que lhe convém. Quantos teriam a sinceridade firme de Edmundo? De confessar que suas opiniões sobre justiça variam conforme a ocasião, as partes envolvidas, ou insondáveis objetivos?
Muitos talvez retruquem que os caprichos das monarquias absolutistas são coisas de outras épocas, de democracias em declínio (sim, há muitas com falência múltipla de seus órgãos) ou ditaduras. E outros tantos acrescentem com segurança que, num Estado democrático de direito, justo é o que dizem as leis.
Tomemos o Brasil por parâmetro. Para quem acompanha o noticiário brasileiro, nessa última década, e para citar alguns exemplos, a prisão após decisão de segundo grau já foi e não foi constitucional. O foro competente para julgar crimes após a perda do mandato já foi o juiz de primeiro grau e, também, o foro privilegiado. Bandido bom é bandido morto, desde que os crimes tenham sido cometidos por outras pessoas com quem não me importo. Prisão domiciliar pode ser privilégio de vagabundo ou direito fundamental.
Como Edmundo, lados ideológicos opostos não se constrangem em trocar de opinião conforme a direção dos ventos (ou das “trends”) – parecem satisfeitos com a definição de justo como tudo aquilo que vem em suas defesas.
A ideia de justiça, uma charada milenar ainda não decifrada. O justo – contrariando a advertência do Bobo da Corte de Lear – continua um ambíguo conceito que não deveria “ter ficado velho, antes de ter se tornado sábio”.