Romário se afasta de Bolsonaro e perde apoio nas redes, mas resiste à pressão por memória no futebol
RIO – Eleito sob as bênçãos da base bolsonarista, o senador Romário (PL-RJ) perdeu apoio nas redes sociais entre aliados e militantes ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Desde que passou a discordar dos métodos e posicionamentos da família da zona oeste do Rio, o “Baixinho” se tornou alvo de cobranças por lealdade ao ex-chefe do Executivo, e manteve distância da polarização nas redes, deixando-o em uma “zona neutra” digital.
O ápice da crise recente entre o senador e a família Bolsonaro ocorreu após Romário ser o único senador eleito pelo PL a não apoiar pedidos de impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes no Senado. Um estudo da AtivaWeb revela que 82% dos seguidores impactados pela nota oficial de Romário, escrita pelo senador após cobranças pelas discordâncias com Bolsonaro, são críticas ao senador.
“Não rompi com o ex-presidente Jair Bolsonaro e nunca apaguei postagem nenhuma com ele. Durante a campanha, as fotos com Bolsonaro e outros candidatos da coligação foram publicadas só nos stories, nunca no feed. Não tem como apagar o que nunca foi postado. Tenho uma boa relação com o PL e com suas lideranças. Não devo nada a ninguém”, escreveu Romário.
As interações de Romário com a família Bolsonaro nas redes sociais, no entanto, refletem a relação entre o senador e o ex-presidente desde 2022. De acordo com a AtivaWeb, “não há interação política relevante” entre os dois nas redes – cenário agravado após as eleições passadas, quando Bolsonaro apoiou a candidatura de Daniel Silveira (PTB) ao Senado.
“Quando Romário se expõe politicamente, enfrenta resistência em ambos os lados, não agrada plenamente a base bolsonarista e tampouco conquista públicos independentes. Isso reforça sua fragilidade como liderança digital política”, diz o estudo da AtivaWeb.
O levantamento da agência digital, com base nas interações de Romário no Facebook e no Instagram, mostra que a presença digital do senador está ancorada no futebol, não na política. “O engajamento médio de 0,11% é baixo para seu tamanho, e os posts de maior impacto são sempre ligados a gols, memórias da seleção ou entrevistas esportivas.”
“Romário continua gigante no imaginário popular, mas ainda joga sozinho no campo digital: precisa transformar a nostalgia do ídolo em estratégia de influência política”, afirma o CEO da AtivaWeb, Alek Maracajá.
O descolamento de Romário do bolsonarismo e da política, ao menos nas redes, é explicado pela base de eleitores do senador, como explica a antropóloga Isabela Kalil, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
“A candidatura do Romário sofre uma dupla pressão. Nem todo mundo que vota nele é de direita. Muitos eleitores não polarizados votam no Romário. Ele tem carreira própria, anterior ao bolsonarismo, inclusive, capital político fora do bolsonarismo, então consegue segurar as pressões”, diz.
Traições
Após Bolsonaro declarar apoio a Daniel Silveira, Romário evitou o confronto direto com a família da zona oeste do Rio, apesar da “mágoa”, segundo aliados. Em entrevista ao Jornal O Globo, durante a campanha de 2022, o senador afirmou que o ex-presidente, “mesmo sendo do mesmo partido”, preferiu apoiar outra candidato “que estava inelegível”.

A “traição” de Bolsonaro surtiu efeito – a base bolsonarista se dividiu entre dois candidatos –, mas não o suficiente para barrar a reeleição do “Baixinho”. Romário foi eleito com 2.384.080 votos (29,19%), contra 1.566.328 votos (19,18%) de Silveira.
Dois anos depois, mais um desencontro entre os dois. Romário declarou apoio ao então candidato à reeleição para a prefeitura do Rio, Eduardo Paes (PSD), ignorando o candidato do PL ungido por Bolsonaro, o deputado Alexandre Ramagem.
O senador chegou a ser acusado de “infidelidade partidária” pelo presidente estadual do PL, deputado Altineu Côrtes, e por colegas de partido, mas foi bancado pelo presidente nacional da sigla, Valdemar Costa Neto.
Alheio às pautas bolsonaristas
Um dos motivos apontados por aliados do ex-presidente para o distanciamento de Romário é a “independência” do senador em relação a pautas caras ao bolsonarismo. Em ao menos duas votações no Congresso, as diferenças foram postas à mesa.
Em 2023, o senador votou contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que limita os poderes de ministros do STF. O texto aprovado no Senado sem o voto de Romário estabeleceu que os magistrados ficariam impedidos de suspender por meio de decisões individuais a vigência de leis aprovadas pelo Legislativo. Romário foi o único senador do PL a votar contra.
Romário foi alvo de ataques nas redes após o voto contrário aos interesses de Bolsonaro de frear o Supremo.
“A família Bolsonaro exerce uma pressão que está ligada à lealdade que os que se valem do bolsonarismo precisam ter. Cada vez que o bolsonarismo se radicaliza, ele tenta levar os políticos mais centralizados para a extrema direita”, explica Isabela Kalil.
No caso mais recente de divergência, em que Romário não assinou um pedido de impeachment contra Moraes, aliados e até o filho político mais novo de Bolsonaro, o vereador de Balneário Camboriú Jair Renan Bolsonaro (PL), cobraram publicamente alinhamento do senador.
E aí, Romário? Vai continuar vivendo do gol de 94 ou vai mostrar que também sabe jogar pelo povo? O impeachment do Moraes é sua chance de brilhar de novo.
— Jair Renan Bolsonaro (@bolsonaro__jr) August 5, 2025
Romário, no entanto, tem base eleitoral para suportar a pressão bolsonarista, segundo Isabela Kalil. De acordo com a antropóloga, Bolsonaro não deve abrir mão do capital político do ex-jogador de futebol, apesar das divergências.
“A tática do bolsonarismo se resume em radicalizar e tentar trazer os fiéis e os políticos com capital político de centro, mas isso é dinâmico. Não acho que o Bolsonaro vá rifar o Romário como fez com os outros. Romário mobiliza uma base de eleitores do sexo masculino que é caro ao bolsonarismo. Então, nesse sentido, Romário tem autonomia em relação ao Bolsonaro. Ele só se alinha se quiser mesmo ou para pensar uma vantagem a mais nas próximas eleições”, afirma.