Crime organizado trocou doleiros por fintechs, diz líder de auditores
O presidente do Sindicato dos Auditores-Fiscais da Receita Federal (Sindifisco Nacional), Dão Real, afirmou neste sábado, 30, que o crime organizado mudou a estratégia para lavar dinheiro e trocou o uso de doleiros por fintechs. Diante da constatação, confirmada na Operação Carbono Oculto, ele comemorou a publicação da nova instrução normativa da Receita, que iguala o tratamento das startups de serviços financeiros aos bancos.
“Tempos atrás, o crime organizado se valia de doleiros, de pagamento em dinheiro vivo. Mas agora grande parte desse fluxo financeiro ocorre através das fintechs. A partir de hoje, será mais fácil para o Estado controlar as operações, não só do crime organizado tradicional como o PCC, mas também das bets”, afirmou o auditor fiscal à Coluna do Estadão.
A atualização da norma do Fisco foi publicada um dia após uma megaoperação policial mostrar que fintechs lavaram bilhões de reais para o PCC.
O auditor acrescentou que, até essa sexta-feira, 29, as fintechs se beneficiavam de um modelo que permitia uma “total ocultação dos beneficiários” de contas bolsão, o que abria margem para lavagem de dinheiro e sonegação fiscal.
“Isso contrariava todas as lógicas de acordos internacionais. Uma parte do lucro das empresas é identificada a partir do monitoramento, o que gerava também uma perda de arrecadação para o governo”.

Em janeiro passado, o servidor de carreira do Fisco alertou, em entrevista à Coluna, que a revogação do ato da Receita que endurecia a fiscalização sobre transações financeiras prejudicaria o combate ao crime organizado.
Na ocasião, o governo Lula revogou uma regra da Receita Federal, em vigor havia poucos dias, que aplicava a operadoras de cartão de crédito as normas sobre transações financeiras que já valiam há uma década para bancos privados e públicos. Parlamentares da oposição espalharam mentiras de que o Pix, uma das transações envolvidas, seria taxado. A onda de fake news diminuiu o volume desse tipo de pagamento no País.
Fintechs passam a seguir regras de bancos após operação policial
Nessa sexta-feira, 29, a Receita publicou uma regra que exige das fintechs a mesma responsabilidade de bancos. Essas empresas digitais de menor porte, que explodiram nos últimos anos, agora terão de prestar informações de movimentações financeiras por meio de um sistema usado por bancos há mais de duas décadas.
“Fintechs têm sido utilizadas para lavagem de dinheiro nas principais operações contra o crime organizado, porque há um vácuo regulamentar”, afirmou a Receita.
A operação foi batizada de Carbono Oculto e envolveu 1.400 agentes, que cumpriram mandados em oito estados. Uma parte da força-tarefa foi executada na Avenida Faria Lima, em São Paulo, símbolo do mercado financeiro.