A COP que deveria projetar o Brasil — e acabou expondo suas fraquezas
Havia algo de simbólico, quase inevitável, na ideia de realizar uma COP no coração da Amazônia. Depois de anos de disputas políticas internas, pressões ambientais externas e tentativas de reposicionamento global, o Brasil tinha ali uma chance rara: pegar a bandeira do clima, colocar-se no centro do palco e, enfim, exercer a liderança que tantos discursos prometeram. Não era uma oportunidade qualquer. Era uma oportunidade histórica. E, no entanto, o que se viu foi uma sucessão de falhas operacionais, constrangimentos diplomáticos e um desconfortável silêncio das grandes potências. Resultado: o país que sonhava liderar saiu menor do que entrou.
Não faltou aviso. Meses antes da conferência, a ONU já demonstrava preocupação com os preços “incompatíveis” praticados pela rede hoteleira de Belém, valores que chegaram a ultrapassar, em várias vezes, a própria diária padrão paga pela UNFCCC às delegações de países pobres. Surgiram relatos de diárias multiplicadas por dez, vinte vezes o valor usual. O problema afetou sobretudo nações africanas, caribenhas e pequenos Estados insulares, justamente aqueles que mais dependem do processo multilateral. Quando uma COP começa com reuniões de emergência para tratar de hospedagem inacessível, algo já está fora do lugar.
A infraestrutura se arrastou sob crítica constante. Obra atrasada, improviso logístico, soluções apressadas — de navios-hotel a alojamentos alternativos — alimentaram a percepção, amplamente difundida na imprensa estrangeira, de que a cidade não estava pronta. E, quando o evento começou, o diagnóstico se confirmou. Houve alagamentos em pavilhões, infiltrações na Zona Azul, queda de energia, calor excessivo e áreas sem ar-condicionado, tudo minuciosamente relatado por veículos internacionais. Para culminar, uma carta dura da ONU, tornada pública pelo Correio Braziliense, apontou falhas de segurança, problemas estruturais e riscos operacionais. A mensagem era clara: o padrão exigido não foi entregue.
O incidente talvez mais emblemático da contradição logística veio da própria matriz energética do evento. Reportagens registraram a dependência de dezenas de geradores movidos a diesel — com cheiro constante e fumaça percebida por participantes — justamente na COP que deveria simbolizar a transição para energia limpa. O edital previa combustível renovável (B100), mas o governo alegou inviabilidade logística e compatibilidade técnica, optando pelo diesel comum. O efeito político foi devastador: a conferência que discutia a saída dos fósseis operava à base de fóssil.
A partir daí, a situação degringolou diante das câmeras. Manifestantes conseguiram ultrapassar barreiras e entrar na área restrita de negociações, provocando reações imediatas da UNFCCC. Dias depois, um incêndio em parte da estrutura causou evacuação em massa, suspensão de atividades e atendimento médico a pessoas afetadas pela fumaça, fato noticiado pela Reuters e pela Associated Press. Nada disso combina com um país que pretendia demonstrar maturidade institucional e capacidade de conduzir o debate climático global.
Mas talvez o ponto mais simbólico tenha sido o esvaziamento político. A COP30 registrou uma das menores presenças de chefes de Estado dos últimos anos, cerca de 60 líderes, segundo a Reuters. Para comparação, a COP28 contou com mais de 160. E, entre os ausentes, os gigantes: Estados Unidos, China, Índia, Itália, entre outros. Não se trata de mera contabilidade diplomática. Quando nenhuma grande potência se desloca até a cidade-sede, a leitura é inevitável: a conferência perdeu prioridade, e o anfitrião perdeu prestígio.
As próprias relações bilaterais sofreram arranhões públicos. O chanceler alemão Friedrich Merz, por exemplo, fez comentários depreciativos sobre Belém ao retornar para Berlim — o tipo de frase que, mesmo suavizada depois, revela o grau de desgaste percebido pelos visitantes. Na política internacional, símbolos importam. E este simbolismo, infelizmente, jogou contra o Brasil.
No campo substantivo, a frustração foi igualmente profunda. O documento final, aprovado após negociações estendidas, foi descrito por observadores e por governos como “fraco” e “vago”, com compromissos pouco operacionais, lacunas centrais e ausência de uma rota clara para lidar com combustíveis fósseis. A crítica mais dura veio de países europeus e de Estados vulneráveis do Pacífico, que viram o texto como incapaz de acelerar a transição energética ou amarrar metas verificáveis. Em resumo: a COP amazônica terminou com um acordo que não fez jus ao que a Amazônia exigia e ao que o Brasil prometera liderar.
Some-se a isso um constrangimento social que também vazou para a imprensa: Belém está entre as capitais com pior cobertura de coleta de esgoto do país. Dados do Instituto Trata Brasil apontam que a cidade coleta cerca de 20% do esgoto gerado e trata apenas uma fração mínima disso. É difícil vender protagonismo ambiental quando a cidade-sede, símbolo do evento, expõe ao mundo a precariedade do saneamento básico na Amazônia urbana.
E como se não bastasse, surgiu ainda a sombra da desconfiança: entidades de controle social e imprensa apontaram riscos de superfaturamento e baixa transparência em contratos ligados às obras e serviços da COP30. A Transparência Internacional Brasil publicou alerta específico sobre a falta de dados claros, licitações sensíveis e o histórico de vulnerabilidade desse setor a corrupção, cobrando prestação de contas detalhada. Não é uma acusação fechada; é pior: é a reintrodução da suspeita. E suspeita, em política internacional, já é dano real.
Não se trata aqui de negar os méritos da sociedade brasileira, nem de desconsiderar a potência ambiental que o país representa. Muito menos de atacar a Amazônia, patrimônio civilizatório que deveria nos inspirar responsabilidade e grandeza. Mas liderança internacional não se improvisa. Ela exige previsibilidade, competência administrativa, capacidade logística e sobriedade institucional. E nenhum desses elementos se mostrou presente de maneira consistente.
O saldo, portanto, é duro: a COP que deveria projetar o Brasil acabou expondo suas fraquezas. A vitrine virou espelho, e o reflexo não foi bom.
Há quem diga que “o importante é ter sediado”. Mas não é bem assim. O importante era ter liderado. Era ter aproveitado a chance para demonstrar capacidade, articulação e seriedade. Era ter mostrado ao mundo que o Brasil não é apenas guardião de uma floresta, mas também um ator confiável, preparado e tecnicamente competente para conduzir o debate climático global.
A Amazônia nos dá um lugar natural de destaque. Mas não garante liderança. Liderança se constrói. E, desta vez, ela escorregou pelas mãos.
