Bell Marques e Axl Rose: Mais coisas em comum do que você possa imaginar
Quase 8 mil quilômetros separam Salvador dos Estados Unidos, mas ainda assim, a cidade da música, reconhecida pela Unesco, conseguiu uma ligação pouco improvável a olho nu, com o estado de Indiana. Apertem os cintos, a viagem neste texto é de modo figurativo, mas faz total sentido para quem ama a teoria dos 7 graus de separação.
Nesta semana, os soteropolitanos foram surpreendidos por anúncio nesta semana que há alguns anos seria quase impossível de acreditar: um show internacional na capital baiana. Mas não é qualquer show. Uma das maiores bandas de rock do mundo irá desembarcar em Salvador para um show na Arena Fonte Nova.
Foto: Site Guns N’ Roses
O grupo Guns N’ Roses confirmou a passagem da nova turnê, ‘Because What You Want e What You Get Are Two Completely Different Things’, para a capital baiana no dia 15 de abril de 2026.
Dias após a revelação sobre a banda de rock, um outro anúncio fez a alegria de fãs tão apaixonados quanto os de Guns e também envolvendo Salvador. O cantor Bell Marques confirmou mais uma edição de sua corrida na capital.
Foto: Instagram
E o anúncio me fez pensar: O QUE LIGA BELL MARQUES A AXL ROSE ALÉM DAS COINCIDÊNCIAS DA VIDA, a exemplo do anúncio na mesma semana e o fato de tocarem basicamente os mesmos instrumentos musicais?
Acredite, as duas figuras tem mais coisas em comum do que você pode imaginar. Ah, e na teoria dos 7 graus de separação, Bell Marques e Axl Rose estão a apenas um aperto de mão, ou melhor, ONE abraço apertado de distância.
BANDANA COMO ASSINATURA
Em setembro de 52, nascia Bell Marques em Salvador. Só dez anos depois é que Axl, em fevereiro de 62, em meio ao Carnaval, mas na terra do Tio Sam, veio ao mundo, sendo assim, a Bahia já sai na frente quando o assunto é pioneirismo, e nessa discussão, antiguidade é posto, sim, afinal, vamos falar de um elemento importante que liga as duas figuras: A BANDANA.
Sim, antes de usar o acessório no melhor estilo pirata do Montila, Bell Marques utilizou a peça como Axl usava no início da carreira, como uma faixa. A bandana se tornou uma marca do artista logo no primeiro ano de uso no Carnaval.
Foto: Arquivo Pessoal
Em entrevista, o artista contou que ao tentar sair em um domingo de Carnaval sem a peça, o público do bloco passou a cobrar a bandana. “Eu usei o primeiro ano no Carnaval de Salvador (BA), e teve um domingo de carnaval que eu saí sem bandana e as pessoas gritavam debaixo: ‘Cadê a bandana?’. Aí eu pensei comigo, ‘eu vou assumir esse negócio’. Pronto! Eu assumi a bandana e acabei tornando isso uma marca muito forte.”
Após ter sido visto com a bandana no casamento dos filhos, Bell explicou que não consegue se ver com o acessório, que também se tornou uma espécie de proteção após uma visita a uma seita.
“Uma vez eu estive numa seita, e a pessoa olhou pra mim e disse: ‘Olhe Bell, você coincidentemente colocou essa bandana, mas não a tire, porque essa bandana lhe protege, e muito. Se você precisar tirar, a pessoa pra quem você tirar precisa estar alinhada com você, na mesma sintonia'”, disse ao UOL.
Já a bandana de Axl surgiu como uma inspiração no estilo do Velho Oeste. A peça, que já era utilizada por artistas como Jimi Hendrix e Janis Joplin, como um símbolo de rebeldia.
Foto: Instagram
Como foi dito, diferente de Bell que utiliza a peça cobrindo toda a cabeça, Axl fazia da bandana uma faixa e costumava utilizar a peça no tom vermelho.
O artista já relatou em entrevistas que chegaram a o aconselhar a tirar a bandana por ser demais. “Alguém me disse que era demais, que eu devia tirar… Eu disse ‘isso sou eu e eu nunca irei abandonar'”.
Além do acessório na cabeça, os artistas tinham estilos semelhantes no restante do look, como os shorts e as regatas nas apresentações.
LIGAÇÃO ATRAVÉS DO ROCK
Que a Bahia é a terra do Axé, isso todo mundo sabe. Mas daqui também surgiram grandes nomes do rock, como Raul Seixas, Camisa de Vênus, Cascadura e Pitty. E o gênero é uma das grandes paixões de Bell.
O artista, um dos maiores nomes do Axé, deu início a carreira na música com a banda Scorpius, que tinha uma pegada rock n’ roll, algo que segue com Bell até hoje.
Fã do rock progressivo, para o artista, o gênero é algo que o orienta no palco e chega próximo ao que ele gosta de apresentar ao público.
O ritmo já esteve presente no repertório de Bell Marques, longe dos covers de Legião Urbana, como a música “Será?”, que é figurinha carimbada nos shows do artista. Para se ter uma ideia, Bell já incluiu Pink Floyd em um show.
CORDA DO CAMALEÃO X MOSH PIT
E nessa linha da comparação entre o Axé e o Rock, nada liga mais os estilos que o comportamento do público em uma corda do Camaleão e um mosh pit em shows de rock. Público pronto para briga, mas tudo na amizade.
Acredite, é tudo no amor. Até mesmo a base armada na lateral esquerda da corda em um domingo de Carnaval quando o trio começa a subir o Cristo tocando Nana Rumbeira. Sim, e a bateção de cabeça ao som de ‘Paradise City’.
A prática, que antigamente era chamada de slam dancing, surgiu no final dos anos 70 no cenário do hardcore punk. O termo “mash” deriva do esmagar, e é bem por aí que o público se comporta nos shows.
Já participar da corda de Bell Marques é uma experiência quase mística, que vem desde a época do Chiclete e nas redes sociais é conhecida como o local de formação dos maiores boxeadores do Brasil.
Para estar nos dois é necessário alguns cuidados, especialmente se você é iniciante. Quem entra precisa saber montar a base. Não porque você vai agredir alguém, mas para se proteger dos empurrões.
Nada é no intuito de machucar, exceto se sua pessoa menos favorita da terra esteja na sua frente. Mas quem vive a experiência garante que é algo transformador.
SELVA BRANCA X WELCOME TO THE JUNGLE
As “semelhanças” entre as partes também chega na música, é claro, com a licença poética. Na selva é possível encontrar animais, plantas, Beto Jamaica e Compadre Washington com o É O Tchan (Tchan Na Selva, 1999), e Bell Marques e Axl Rose.
A selva está presente na vida dos dois artistas e dá nome aos maiores sucessos de Bell, na época com o Chiclete com ‘Selva Branca’, e Axl, com o Guns em ‘Welcome to the Jungle’.
Do lado brasileiro, a canção composta por Carlinhos Brown e Vevé Calazans foi lançada em 1987, no álbum ‘Fé Brasileira’ e se tornou um dos maiores sucessos do Chiclete com Banana. Na música, Bell canta sobre tudo que ele faria por amor, entre dar a volta no mundo, pular o muro e fazer o que quiser de brincadeira.
No mesmo ano, em 1987, Guns lançava a faixa ‘Welcome to the Jungle’ no álbum ‘Appetite for Destruction’. A canção, que assim como ‘Selva Branca’ para o Chiclete, se tornou um hino da banda, foi composta por Slash, Izzy Stradlin, Steven Adler, Duff McKagan e o próprio Axl, e vai no sentido contrário do amor cantado por Bell.
Nela, o roqueiro fala sobre luta pela sobrevivência em um ambiente hostil e perigoso, e sobre como nada vem de graça no mundo real.
Bell e Axl voltam a conversar em outras músicas, mas desta vez, não só apenas palavras que ligam as canções. O sentido das faixas é o mesmo, a dor de um amor. No entanto, Guns saiu na frente com ‘Don’t Cry’.
Lançada em 91, pelo mesmo “bonde” que compôs Welcome to the Jungle, em Don’t Cry, os roqueiros mostram o lado meloso, e pede para que a pessoa que ouve a declaração não chore naquela noite.
Já a faixa, escrita por Alexandre Peixe e Beto Garrido, e lançada pelo Chiclete em 2004 dá a certeza de que quem sente a música com cada célula do seu corpo NÃO VAI CHORAR por tomar aquela decisão. O que sabemos que é uma grande mentira, afinal, todo mundo chora com Não Vou Chorar.
ALCIONE COMO FÃ
Um dos fatos mais curiosos entre Axl e Bell Marques é a ligação improvável entre os artistas. Aqui é chegada a hora de provar que o ícone do rock e o astro do axé estão a apenas um aperto de mão de distância. O “encontro” entre os artistas foi promovido por ninguém mais, ninguém menos que uma das maiores vozes do samba, Alcione.
Admiradora do líder o Guns, Alcione contou em entrevista ao Altas Horas, que foi abordada por Axl durante a passagem da banda pelo Brasil em 2014.
“Estava em Recife, quando ele saiu do hotel e uma brasileira veio dizer que ele queria tirar uma foto comigo. Ela falou ‘é o Axl Rose’, não acreditei e respondi: ‘eu quero é muito’. Já peguei ele logo pela cintura, ele me deu um abraço, me chamou de amazing”, disse na época.
Nas redes sociais existe uma foto de Axl com uma camisa com o rosto de Marrom estampada, um meme da web. Porém, a foto da cantora com uma camisa com o rosto do líder do Guns estampado é real.
O pulo do gato vem quando esta repórter que vos escreve já flagrou um encontro entre Alcione e Bell Marques nos bastidores do Festival de Verão de 2023. (Parece até que sabia que esse texto poderia acontecer). No encontro rápido, a artista conseguiu abraçar o baiano e durante a passagem pela parte da imprensa chegou a falar sobre admirar o artista.
Quem diria que o samba seria o ponto de ligação entre um dos maiores nomes da Axé Music e um ícone do rock? Pois é.
E a pergunta que não quer calar é, será que em abril de 2026 a gente vai conseguir ver um encontro entre Bell Marques e Axl Rose? Ou melhor, será que Bell Marques iria em um mosh pit no show de Guns? E Axl, será que consegue puxar 6 horas de trio elétrico durante seis dias de Carnaval?
Welcome to the Jungle, Bell Marques. E bem-vindo a Salvador, coração do Brasil, Axl Rose.
