O debacle do Barão
No artigo Cumpre não esquecer, tentei contemplar a figura do Barão Geraldo de Resende, um padrão de brasileiro prestante e protagonista da melhoria de sua Pátria. Fez da Fazenda “Santa Genebra” um modelo de propriedade agrícola moderna e afinada com os ideais da fraternidade entre patrão e empregado.
Todavia, ao falecer em 1907, estava arruinado. Enfrentou a adversidade com o decoro e a coragem de um homem de alta linhagem, desses que parecem faltar à contemporaneidade, feita de arranjos, de conchavos e de politicalha. Mediocridade e retrocesso ético, infelizmente abundante em todas as esferas do convívio.
Investira bastante na Estrada de Ferro do Funil, que se viu prejudicada pelo encilhamento, por volta de 1890-1891. O Estado acabou por adquirir a ferrovia, pelo valor da subvenção e pequeno acréscimo para extinguir a dívida flutuante. Muito exígua, porque os acionistas e fundadores abriram mão de seus créditos e ações e se dispuseram a perder tudo, desde que a estrada fosse mantida em pleno funcionamento.
Em 1896, o Barão Geraldo de Resende cedeu ao Instituto Agronômico, então dirigido pelo sábio Dr. Daffert, uma área de terras situada na saída de Campinas, destinando-a à cultura racional de forragens, cereais, legumes e frutas. Isso para incentivar o pequeno agricultor. Foi o modelo inicial do que se veio a chamar “granja modelo”, com a diferença de que tudo era dele e fornecido gratuitamente ao Governo.
Como continua a acontecer, a mudança de governo, agora entregue a Peixoto Gomide, fez com que se pretendesse cobrar do Barão uma verba a pretexto de ter auferido lucros na exploração das próprias terras, cedidas ao interesse coletivo.
Continuava o Barão a adotar tudo o que havia de mais moderno para a sua fazenda-modelo. Instalou maquinária saída das oficinas Lidgerwood, Mac Hardy e Irmãos Arens. Estimulou Augusto Carlos da Silva Teles e Luís G. d’Escragnolle Taunay a apesentarem máquina de seca mecânica, que logo foi instalada na “Santa Genebra”.
Mantinha-se a tradição da propriedade que recebera a visita de D.Pedro II e da Imperatriz, com vistosa comitiva, em 1886. O Imperador viera a São Paulo para inaugurar as linhas férreas da Mogiana, ramal de Poços de Caldas e até Batatais, na linha do Rio Grande.
A campanha republicana estava no auge e a “Gazeta de Campinas”, dirigida por Carlos Ferreira, após a morte de Chico Quirino, fez referência irreverente ao Imperador. Ele tinha voz fina e andava em passos miúdos e muito rápidos. Em vez de “Sua Majestade Imperial”, o jornal o chamou “Sua Velocidade Imperial”.
O Barão Geraldo de Resende, nada obstante a sua têmpera, paradigma de caráter firme e impoluto, enfrentou tempestades e crises das mais graves e lutou como um bravo até o dia de sua morte.
Campos Sales também era fazendeiro e sobreviveu graças ao trabalho de seu irmão o Coronel Joaquim de Sales, enquanto se entregava à restauração das finanças nacionais. Entregou a pasta da Fazenda a Joaquim Murtinho, em momento de queda máxima do café, agravada pela desorganização dos nossos mercados e pelo volume esmagador das safras de alguns anos agrícolas.
A angústia dos anos de 1900 a 1902, ante o mesquinho preço do café-arroba, a agravação dos encargos do custeio, a primeira hipoteca, a devastação de um granizo, tudo culminou para o Barão num outro maior e incurável golpe que lhe fendeu o espírito. Foi a morte da baronesa, ocorrida em julho de 1902. Desse desalento nunca mais se libertou por inteiro.
Ainda assim, o último sonho e a última esperança do barão foi a da cultura e aproveitamento industrial da aramina, fibra estudada por Augusto Carlos da Silva Teles e cuja utilização indicara ao Barão como solução para a derrocada do preço do café. Só que a fibra nacional não recebeu o apoio indispensável ao primeiro surto industrial. Continuou-se a importar juta da Índia e a aramina foi abandonada.
Com a morte do Barão Geraldo de Resende, em 1907, veio a derrocada do grande e modelar centro de pesquisas e cultura agrícola que foi a “Santa Genebra”. Pensou-se em vendê-la ao Estado, para conversão em Escola Agrícola. Mas a ideia dos herdeiros não prosperou. E, em execução hipotecária, foi vendida em hasta pública. O credor que a adquiriu, apurou, na primeira safra, lucro superior ao total da dívida, com juros e mais encargos. Os honestos, quase sempre, são punidos por sua inquebrantável moral negocial. Enquanto isso, os que se socorrem de tramoias e recorrem às engrenagens sórdidas, saem ilesos. É o que, não raro, continua a acontecer.
