7 de fevereiro de 2026
Politica

O Banco Master e o Palácio de Espelhos

Há países em que a República se parece com uma casa de vidro: as paredes são transparentes e a luz do escrutínio público entra por todos os lados. E há outros em que ela se converte em um palácio de espelhos: as imagens se multiplicam, os reflexos se deformam, e o cidadão passa a andar em círculos, sem saber onde está a porta ou até mesmo quem está, de fato, olhando de volta.

O escândalo em torno do Banco Master é, hoje, um desses corredores.

De um lado, fatos graves e objetivos: a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, a intervenção estatal, a investigação policial e o vocabulário que acompanha colapsos dessa natureza: crise de liquidez, violações regulatórias, suspeitas de fraudes, ativos bloqueados, risco sistêmico, repercussão externa. A República, quando chega a esse ponto, já não está diante de um “caso bancário”. Está diante de um teste de credibilidade.

De outro lado, a dimensão que corrói a confiança pública, não pelo que já prova, mas pelo que sugere e exige ser esclarecido com urgência: a notícia de que escritório ligado a familiar de ministro do Supremo teria firmado contrato de R$ 129 milhões para prestar serviços ao Banco Master, inclusive com atuação perante o Banco Central, a Receita Federal e o Congresso Nacional. A cifra não é apenas cifra: é mensagem.

E o problema não é só o valor, mas o ambiente em que isso passa a soar “normal”. Em 2023, o STF derrubou do CPC a regra que impedia o juiz de julgar quando a parte fosse cliente do escritório de seu cônjuge ou parente, mesmo que o familiar não atuasse no processo. O sinal foi ruim, pois quando se reduzem barreiras objetivas, cresce a zona de sombra e os espelhos se multiplicam.

A repercussão do referido contrato seria, por si só, suficiente para acender alertas republicanos. Mas o palácio de espelhos não se constrói com um único espelho. Ele se constrói quando, ao redor do mesmo objeto, surgem reflexos sucessivos: cada um isoladamente explicável; todos juntos, corrosivos.

A informação divulgada de contatos do ministro, cujo familiar representava os interesses do Banco Master, com o presidente do Banco Central para tratar da situação da referida instituição bancária (contatos telefônicos e encontro presencial) adiciona ao enredo o tipo de proximidade que, em democracias maduras, dispara protocolo automático de transparência ativa, registro institucional e explicação pública objetiva.

Não se trata de criminalizar diálogo, mas de reconhecer que, quando o entorno do poder toca interesses econômicos sensíveis, a forma importa tanto quanto o conteúdo. Ainda mais quando se trata de autoridade judiciária, cuja atuação ordinária não se confunde com a esfera regulatória do Banco Central.

A República não vive apenas de decisões, mas da confiança de que elas foram tomadas por procedimentos visivelmente corretos.

E então surge outro espelho: a notícia de que o ministro relator de medida relacionada ao Banco Master teria viajado, em jato particular, para assistir à final da Libertadores no mesmo voo em que estava advogado que atua em caso vinculado às investigações do banco. Some-se a isso a decisão do ministro relator que, em liminar, não anulou as quebras de sigilo aprovadas pela CPMI e pelo juízo de origem, mas determinou que o material já obtido (dados bancários, fiscais e telemáticos/mensagens) fosse retirado do alcance direto dos parlamentares e encaminhado para guarda na Presidência do Senado, onde permaneceria até decisão definitiva do STF.

É o tipo de providência cujo efeito simbólico é inevitável: a percepção de que a luz foi diminuída justamente quando o país pedia claridade.

Em qualquer democracia funcional, episódios assim não seriam tratados como “fofoca”, nem como “ataque às instituições”. Seriam tratados como eventos de risco institucional. Risco não é culpa. Risco é prudência. Risco é o que se administra antes que vire ruína.

O problema, nesse palácio de espelhos, é que o cidadão já vem de uma longa temporada de reflexos parecidos. Há um pano de fundo de anulações e invalidações que, ao longo de anos, sedimentou a percepção pública de impunidade corriqueira nos tribunais superiores. A cada grande operação, repete-se um velho roteiro: nulidades, discussões intermináveis de competência, provas invalidadas, prescrições que avançam como ferrugem e a sensação de que, no andar de cima, o processo não termina, ele evapora.

Foi assim, ao longo de duas décadas, em operações que entraram para o folclore das nulidades (Castelo de Areia, Satiagraha, Boi Barrica, Diamante, Lava Jato, entre outras), reiterando a mesma chave estrutural, pois quando a forma se converte em destino, a substância evapora.

Óbvio que não se trata, aqui, de negar o devido processo legal. Ao contrário, devido processo é pilar civilizatório. O ponto é outro, mais incômodo e mais institucional. Quando a excepcionalidade vira método, quando a tecnicalidade vira destino previsível, quando as portas giratórias do sistema sempre giram na mesma direção, a sociedade para de confiar. E quando a sociedade para de confiar, a toga não protege o tribunal, apenas o isola.

Por isso, insistir em reduzir tudo a nomes próprios é errar o diagnóstico. O que está em jogo não é um indivíduo, mas um padrão que se normaliza: a convivência cada vez mais íntima e, sobretudo, indevida entre gabinetes, grandes interesses econômicos, bancas influentes, eventos seletos, viagens, decisões sensíveis, sigilos e a sensação pública de que o cidadão caminha no escuro enquanto o poder transita em luz própria.

Em um palácio de espelhos, não se sabe quem é quem. E isso é péssimo para a Justiça.

É por isso que, antes de falar em “códigos de conduta”, “quarentenas”, “barreiras mais rígidas”, “transparência patrimonial”, “regras claras de impedimento”, é preciso fazer o óbvio que, paradoxalmente, vem se tornando raro: esclarecer tudo. Levar tudo à transparência pública possível. Investigar com seriedade e independência. Responder a tudo sem blindagens retóricas. E, se houver ilícitos, de qualquer natureza e por quem quer que seja, punir com o mesmo rigor que o Estado aplica ao cidadão comum.

Porque o Estado de Direito não morre quando erra. Ele morre quando a régua muda conforme o sobrenome, o cargo ou a toga. Morre quando a verdade precisa pedir autorização para entrar. Morre quando perguntar vira crime e explicar vira favor.

Depois, sim, falaremos de reformas. Depois, sim, discutiremos arquitetura institucional. Afinal, não se muda a mobília de uma casa sem antes limpá-la.

Antes da engenharia republicana vem a higiene republicana: a luz acesa, a janela aberta, a poeira exposta e a vassoura saneadora. Porque, onde a transparência é tratada como ameaça, o palácio de espelhos já venceu e a confiança pública já saiu há muito pela porta dos fundos.

 

 

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