12 de janeiro de 2026
Politica

Partidos de centro mais fortes tornariam o Brasil mais governável?

Tem se tornado comum atribuir as dificuldades governativas no Brasil à suposta ausência de partidos políticos de centro ideologicamente fortes e programáticos. A conclusão parece intuitiva: faltaria ao sistema político brasileiro um “centro responsável”, capaz de moderar extremos, oferecer previsibilidade e garantir estabilidade.

Mas vale inverter a pergunta: se os partidos de centro fossem de fato ideológicos e programáticos, o governo eleito teria mais ou menos governabilidade?

Nesse sistema, é praticamente inexorável que o partido do presidente não detenha maioria nas duas Casas do Congresso. Governar, portanto, exige a construção de coalizões amplas e heterogêneas. Se os partidos de centro fossem fortemente orientados por programas e ideologias, a dificuldade e o custo de formar e sustentar essas coalizões seriam significativamente maior.

Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão conjunta do Congresso Nacional
Plenário da Câmara dos Deputados durante sessão conjunta do Congresso Nacional

Partidos programáticos têm preferências mais rígidas, linhas vermelhas claras e menor margem para acomodações pragmáticas. Convencê-los a integrar uma coalizão implicaria concessões substantivas de agenda, com impactos diretos sobre a coerência do programa vencedor e sobre a capacidade decisória do Executivo. Em outras palavras, mais centro ideológico poderia significar menos governabilidade – não mais.

No presidencialismo multipartidário, os partidos não se distinguem primordialmente entre fortes ou fracos, mas entre protagonistas e coadjuvantes. Os protagonistas são aqueles que disputam, com alguma chance, a Presidência da República e precisam, para isso, construir identidades programáticas capazes de organizar o espectro ideológico. Já os coadjuvantes priorizam a trajetória legislativa: buscam maximizar bancadas, tornar-se pivôs da coalizão e participar do governo, independentemente de quem vença a eleição presidencial.

Essa posição estrutural gera incentivos muito claros. Para os partidos coadjuvantes, investir em programas nacionais rígidos ou em identidades ideológicas densas tende a ser um mau negócio do ponto de vista estratégico. A flexibilidade – frequentemente rotulada como oportunismo – é, na verdade, uma estratégia racional de sobrevivência e influência em um sistema no qual raramente comandarão o Executivo.

Por isso, a expectativa de que esses partidos se transformem espontaneamente em forças programáticas nacionais ignora a lógica institucional que os molda. No presidencialismo multipartidário, apenas os partidos protagonistas têm incentivos reais para se programatizar. São eles que organizam o debate ideológico; os demais orbitam como satélites, negociando apoio em troca de acesso a recursos e poder decisório.

Uma análise institucional mais rigorosa mostra que o chamado Centrão não é um desvio patológico do sistema; é um produto previsível de seus incentivos.

Isso não significa negar os problemas que ele gera – nem idealizar seus efeitos. Significa apenas reconhecer que defesas normativas de um centro ideológico e programático não são soluções simples para dilemas complexos.

A estabilidade democrática, a coerência programática e a governabilidade não dependem apenas da vontade dos partidos, mas das regras do jogo que estruturam suas escolhas.

Se quisermos um sistema político mais previsível, responsável e programático, o debate precisa ir além da nostalgia de um centro que talvez nunca tenha existido como imaginamos – e encarar, com mais pragmatismo analítico, os limites e trade-offs do presidencialismo multipartidário brasileiro.

Feliz Ano Novo! Que 2026 traga eleições competitivas, resultados legítimos e – sobretudo – vencedores e perdedores dispostos a respeitar as regras do jogo democrático.

 

 

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