República velhaca
A Revolução de 1930 apeou do poder o Presidente Washington Luís, não deixou tomar posse o Presidente Júlio Prestes. Ambos legitimamente eleitos pelo povo.
Mal passado um ano e a decepção tomava conta dos brasileiros que tinham condições de pensar. O poeta Reis Carvalho, um apóstolo positivista, comentava com seus amigos: – “Eles puseram abaixo a República Velha, mas criaram, em seu lugar, a República Velhaca…”
No primeiro aniversário da Revolução, em 24.10.1931, invertiam-se as posições. Havia um ano e a apreensão era dos governistas que tombavam e a esperança dos revolucionários que subiam. Doze meses após, o contrário: esperanças entre os antigos governistas, livres das responsabilidades do governo e apreensão entre os revolucionários, responsáveis por ele.
As funções de chefia na República eram exercidas por elementos forasteiros, pertencentes a clãs gaúchos e mineiros. Evaristo de Morais, um dos adeptos da Revolução, estava descoroçoado. – “Que vergonha isto tudo! O que se vê hoje é uma pândega!”.
E continua a desfilar sua amarga decepção: – “Quem olha de fora, não imagina o que é o saco de gatos deste governo. Vivem todos se hostilizando, se mordendo, se desmoralizando. Denunciam-se uns aos outros, insinuando coisas aos jornais. Nunca se viu tanta falta de tato e de compostura!”
A opinião geral, de uns sobre os outros, é a de que todos são ladrões. “Como se pode respeitar um governo que desmoraliza todos os seus integrantes? Não é uma vergonha?”.
Todavia, como não é raro acontecer, as narrativas são diferentes. A versão oficial costuma glorificar heróis que nem sempre teriam condições de habitar o Panteão da Pátria. Na visão de Humberto de Campos, que sempre usou e abusou da franqueza, alguém que granjeou a profunda afeição dos brasileiros e talvez não a merecesse, foi João Pessoa:
Esse Presidente da Paraíba e considerado “mártir da Revolução, era, pessoalmente, um dos homens mais irritantes e politiqueiros do Brasil, antes do rompimento de 1929. Ministro do Supremo Tribunal Militar, nomeado por seu tio, Epitácio Pessoa, era juiz irascível, que se vangloriava de condenar todos os militares rebelados contra o poder constituído, sem se dar, sequer, ao trabalho de ler o processo. A imprensa que mais tarde o sagrou grande homem, o atacava sem piedade, pondo em relevo o seu temperamento apaixonado e as suas sentenças clamorosas. A sua elevação ao governo da Paraíba, por ser sobrinho do seu tio, foi, igualmente, comentada como um escândalo”.
O que sucedeu foi que João Pessoa, seduzido pela ideia de ser Vice-Presidente da República, recusou apoio à candidatura Prestes. Violento, deu ensejo a uma rebelião no seu Estado, que os adversários não hesitam em tirar proveito. Sem escrúpulos no ataque, invade a casa dos seus contrários, apossa-se de cartas íntimas, de família, e publica-as no diário oficial.
Uma das vítimas dessa felonia, que era de sua têmpera, o assassina. E João Pessoa é erigido à alta condição de Novo Tiradentes, de protomártir da Nova República! Dá-se o seu nome à capital da Paraíba. Cidades e vilas passam a denominar-se “João Pessoa”. Com o nome de “João Pessoa”, batizam-se navios, ruas, praças e jardins do Brasil inteiro. Chega-se a propor esse nome para a Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro. O exagero dessa consagração imerecida chegou, mesmo, a tal ponto, que era corrente surgirem piadas como a que segue:
– “Já soube do pedido da colônia paraibana ao Cardeal?”.
– “Não, qual foi?”
– “Essa gente solicita ao Cardeal do Rio que mude o nome do Cristo Redentor para João Pessoa…”.
Muitas sátiras anônimas contemplavam os descalabros da República Nova. Algumas eram impiedosas, a propósito da destinação a todos os cargos rendosos por gaúchos e pelo rendoso exercício da advocacia administrativa por aqueles que não conseguiram nomeação estatal.
Dizia-se que um gaúcho ganhou uma fortuna na loteria e foi para o RS gastá-la. Embebedou-se e foi jogando cédulas no caminho do bar até sua casa. No dia seguinte, devolve-se a ele toda a quantia que arremessara pelas ruas. Ele estranha e diz: – “Que incrível! Nesta terra não há ladrões?”. E a resposta é: – “Não. Os que havia, foram todos para o Rio de Janeiro!”.
Nada muito diferente do que se passa em outras Repúblicas que substituíram a “Velhaca”!
