Não terceirize sua vida
O brasileiro é um povo infantil. Apaixona-se facilmente, não só por pessoas, mas por modismos e tendências. A Inteligência Artificial, por exemplo. Parece uma comoção generalizada. Pegou mais do que a Covid. É o país em que houve maior adesão a essa tecnologia.
Ela é útil. Evidentemente é. Mas não é a solução para todos os problemas brasileiros, que parecem crônicos e se agravarem de ano para ano. Quando se dispõe de um mecanismo que não só busca respostas, mas que responde de forma ordenada, faz resumos, acréscimos, corrige o português e entrega algo pronto e acabado, não é remoto o risco de se entregar a essa ferramenta aquilo que deveríamos fazer pessoalmente. E que, elaborado pela máquina, nos privou de examinar, analisar, criticar, rever e concluir.
O sul-africano Roger Spitz, CEO da Disruptive Futures Institute, até cunhou uma palavra: “tecexistencialismo”, a partir da filosofia existencialista de Camus, Heidegger e Kierkegaard, para os quais a tomada de decisão é uma opção exclusivamente humana. Já em nossa era, estamos vivenciando o fenômeno da tomada de decisão ser algorítmica, subtraída à consciência humana.
Os domínios complexos não podem ser entregues à máquina. Os estudantes já estão delegando tarefas de pesquisa e de elaboração de trabalhos escritos para a IA. Isso é ruim para eles mesmos. O método da entrega da tarefa para outrem não é recente. Já convivi com realidades em que os trabalhos solicitados pela Cátedra eram elaborados por outros alunos, que ganhavam dinheiro com isso.
Quando eu tomava conhecimento, aplaudia quem elaborava, lamentava quem pagava. Dizia: o contratado para elaborar o trabalho, além de ganhar dinheiro, ainda ganhou sabedoria. Pesquisou, elaborou o texto. Aprendeu coisas que talvez não tivesse assimilado, não fora a contratação para o trabalho.
Hoje quem faz a pesquisa e elabora o trabalho é o computador. E este não precisa de paga, a não ser o custo do equipamento e sua manutenção. Mas persiste a perda de aquisição de conhecimento de parte de quem abdica de pesquisar, de estudar, de ter dúvida, de criticar e de elaborar o TCC, o ensaio, a dissertação ou a tese. É um enorme prejuízo. Irrecuperável na maior parte das vezes.
Para o professor Spitz, “nós, humanos, estamos ficando menos qualificados, nos tornando menos versáveis em dar sentido e tomar decisões. O perigo, voltando ao tecexistencialismo, é que os humanos estão se tornando mais parecidos com máquinas apenas automatizando”.
O grande problema na utilização crescente e permanente da IA é que, quanto mais se recorre a ela, “em detrimento do nosso próprio pensamento e criatividade, maior é o risco de nos tornarmos menos hábeis na resolução desses desafios. A natureza desses problemas é dinâmica, emergente, múltipla em ambientes não lineares. Não se pode permitir que a humanidade delegue inteiramente a resolução às máquinas”.
Nossa era nos oferece a não remota possibilidade de extinção da vida sobre a Terra – toda espécie de vida, inclusive a humana – em virtude do aquecimento global, que é causado por nós mesmos. E essa extinção já começou, quando a humanidade desiste de pensar, de avaliar questões complexas, de tentar encontrar alternativa. Quando a humanidade receia errar e mergulha no clima de competitividade em que todos têm de ser os maiores, os melhores, os perfeitos, os insuperáveis.
A liberdade de escolha é a prerrogativa que resta à humanidade, para que ela saiba aferir a gravidade do problema e debater opções que impeçam a catástrofe final. Sem liberdade de escolha, os seres humanos são marionetes, movidos pela vontade soberana do mercado, destinados a fazer parte de um grande jogo, estimulado pelo consumo e que tem como efeito secundário adormecer a consciência, brecar o discernimento, comprometer o que um dia já se chamou de “livre arbítrio”.
Por isso, menos paixão louca e avassaladora em relação à IA. Ela é valiosa sim, prestativa, sim. Útil. Mas ferramenta. Ela não é pessoa, ela não é “amiguinha”, ela não é confidente. Ao contrário: se você deixar, ela vai deixar você mais parecido com ela, máquina, do que você já foi antes dela.
