Deposição de Maduro era notícia desejada por milhões de refugiados venezuelanos
15 de setembro de 2024. Santa Helena de Uairen, Venezuela, na fronteira com o município de Pacaraima, em Roraima. Uma empresária local, empobrecida, externa um desejo para seu país a um grupo de brasileiros que se aventurava por ali naquele período conturbado. “Que deem um tiro no coração daquele homem”, afirmou. Referia-se ao (ex?) presidente Nicolás Maduro, apeado hoje do poder após uma ação truculenta ordenada pelo presidente americano Donald Trump.
28 de julho de 2024. Dia das eleições presidenciais na Venezuela. Em um Uber, em Lima, capital do Peru, brasileiros comentam com o motorista venezuelano que as pesquisas divulgadas concluíam que o oposicionista Edmundo González Urrutia seria sagrado vencedor. “Sem chance, irão roubar para Maduro”, comenta o profissional, cético com os destinos de seu país. Numa história bastante nebulosa, Maduro é declarado vencedor pelas autoridades locais.

No meio tempo entre os dois eventos, em Boa Vista, Roraima, onde residia esse colunista, observa-se a chegada diária de dezenas de refugiados da Venezuela via BR-174, que liga os dois países. A cidade, com cerca de 400 mil habitantes, apenas naquele ano de 2024, recebeu 60 mil refugiados, de acordo com a Operação Acolhida.
Os venezuelanos se viram por lá. Muitos se integram à cidade em profissões como garçons, pedreiros, atendentes de farmácia (neste caso, um estudante de medicina que abandonou seu país prestes a se formar e tentava estudar no Brasil). Um vendedor de livros dominava até o latim, assim como ler partituras de canto gregoriano do estabelecimento católico. Havia postos de saúde na capital mais ao norte do país que atendiam mais venezuelanos do que brasileiros. Outros se espalham por todo o Brasil até os dias de hoje, como se pode perceber pelos voos que saem de Boa Vista.
Todos que foram perguntados sonhavam com a volta à Venezuela. Mas antes queriam a saída de Maduro, agora tido como ditador. Deixaram seu país natal por falta de opções. Não havia mais trabalho. Tornou-se imensamente perigoso. Em alguns casos, era difícil conseguir comida. Deixaram parentes por lá e estavam apreensivos.
A ação de Trump não tem respaldo no direito internacional. Alegar que a Venezuela é um narcoestado que prejudica os Estados Unidos não tem guarida nos fatos, aparentemente. A ação americana pode justificar ataques da Rússia à Ucrânia e, no futuro, pode servir de desculpa para uma agressão à Taiwan por parte da China, entre outros desdobramentos impensáveis. Pode ser uma péssima notícia para o mundo, mas era, de alguma maneira, esperada pelos venezuelanos.
