Lula perde timing para mediação, e Trump impõe lei do mais forte sobre Venezuela e Brasil
O governo Lula manteve movimentos pendulares em relação à Venezuela na atual gestão e agora enfrenta mais um dilema após a captura do ditador Nicolás Maduro: precisa evitar atritos diretos com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A situação ficou clara no malabarismo textual da manifestação de Lula neste sábado, 3. O petista condenou a ofensiva militar dos EUA contra a Venezuela, mas evitou mencionar o chefe que ordenou toda a estratégia.
Como destacou Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Trump adotou a doutrina Monroe, que é a aplicação da lei do mais forte, como comprovado na captura de Maduro.
Fato é que foi difícil para Lula costurar um acordo com o americano para acabar com o tarifaço sobre os produtos brasileiros. Mas a porta foi aberta e ele ainda conseguiu “uma química” com Trump. Com isso, deixou seus principais adversários políticos do bolsonarismo desolados. Logo, não haveria vantagem alguma em disparar contra Trump.
Não é certo que conseguirá simpatia de Trump com o gesto. Analistas internacionais avaliaram que o tom foi muito elevado, alinhando-se ao “discurso anti-imperialista” que seu partido, o PT, faz questão de ressaltar para atacar o governo americano, independentemente do assunto em pauta.
E, se antes o presidente Lula ficava com os pés entre o tom mais radical de apoio do seu partido ao ditador Nicolas Maduro – que nunca sequer apresentou provas de sua eleição – e o equilíbrio da diplomacia, que por muitas vezes foi ofuscada pela atuação paralela do ex-chanceler Celso Amorim, agora pisa em ovos na relação com Trump.
Brasil não consegue ser mediador na crise da Venezuela, diz pesquisadora da USP
Para a professora Marsílea Gombata, que leciona Relações Internacionais na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e é pesquisadora na Universidade de São Paulo (USP), o governo brasileiro não consegue ser um mediador na crise da Venezuela. Gombata disse que o Brasil deve se limitar a condenar os ataques sem fechar o canal de diálogo com os EUA, o que Lula fez neste sábado.
“Acredito que essa etapa de o governo brasileiro ser mediador já passou. Os EUA retiraram à força o presidente do país. O que o governo brasileiro pode fazer é condenar de maneira estratégica os ataques sem fechar os canais de diálogo com o governo americano. Em outros tempos poderia liderar uma posição conjunta na região, mas esse cenário parece distante hoje”, afirmou a pesquisadora à Coluna do Estadão.
