26 de fevereiro de 2026
Politica

O risco da democracia por intervenção

O grande receio de um autocrata personalista é sempre o mesmo: o de “perder a própria cabeça”.

Maduro perdeu a oportunidade de negociar um ticket de saída quando se recusou a reconhecer sua derrota nas eleições presidenciais da Venezuela, contribuindo decisivamente para o colapso da democracia no país. Cometeu, assim, um erro recorrente entre ditadores: não saber quando iniciar uma transição pactuada e pacífica de poder.

Se tivesse “jogado para perder” nas eleições, é plausível que tivesse garantido algum tipo de salvo-conduto. Teria projetado a imagem de um líder disposto a conduzir uma transição responsável para a democracia. Em vez disso, caminha agora para enfrentar julgamento e, muito provavelmente, condenação por tráfico internacional de drogas.

Nicolas Maduro preso por militares dos Estados Unidos no último sábado
Nicolas Maduro preso por militares dos Estados Unidos no último sábado

O problema, contudo, transcende Maduro. Ele atinge de forma mais ampla a América Latina. O suposto “salvador” da democracia venezuelana frente ao autoritarismo bolivariano foi Donald Trump — ele próprio um líder de perfil altamente personalista, pouco afeito a restrições institucionais, a tratados internacionais e com ambições de caráter imperial.

A literatura comparada mostra que intervenções externas nem sempre produzem resultados negativos. Daron Acemoglu, Nobel de Economia de 2024, e seus coautores argumentam, em “The Consequences of Radical Reform: The French Revolution, que a imposição de reformas institucionais durante a Revolução Francesa — como o Código Napoleônico — teve efeitos econômicos positivos de longo prazo.

Ao remover barreiras legais que protegiam oligarquias e ao instituir igualdade perante a lei, direitos de propriedade mais claros e melhor execução de contratos, essas reformas estimularam a atividade econômica, a inovação e, posteriormente, a industrialização.

O risco central, porém, é que a intervenção americana na Venezuela caminhe na direção oposta. As sinalizações iniciais do governo Trump são inquietantes. Ao sugerir que o destino político venezuelano não será decidido por seus cidadãos, mas por Washington, mina-se um princípio básico da democracia: a autodeterminação popular.

A Venezuela realizou um processo eleitoral considerado legítimo por observadores internacionais, que reconheceram Edmundo G. Urrutia como vencedor do pleito. É esse governo que detém legitimidade democrática para governar o país.

Derrubar um autocrata não é sinônimo de construir democracia. Sem respeito às escolhas eleitorais, às instituições e à soberania, o risco é substituir um autoritarismo doméstico por uma tutela externa — igualmente corrosiva para a democracia.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *