Riscos geopolíticos em alta testam a margem de manobra do Brasil
Todo ano, publicamos na consultoria Eurasia um relatório com os principais riscos geopolíticos da atualidade. Em 2026, o calendário mal começou e os Top Risks já vieram na esteira de um ataque histórico dos Estados Unidos à Venezuela. Ainda assim, temos 360 dias pela frente, e vale olhar para outras histórias e tendências que devem moldar o mundo nos próximos meses.
Dos dez riscos citados no relatório, três se destacam por estruturar o cenário global.
O primeiro é a revolução política em curso nos Estados Unidos. O segundo mandato de Donald Trump tem sido marcado pela erosão de contrapesos institucionais e pela centralização do poder Executivo.

É provável que Trump sofra derrotas eleitorais nas eleições legislativas de 2026 e que os democratas recuperem a Casa Branca em 2028. Ainda assim, é pouco provável que as instituições americanas e sua política externa simplesmente retornem ao status quo anterior. O risco de uma erosão democrática mais profunda do que a observada até aqui permanece no horizonte.
Até agora, os efeitos econômicos desse processo foram brandos. A economia americana seguiu crescendo, o dólar perdeu força e o ambiente financeiro internacional permaneceu relativamente favorável.
Mas a combinação de incerteza fiscal, pressão política sobre o Federal Reserve e decisões unilaterais em comércio e segurança tende a aumentar a volatilidade global e a sensibilidade dos mercados a choques políticos vindos de Washington.
O segundo risco é o descolamento entre Estados Unidos e China nas tecnologias ligadas à energia e à transição climática. Chama atenção o grau de assimetria que se formou.
A China lidera cadeias produtivas inteiras — de painéis solares a baterias e veículos elétricos — em uma escala difícil de ser replicada, enquanto os Estados Unidos, sob Trump, redirecionam sua estratégia energética para os combustíveis fósseis.
Países passam a depender de tecnologia chinesa para cumprir metas climáticas, ao mesmo tempo em que enfrentam pressões geopolíticas para reduzir essa dependência. Em 2026, essa tensão tende a se aprofundar, com impactos diretos sobre investimentos, cadeias produtivas e disputas comerciais.
O terceiro risco é a reafirmação do poder americano no hemisfério ocidental, sintetizada na nova Doutrina Monroe – já rebatizada como “Donroe”, de Donald Trump.
O risco de novos ataques em grande escala contra outros países da região ainda é pequeno, mas a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela é um sinal de que Washington está disposto a recorrer a instrumentos mais duros — militares, econômicos e diplomáticos — para conter ameaças e reordenar alianças. Essa postura aumenta a incerteza política na América Latina e recoloca a geopolítica no centro da agenda, algo que havia perdido força nas últimas décadas.
O relatório cita ainda outros riscos relevantes: a deflação na China, as estratégias das empresas de inteligência artificial, as divisões políticas na Europa, entre outros. É a partir desse pano de fundo que vale olhar para as implicações mais diretas desse cenário para o Brasil.
Aqui, o impacto dos riscos globais tende a ser menos direto e mais ambíguo. No plano geopolítico, a posição do Brasil é singular. O País combina expansão da produção de petróleo com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e acesso a minerais críticos. Isso cria espaço de negociação tanto com os Estados Unidos quanto com a China, sem exigir alinhamentos automáticos.
Navegar esse ambiente não será simples, especialmente em temas como tecnologia, infraestrutura e defesa, mas o Brasil terá algum espaço para aprofundar o debate sobre sua autonomia e fazer escolhas; mais espaço do que muitos de seus vizinhos. A sociedade civil e a academia terão papel relevante nessa atualização estratégica, à medida que a geopolítica impõe dilemas cada vez mais complexos.
No curto prazo, a política americana para a região tende a gerar atritos pontuais. A situação na Venezuela pode atrasar o acordo bilateral em negociação com os Estados Unidos, mas a experiência recente indica que pressões externas nem sempre enfraquecem o governo brasileiro; em alguns casos, produzem o efeito contrário, reforçando sua posição doméstica.
Para o Brasil, por ora, um dos riscos globais mais relevantes é a desaceleração prolongada da economia chinesa e sua tendência deflacionária. No curto prazo, isso tem beneficiado o País.
Importações mais baratas ajudam a conter a inflação e aliviam pressões sobre a política monetária. Mas a dependência brasileira da demanda chinesa por commodities expõe vulnerabilidades conhecidas. Ainda não há diversificação suficiente para compensar uma China estruturalmente mais fraca. Além disso, setores industriais continuam pressionados pela concorrência externa.
Outro ponto sensível é o impacto da inteligência artificial sobre o processo eleitoral. O Brasil entra em 2026 com regras recentes do Tribunal Superior Eleitoral, que proíbem usos específicos de IA, como deepfakes e simulações de candidatos. O desafio, porém, está na aplicação.
A experiência recente sugere que punições tendem a chegar tarde, quando os efeitos eleitorais já ocorreram. Há também formas mais difusas de influência, como o uso de sistemas de IA como fonte de informação por eleitores indecisos, especialmente em disputas decididas nos últimos dias de campanha.
Uma resposta excessivamente dura do Judiciário pode ainda suscitar reações externas, reforçando temores de interferência no processo eleitoral brasileiro.
