A briga pelos ativos do Master e os riscos para a credibilidade do BC e para as investigações da PF
O Tribunal de Contas da União (TCU) pediu uma inspeção em papeis sigilosos do Banco Central sobre a liquidação do Banco Master de Daniel Vorcaro.
Circulam informações de bastidor de que haveria pressão política para reverter a liquidação do banco, ou seja, desfazer com uma canetada o que foi feito pelo BC, que encontrou uma fraude bilionária, e colocar o Master de volta para funcionar. A realidade pode ser ainda mais complexa e, nem por isso, menos preocupante.

Vorcaro sabe que está fora do jogo.
Desde antes do escândalo, vinha tentando encontrar um comprador para o Master, porque perdeu um dos ativos mais relevantes do mercado bancário: credibilidade. Depois de tudo que aconteceu, quem vai se arriscar a tomar crédito e comprar um papel das mãos dele?
O que o banqueiro pediu ao TCU é que revise as ações do liquidante, indicado pelo Banco Central. E na decisão em que pede a inspeção, o relator, o ministro Jhonatan de Jesus, já avisa que pode impedir o BC de vender os bens do Master durante o processo de encerramento das atividades do banco.
A venda dos ativos é um processo necessário para pagar os credores. O Master tem dívidas trabalhistas, com fornecedores e, principalmente, com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Mantido pelas contribuições dos grandes bancos, o FGC teve que cobrir um rombo de R$ 41 bilhões no mercado ao ressarcir os correntistas do Master que tinham aplicações no banco. Muitos deles compraram papeis arriscados, com a perspectivas de altos lucros, que não se concretizaram.
É briga de cachorro grande. Fontes próximas a Vorcaro dizem que ele quer o “preço justo” pela venda dos ativos, que, obviamente, se desvalorizam com a liquidação. Os potenciais compradores desejam pagar barato.
Se o TCU intervir e o ministro bloquear a venda dos bens do Master, o banqueiro pode conseguir descongelar seus bens? Se algum suposto vício de processo aparecer lá na frente, Vorcaro pode tentar alguma indenização? Como uma canetada do TCU afetaria os processos contra o próprio Vorcaro na Justiça?
O céu é o limite para as especulações do que pode surgir da máquina do Judiciário.
Mas existem dois fatores importantíssimos em jogo nessa história: a credibilidade do Banco Central e as investigações da Polícia Federal.
O Brasil só conquistou a autonomia do Banco Central em 2021 e nunca a autoridade monetária esteve sob tanta pressão. Trata-se de um órgão técnico competente que teve a coragem de enquadrar um banqueiro com múltiplas relações políticas em Brasília.
O setor financeiro saiu em seu socorro com duas notas, mas até agora de forma tímida. Manifestações genéricas, sem entrevistas. O governo até agora pouco se envolveu. É preciso fazer mais. A credibilidade do BC é uma conquista do Brasil.
O material nas mãos do BC também é a base das investigações da Polícia Federal, que tem potencial para revelar uma teia de interesses da política brasileira, envolvendo principalmente políticos do centrão. A depender do que ocorrer no TCU e no Supremo Tribunal Federal (STF), podemos perder o que já foi investigado e travar o que a PF ainda poderia descobrir.
