O relegar das tradições
Em 2027, falta pouco, portanto, celebrar-se-á o bicentenário da criação dos Cursos Jurídicos no Brasil. Em São Paulo, o diretor das Arcadas pretende, entre outros eventos, inaugurar um bulevar que ligará o edifício Saldanha Marinho, prédio tombado que sediou a saudosa Companhia Paulista de Estradas de Ferro, à Escola Álvares Penteado, que integrará a Faculdade de Direito da USP. Tomara não encontre entraves para a implementação desse projeto.
Mas algo que parece ter se perdido é o espírito de pertencimento e orgulho a cada turma de bacharéis produzida pela São Francisco. Já não existe aquela “liga” que tornava os integrantes como que cimentados em fraternidade. Hoje, parece que não existe mais o espírito acadêmico, a solidariedade entre estudantes que se irmanavam, se conheciam bem, se tornavam amigos íntimos.
Depoimentos de historiadores que registravam as turmas iniciais desapareceram. Leio, com prazer, o relato de Pelágio Lobo, “A turma acadêmica de 1906/1910”, que faz parte do livro “Velhas Figuras de São Paulo” e lamento que as posteriores já não possuam essa documentação afetiva.
Pelágio conta que eram setenta e três, o menor número das Arcadas. Dentre eles, dezoito que dependiam de Direito Romano, pois em 1905, Pedro Lessa provocara o diretor Vicente Mamede aprovando a esmo muitos alunos, inclusive os que não frequentavam as aulas. Só que Reinaldo Porchat se esmerou em tornar mais severa a aprovação. Daí os dependentes.
A figura mais interessante era Ricardo Gonçalves que vinha da turma de 1904. Fizera só uma cadeira em 1905 e foi passando como legado precioso de umas para outras turmas. Não tinha pressa em terminar o quinquênio.
No primeiro ano, em 1906, dois professores magníficos, com fama de rigor, assiduidade e circunspecção. Pedro Lessa e Reinaldo Porchat. A aula deste era impressionante. Era orador de alto coturno. Moço no aspecto, na marcha e na fala. Já Pedro Lessa era corpulento, ofegava nos arrancos dos primeiros períodos. Era bom garfo e suas aulas à tarde registravam o peso da refeição.
A musa brincalhona e irreverente dos acadêmicos fizera a efígie caricatural de Pedro Lessa, escrito por Agenor Silveira: Bate o quarto, depois do meio-dia/A grita infrene dos calouros cessa/Pesado e gordo, surge Doutor Lessa/O nosso lente de Filosofia/Esbaforido e suado, entrou. Sombria/No grave rosto traz a raiva impressa/Sentou-se. E agora a preleção começa/E começa também nossa agonia…/Um silêncio tristíssimo enche a sala;/E vala o mestre, coisas graves fala/Num discurso pesado, extenso, informe. /Agora, as próprias moscas adormecem…/ E dorme a classe – e os gestos amortecem/ E a sintaxe do mestre também dorme…
Já não se fazem sonetos como este. Perdeu-se a graça, o tom pitoresco, o humor fino. Que o digam as mensagens às vezes chulas e insossas das redes sociais.
Registrou-se também a participação do “moço da Congregação”, José Ulpiano, que era um entusiasta do Direito Romano. No final do ano, João Arruda, erudito e simpático. Com esse quarteto, terminou o primeiro ano.
No segundo ano, três lentes de formação espiritual e didática diferente: Herculano de Freitas, Oliveira Coutinho e Dino Bueno. Herculano de Freitas, docente de Direito Público, era um dominador da tribuna que, na cátedra e no curso de excepcional e inesperada assiduidade, se impôs à benquerença dos estudantes assim como se impusera à admiração fervorosa, pelo brilho de suas lições, a variedade e vivacidade dos seus argumentos e o tom risonho com que sublinhava fatos políticos e históricos ou críticas a intérpretes da lei básica, numa profusão de ideias que deixavam o auditório dominado pelo fulgor daquelas cintilações.
Era tão bisonho e amigo dos acadêmicos, que na prova escrita, sobre o “voto feminino”, sorteado o ponto, Herculano declarou, com seu permanente sorriso: “Tomo a liberdade de adverti-los que, desde antiga data, foi suprimida, nesta cadeira, a instituição da “cola”. Os senhores poderão, todavia, consultar o Barbalho e algumas notas que hajam esquecido dentro dele”.
Em seguida, acendeu um charuto, abriu o “Correio Paulistano” e deixou a classe entregue às suas cogitações.
Quais os alunos que hoje se devotam a anotar curiosidades e a traçar o perfil afetivo de seus professores? Às vezes, nem sabem o nome do docente, menos ainda se preocupam com procurar sabê-lo. Perdeu-se muito do encanto no ensino jurídico, hoje pasteurizado e homogeneamente pobre.
