Como se ‘desliga’ uma ditadura na América Latina?
É sempre um risco resumir de modo simples um problema complicado. No affair Venezuela, porém, há uma boa maneira: se ao cabo disso tudo a ação americana ajudar na redemocratização da Venezuela, Trump entra para a história; se tudo terminar em uma “cabala ilegítima de mini-Maduros dirigida por Trump”, como definiu um ranzinza Thomas Friedman, no Times, será apenas mais uma vergonha – e das grandes – dos americanos na América Latina.

O próprio Friedman vaticina: “Trump veio para libertar o petróleo, não o povo”. A curto prazo, ele tem razão. No “plano Rubio” constam três etapas: estabilizar o regime, reconstruir a base econômica e redemocratizar o país. Os americanos levaram meses avaliando opções para o day after da intervenção.
Uma opção: abertura rápida do regime, trazer Maria Corina, marcar eleições e tudo mais. Em alguns meses a Venezuela seria uma democracia dinamarquesa. Agradável ilusão. A oposição é popular, mas desestruturada. O chavismo controla a estrutura do Estado e há milícias armadas – os “coletivos” – por todo o País.
A segunda alternativa foi operar com o chavismo remanescente. Um governo desmoralizado e manipulável. Faz sentido? O tempo dirá. Simplesmente não é crível imaginar uma ditadura socialista satélite dos Estados Unidos, comandada por Trump, na América Latina.
A tolerância obtida pelos americanos a sua investida deveu-se exclusivamente à ilegitimidade de Maduro. E aqui temos o problema central: uma democracia constitucional, a longo prazo, é vital para o investimento privado. Empresas americanas como a Exxon Mobil e a ConocoPhillips já sofreram processos de expropriação, em especial na era Chávez.
Por que estas empresas fariam investimentos de longo prazo em um país cuja regra do jogo depende dos bons ou maus humores da facção que está no poder? “Já perdemos nossos ativos lá duas vezes”, diz o Presidente da Exxon, e agora precisamos “um governo estável e mudanças no quadro jurídico do país”. Investimentos supõem confiança institucional, direitos de propriedade, estabilidade jurídica. Algo que, nas condições da Venezuela, só um governo constitucional pode oferecer.
“Mas então a intervenção é legítima?”, me perguntam, em um debate. “Como se faz exatamente para “desligar” uma ditadura, na América Latina?”, devolvo. Na hora, me veio à mente as imagens de Obama em Cuba, em 2016, desfilando por Havana, discursando na TV estatal, fazendo apelos pela democracia ao lado de Raul Castro.
Muita gente achou que seu charme iria dobrar a ditadura. Que o diálogo, o soft power e o brilho dos valores americanos fariam “despertar a sociedade civil”, como escutei de um bom amigo, à época. O resultado foi um fiasco diplomático. A presença de Obama acabou sendo usada pela ditadura, com direito a uma carta desaforada de Fidel, esnobando o presidente americano.
Agora temos a volta do big stick. Se ele ajudar na reconversão da Venezuela em uma democracia, isto tudo ganhará legitimidade. Caso contrário, terá sido apenas mais fiasco, dessa vez nada diplomático, na triste América Latina. O futuro dirá.
