12 de janeiro de 2026
Politica

Venezuela, geopolítica e os limites da narrativa simplificada

O debate internacional sobre a Venezuela tem sido marcado por explicações fáceis e recorrentes. Ideologia, autoritarismo e narcotráfico aparecem com frequência como chaves interpretativas para justificar tanto a crise interna do país quanto a postura adotada pelos Estados Unidos. Embora esses elementos façam parte do cenário, eles são insuficientes para compreender a persistência, a intensidade e, sobretudo, a racionalidade da pressão exercida sobre Caracas.

A questão venezuelana está menos ligada a um juízo moral ou ideológico e mais inserida em uma lógica clássica de geopolítica. A Venezuela concentra ativos de alto valor estratégico: possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e ocupa uma posição geográfica sensível, conectando o Caribe à América do Sul e influenciando rotas marítimas, energéticas e logísticas no hemisfério ocidental. Em termos de planejamento territorial, território não é apenas espaço físico, mas um conjunto de atributos econômicos, políticos e logísticos que moldam relações de poder.

Sob esse prisma, a orientação externa da Venezuela ganha centralidade. A intensificação das relações do país com China e Rússia altera a dinâmica histórica de influência dos Estados Unidos na América Latina. A resposta americana deve ser compreendida como uma estratégia de contenção em um contexto internacional cada vez mais multipolar, no qual o controle indireto de áreas estratégicas tende a substituir intervenções militares diretas.

É nesse contexto que se insere a recorrente narrativa do narcotráfico. O problema é real e grave na América Latina, mas sua centralidade no discurso sobre a Venezuela é seletiva. Se o narcotráfico fosse o critério determinante da política externa norte-americana, países com maior produção e exportação de drogas ocupariam o centro das sanções e do isolamento internacional — o que não ocorre de forma consistente. A classificação da Venezuela como “narco-Estado” cumpre, portanto, uma função política específica: legitimar sanções econômicas amplas, restrições financeiras e isolamento diplomático sem a necessidade de um debate mais aprofundado sobre integração regional, cooperação institucional ou estratégias de desenvolvimento.

Do ponto de vista do planejamento e do desenvolvimento regional, essa abordagem é contraproducente. Sanções prolongadas fragilizam economias, desorganizam cadeias produtivas e estimulam atividades informais e ilegais. Além disso, intensificam fluxos migratórios e ampliam a pressão sobre serviços públicos nos países vizinhos. Em uma região marcada pela interdependência, os efeitos de uma crise prolongada não se restringem às fronteiras nacionais.

Desenvolvimento regional não se constrói por meio de isolamento e bloqueios, mas por coordenação entre Estados, fortalecimento institucional e integração econômica. A substituição dessas ferramentas por narrativas de criminalização tende a perpetuar instabilidades, não a superá-las. No caso venezuelano, o essencial tem sido ofuscado: o debate internacional afastou-se da discussão sobre planejamento territorial, autonomia regional e desenvolvimento de longo prazo.

O que está em disputa não é apenas o futuro de um país, mas a capacidade da América do Sul de definir seus próprios rumos em um contexto global de competição entre grandes potências. Para o Brasil, cuja estabilidade econômica e social depende de um entorno regional previsível, essa não é apenas uma questão de política externa, mas um tema central para qualquer estratégia consistente de planejamento e desenvolvimento.

 

 

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