‘MDB pode não apoiar nenhuma candidatura presidencial em 2026′, diz presidente do partido
Se a eleição deste ano caminhar para uma nova rodada de polarização, a tendência é que o MDB adote uma posição de neutralidade, afirma o presidente do partido, deputado federal Baleia Rossi (SP), em entrevista ao Estadão. Segundo ele, a equação muda se surgir uma candidatura de perfil mais ao centro, como a dos governadores Ratinho Júnior (Paraná) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), ambos do PSD, cenário que poderia levar o MDB a discutir um apoio formal.
Baleia Rossi reconhece que, qualquer que seja a decisão da convenção sobre o rumo do partido, ela certamente não será unânime. Mas o dirigente garante que posições divergentes serão respeitadas.
“Independentemente da decisão do MDB, tanto a ala que pode apoiar o Lula quanto a que pode apoiar o Flávio (Bolsonaro), isso vai ser respeitado como uma posição individual, vai ser algo permitido. Nós não temos uma imposição, a decisão não é de cima para baixo.”

Em uma conversa de quase uma hora, Baleia disse ainda acreditar que Tarcísio de Freitas (Republicanos) será candidato à reeleição em São Paulo. Sobre o discurso de lideranças que apontam o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como um adversário mais fácil de ser desbancado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o dirigente afirma preferir não subestimar nenhuma candidatura. Ele lembra que, quando Lula recuperou a elegibilidade, aliados do então presidente Jair Bolsonaro (PL) comemoraram, avaliando que ele seria o melhor oponente.
Questionado sobre um eventual apoio do MDB a Flávio, Baleia não fechou a porta e citou que há lideranças na sigla, como o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, que já declararam apoio ao filho de Bolsonaro. Ao mesmo tempo, indicou que o partido mantém maior afinidade com outros nomes.
Veja os principais trechos da entrevista:
Lula cobrou que ministros escolham um lado na eleição. Como o senhor avalia essa cobrança?
A posição do presidente é absolutamente natural. Ele tem a expectativa de que os ministros que estão servindo ao seu governo o apoiem. Desde o primeiro momento, o MDB, que teve a Simone Tebet como candidata à Presidência, decidiu ter uma relação colaborativa com o governo federal. Nós sugerimos três nomes para compor o governo e estamos votando aquelas agendas que acreditamos que são compatíveis com os posicionamentos do MDB. Só que o MDB é diferente dos outros partidos, porque não tem dono. É um partido democrático e exerce a democracia interna em todas as grandes decisões. Portanto, quem vai definir 2026 não é o presidente Baleia, não são os ministros, prefeitos, governadores, deputados ou senadores, mas a nossa convenção. O partido tem diferenças regionais. Sabidamente, o Nordeste é mais pró-governo. Metade do Norte também. Centro-Oeste, Sul e Sudeste são mais contra uma aliança com o PT. Agora, essas diferenças vão ser discutidas.
Tem algum problema os ministros estarem no projeto do Lula e o partido eventualmente estar em outro projeto? A ministra Simone, por exemplo, declarou apoio ao Lula.
Se você conversar com o prefeito Ricardo Nunes, prefeito da maior cidade da América Latina, ele não quer aliança com o governo. O mesmo vale para Sebastião Melo, prefeito de Porto Alegre, Daniel Vilela, vice-governador do Caiado. Se você perguntar para os três ministros, é claro que, naturalmente, eles querem aliança com o governo. Essa diferença de pensamento sempre foi algo característico do MDB e que nós conseguimos respeitar. A Simone Tebet foi candidata à Presidência da República em 2022 e os nossos líderes do Nordeste não a apoiaram, apoiaram o presidente Lula. E não houve nenhuma retaliação, porque o partido é democrático e respeita as diferenças regionais. Então, quando essas lideranças, de forma legítima e num ato político, declaram apoio a uma candidatura, é algo individual. Independentemente da decisão do MDB, tanto a ala que pode apoiar o Lula quanto a que pode apoiar o Flávio (Bolsonaro), isso vai ser respeitado como uma posição individual, vai ser algo permitido. Nós não temos uma imposição, a decisão não é de cima para baixo, não há perseguição ideológica. A gente sabe que nenhuma decisão vai ser unânime.
Lula quer que o MDB adote neutralidade na próxima eleição. Vai ser possível?
A nossa convenção nacional pode ter até quatro possibilidades. Candidatura própria, apoio ao presidente, apoio a uma candidatura mais à direita ou, porventura, apoio a uma candidatura que possa surgir dentro do centro. Essa decisão realmente não depende muito do presidente do partido, porque o MDB não tem o histórico de dar cavalo de pau, de mudar de acordo com a vontade de uma liderança. A decisão vai ser tomada dentro do respeito à maioria. E existe até essa possibilidade de o partido nacionalmente não apoiar nenhuma candidatura, para que cada Estado possa ter um posicionamento mais condizente com a sua realidade.
Qual o seu posicionamento pessoal?
Como presidente do partido, acho melhor neste momento não colocar minha posição pessoal, para não criar uma questão que pode acabar atrapalhando essa unidade do partido. Eu tenho um posicionamento, mas acho precipitado colocar porque acho que o quadro de candidaturas ainda não está finalizado.
A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro pegou dirigentes do centro e do Centrão de surpresa, já que havia um certo encaminhamento em torno do nome do governador Tarcísio de Freitas. Como o senhor avalia esse movimento do Flávio?
Nós não participamos de nenhum diálogo que acabou lançando a candidatura do Flávio, que considero legítima. O PL, como um grande partido, sempre deixou claro que almeja lançar um candidato. Nós respeitamos todas as candidaturas.
Há dirigentes que dizem que Flávio seria o adversário ideal para Lula, por conta da rejeição ao sobrenome Bolsonaro, e que sua candidatura torna a eleição mais fácil para o PT. Concorda?
O Ulysses Guimarães dizia que a política é que nem nuvem. Você olha para o céu num momento e ela está de um jeito, olha cinco minutos depois e está tudo mudado. Eu me lembro que quando o presidente Lula ganhou a elegibilidade antes da eleição de 2022, a turma do Bolsonaro comemorou, entendendo que ele seria o melhor adversário para o presidente, à época, se reeleger. E nós vimos o resultado. Então, eu prefiro não subestimar nenhuma candidatura, entendo que essas questões vão amadurecendo, vão crescendo, vão tomando corpo. Aquele ditado é um pouco verdadeiro: na política, principalmente no ano eleitoral, o Brasil começa depois do carnaval.
Há caminho para o MDB apoiar o Flávio, sendo que não o fez com Bolsonaro?
Eu acho que o quadro ainda pode mudar, podem surgir novas candidaturas, e todas essas candidaturas vão ser analisadas pelas lideranças do MDB. Lá na frente, quando o quadro estiver mais claro, nós vamos analisar o sentimento majoritário do MDB.
Mas o senhor fecharia a porta para um apoio ao Flávio?
Não é impossível, porque a decisão vai ser do colegiado. Quando você tem lideranças do MDB que já declararam possível voto ou possível apoio à candidatura dele, não há como descartar.
Tarcísio foi um importante parceiro do MDB na eleição municipal de São Paulo. Muitos dirigentes o defendiam como candidato. O senhor é um entusiasta dessa ideia?
O Tarcísio sempre externou a mim a vontade de ser candidato à reeleição ao governo de São Paulo. Ele é jovem, tem 50 anos. Nós somos muito gratos ao apoio que o Tarcísio deu ao Ricardo Nunes, que foi fundamental, e temos um compromisso de apoiar a reeleição dele. Eu não acredito na hipótese de o Tarcísio ser candidato à Presidência da República com a candidatura do Flávio colocada. Acredito que ele deve, de fato, disputar a reeleição.
O senhor acha que, mais uma vez, não haverá um candidato competitivo de centro?
Eu acho que nós temos ainda nomes que podem surgir. Se você me perguntar: hoje, se houver uma eleição absolutamente polarizada, eu acho que a tendência do MDB é realmente, em nível nacional, liberar. Agora, o Ratinho Júnior, que é governador do Paraná, pode surgir como um candidato mais ao centro. Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, também é uma possibilidade de candidatura mais ao centro. A própria candidatura do Caiado é uma candidatura que pode ganhar tração. Essas candidaturas que têm mais um perfil de centro, de mais equilíbrio, mais diálogo e mais moderação, combinam mais com o MDB. Por isso que eu digo, eu acho que nós temos que esperar para fazer qualquer análise mais profunda porque o quadro pode ainda mudar.
Ratinho Júnior e Eduardo Leite são do PSD… É possível uma chapa com MDB e PSD?
Eu acho que são possíveis candidaturas que têm uma proximidade muito grande com o perfil do MDB, que é mais de centro. Então, tanto o Leite quanto o Ratinho, e até mesmo o Caiado, são lideranças que dialogam e que são parceiros, os seus Estados, do MDB. Se a eleição for uma eleição absolutamente polarizada novamente, a tendência do partido é realmente liberar. E se surgir alguma candidatura que tenha mais sinergia com os pensamentos do MDB, mais ao centro democrático, claro que nós vamos dialogar e podemos construir uma aliança. Hoje a gente vê lideranças que têm mais características de sinergia com o MDB, mas que ainda não estão colocadas como candidatos.
Houve alguma conversa do senhor com o presidente Lula, nesses três anos, sobre a posição do MDB nas eleições de 2026 ou outros assuntos?
Não. Nenhuma.
Não é estranho que o presidente de um partido tão relevante nunca tenha sido chamado para uma conversa e, ainda assim, haja a expectativa de apoio por parte do Planalto?
Ao longo desses três anos, ele conversou com nossos senadores, com algumas lideranças, com o líder Isnaldo, com o líder Eduardo e com o governador Hélder. Como o MDB é um partido plural, não vejo isso como uma falta de articulação; ele tem proximidade com vários líderes do MDB.
O senhor já defendeu Ricardo Nunes como candidato ao governo de São Paulo caso Tarcísio dispute a Presidência. O vice Mello Araújo é uma âncora para o prefeito?
O próprio Ricardo Nunes descartou a candidatura dele ao governo do Estado. E com a candidatura à reeleição do governador Tarcísio, realmente não há espaço para essa candidatura, então, essa hipótese hoje não existe.
Numa eventual chapa de reeleição de Tarcísio, que espaço o MDB pretende buscar?
O MDB espera, pelo tamanho e importância que tem, participar da chapa majoritária, mas não começamos ainda esse diálogo.
Há hoje uma atenção grande sobre a eleição para o Senado, inclusive pelo discurso de setores do bolsonarismo de formar maioria para avançar em pedidos de impeachment no Supremo. Quantos senadores o MDB pretende eleger na próxima eleição?
O Senado é uma preocupação do MDB porque, historicamente, o partido sempre teve uma força muito grande na Casa. Hoje temos 10 senadores e, desses, apenas o Renanzinho não estará em disputa: os outros nove ou vão tentar a reeleição ou não serão candidatos. Por isso, estamos trabalhando firmemente as candidaturas ao Senado nos Estados e temos apresentado bons nomes, candidaturas competitivas. A meta do partido é, no mínimo, manter a bancada atual, mas acredito que também haverá crescimento. Na semana passada, filiamos Álvaro Dias, que já foi vereador, deputado estadual, deputado federal, senador e governador pelo MDB, e agora retorna ao partido muito provavelmente para disputar o Senado no Paraná.
Há também uma meta ou expectativa em relação aos governos estaduais?
Temos hoje 11 candidaturas já colocadas aos governos estaduais. Atualmente, o MDB governa três Estados, e a nossa expectativa é, no mínimo, dobrar esse número, chegando a seis governadores.
O partido lançou recentemente o documento programático Caminhos para o Brasil. O que o partido vai defender em relação às emendas parlamentares?
O MDB propõe que haja uma canalização das emendas para projetos estruturantes e prioritários, que dialoguem com a visão do que o governo entende como mais importante, para que não haja dispersão. Agora, o MDB não é contra emendas. As emendas são legítimas e importantes, porque acabam chegando a cidades menores, muitas vezes são invisíveis aos olhos da administração federal.
Uma ala do PT tem defendido que a Simone Tebet seja candidata ao Senado em São Paulo. Há espaço?
Na última conversa que tivemos, ela me relatou a vontade de ser candidata ao Senado pelo Mato Grosso do Sul, que é o Estado dela. Claro que essas especulações acontecem, a gente acompanha. Acho que isso só engrandece o nome da Simone. Mas, conhecendo a Simone como eu conheço, acredito que ela não estaria falando em ser candidata pelo Mato Grosso do Sul se tivesse outra ideia.
Não faria sentido para o partido tê-la em São Paulo, considerando o contexto local?
Na verdade, eu acho que não faria sentido para ela.
