12 de janeiro de 2026
Politica

Em ‘O Agente Secreto’, a ditadura vem silenciosa ou em forma de perna cabeluda

Vencedor do Globo de Ouro 2026 de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa, O Agente Secreto obriga o expectador a refletir sobre a ditadura militar no País e suas consequências para a sociedade. Mas o longa apresenta uma narrativa que foge dos roteiros tradicionais e se ampara até em uma lenda urbana do Recife para mostrar como as agressões desse período de ruptura democrática estavam normalizadas na sociedade.

A ditadura é exposta de maneira indireta, sem que seja mencionada. “O filme avança no debate sem falar a palavra ditadura. Trata de pessoas comuns, sem os estereótipos da militância”, observa a atriz Laura Lufési em entrevista ao programa Dois Pontos, do Estadão.

O cineasta Kleber Mendonça Filho aposta, por exemplo, no inusitado folclore da Perna Cabeluda para mostrar violências de uma época em que tudo podia ser visto como subversivo. Nesse contexto, Perna Cabeluda, criatura mítica que espancava pessoas durante a noite, aparece em uma das sequências mais elogiadas do longa.

“Kleber aborda o tema de forma muito autoral. Ele banca esteticamente e na narrativa… Você pode não entender exatamente a história da Perna Cabeluda, mas entende a metáfora e como é usada para abafar outras coisas”, ressalta Laura.

“É um filme é sobre ditadura, mas que o Kleber vai tão no micro, que você vê pelo olhar do Marcelo – personagem de Wagner Moura que conquistou o troféu de melhor ator no Globo de Ouro. Ele é um agente, ele está fugindo do quê? As pessoas poderiam pensar: o que é essa perna cabeluda? Mas o Kleber me disse numa entrevista que os espectadores entenderam no exterior”, complementa a crítica de cinema Barbara Demerov, ao Estadão.

Lenda urbana do Recife foi inventada por radialistas de noticiário policial, mas não tinha essa finalidade

Embora as histórias da Perna Cabeluda tenham ajudado a encobrir agressões ocorridas nos anos da ditadura, a lenda quando surgiu não tinha nenhuma relação com as atrocidades militares cometidas à época.

Em 1994, em entrevista para um documentário experimental sobre o jornalismo policial do Recife feito por Roseann Kennedy, o radialista Jota Ferreira revelou ter sido ele o criador. Ele relatou que a ideia surgiu de improviso para driblar a falta de notícias policialescas que preenchiam o noticiário da rádio na qual trabalhava.

“Praticamente Jota Ferreira estava começando. O programa era das 4h às 8h da manhã, e a gente só dava sangue. Um dia de manhã sem muita notícia, Jota falou que não tinha mais o que dizer. Em certo momento avisou: ‘Arrumei uma solução, passa o som aqui’. Aí ele relatou o caso de uma mulher agredida pela Perna Cabeluda”, ratificou agora Geraldo Freire, âncora do programa, em entrevista à Coluna do Estadão.

Para a surpresa de Jota e de Geraldo, nos dias seguintes várias pessoas agredidas começaram a dizer que eram vítima da tal perna.

“A coisa bombou. É tanto que já fizemos mil trabalhos sérios na vida, desde esse tempo, mas nada apareceu tanto como essa perna cabeluda. Mas cada dia ela cresce, e agora virou filme. O grande criador é Jota Ferreira e ninguém mais”, finalizou Geraldo.

Kléber Mendonça Filho exibe a Perna Cabeluda na estrei de 'O Agente Secreto' na Mostra de SP
Kléber Mendonça Filho exibe a Perna Cabeluda na estrei de ‘O Agente Secreto’ na Mostra de SP

 

 

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