O filme ‘O Agente Secreto’ e as ambiguidades dos artistas oficiais
Faz sentido se calar sobre o Irã nos discursos em comemoração pelos prêmios para o instigante filme “O Agente Secreto”, no Globo de Ouro. Melhor lamentar a ditadura brasileira, finda há 40 anos, e condenar a tentativa de golpe ocorrida no Brasil em 2022. Inclusive, pela razão de que os responsáveis pela peça cinematográfica são simpatizantes e apologistas algo contundentes do governo Luiz Inácio Lula da Silva e da esquerda mundial. É muito difícil para um militante “progressista” apoiar movimentos antiditatoriais que contam com a simpatia dos Estados Unidos – ironicamente, país palco da festa de ontem.
Na verdade, é um dilema. Por pior que seja um governo, se for antiamericano, ganhará uma condescendência e apoio velado de parte expressiva da população. Quando se vê o papel dos EUA na política internacional, com uma série de ações abusivas e invasivas na Ásia e na América Latina, o posicionamento tem sua lógica interna. Além disso, a postura algo “elefante na sala de louças” de Donald Trump é mais um estímulo para se opor aos EUA. O problema é que muitas vezes governos antiamericanos conseguem ser ainda piores do que os EUA em questões como violência, truculência e sadismo – com a diferença de serem voltados contra seus próprios povos.

Houve uma série de decisões tomadas pelos líderes da nossa diplomacia que nos deixou de mãos amarradas em questões como democracia e direitos humanos ao redor do mundo: um certo alinhamento com as ditaduras dos Brics – como China e Rússia – o que nos colocou em posição de desconfiança tanto por parte dos Estados Unidos como das democracias liberais da Europa. A falta de posicionamento oficial, até agora, sobre a escalada do conflito interno envolvendo um membro dos Brics, o Irã, com suas centenas de mortes de inocentes nos últimos dias, é apenas um dos sintomas dessa subordinação brasileira.
Mesmo assim, nenhum artista vai querer causar constrangimentos a Lula ou à esquerda em geral num palco mundial – ficaria péssimo para os amigos. Olha que Lula, assim como fez com Maduro em 2023, no ano de 2009, recebeu em Brasília, com toda a pompa, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad – o mesmo que havia dito não haver homossexuais em seu país. Talvez por serem mortos?
Quando se é, por opção, um artista ligado a um regime – como tantos o são no governo Lula – acaba-se por carregar para si todas essas ambiguidades. O premiado diretor Kleber Mendonça é um forte apoiador do petismo em suas ações públicas. No lançamento de seu filme “Aquarius”, na Europa, “denunciou” o “golpe” de Michel Temer contra Dilma Rousseff, em 2017. O diretor também compartilhou postagens contra jornalistas que têm revelado meandros do escândalo que envolve o Banco Master. Wagner Moura segue o mesmo caminho político.
Fica então a pergunta que vale para qualquer um: por que, na prática, tem sido tão difícil para as pessoas influentes serem contra qualquer ditadura, não importa a sua ideologia? Por último e mais importante, quem realmente usufrui a arte sabe separar o que faz o artista de sua obra – nesse sentido, “O Agente Secreto” segue como atração essencial para os dias de hoje.
