12 de janeiro de 2026
Politica

O filme ‘O Agente Secreto’ e as ambiguidades dos artistas oficiais

Faz sentido se calar sobre o Irã nos discursos em comemoração pelos prêmios para o instigante filme “O Agente Secreto”, no Globo de Ouro. Melhor lamentar a ditadura brasileira, finda há 40 anos, e condenar a tentativa de golpe ocorrida no Brasil em 2022. Inclusive, pela razão de que os responsáveis pela peça cinematográfica são simpatizantes e apologistas algo contundentes do governo Luiz Inácio Lula da Silva e da esquerda mundial. É muito difícil para um militante “progressista” apoiar movimentos antiditatoriais que contam com a simpatia dos Estados Unidos – ironicamente, país palco da festa de ontem.

Na verdade, é um dilema. Por pior que seja um governo, se for antiamericano, ganhará uma condescendência e apoio velado de parte expressiva da população. Quando se vê o papel dos EUA na política internacional, com uma série de ações abusivas e invasivas na Ásia e na América Latina, o posicionamento tem sua lógica interna. Além disso, a postura algo “elefante na sala de louças” de Donald Trump é mais um estímulo para se opor aos EUA. O problema é que muitas vezes governos antiamericanos conseguem ser ainda piores do que os EUA em questões como violência, truculência e sadismo – com a diferença de serem voltados contra seus próprios povos.

Wagner Moura discursa ao ganhar o prêmio de melhor ator em filme de drama no Globo de Ouro
Wagner Moura discursa ao ganhar o prêmio de melhor ator em filme de drama no Globo de Ouro

Houve uma série de decisões tomadas pelos líderes da nossa diplomacia que nos deixou de mãos amarradas em questões como democracia e direitos humanos ao redor do mundo: um certo alinhamento com as ditaduras dos Brics – como China e Rússia – o que nos colocou em posição de desconfiança tanto por parte dos Estados Unidos como das democracias liberais da Europa. A falta de posicionamento oficial, até agora, sobre a escalada do conflito interno envolvendo um membro dos Brics, o Irã, com suas centenas de mortes de inocentes nos últimos dias, é apenas um dos sintomas dessa subordinação brasileira.

Mesmo assim, nenhum artista vai querer causar constrangimentos a Lula ou à esquerda em geral num palco mundial – ficaria péssimo para os amigos. Olha que Lula, assim como fez com Maduro em 2023, no ano de 2009, recebeu em Brasília, com toda a pompa, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad – o mesmo que havia dito não haver homossexuais em seu país. Talvez por serem mortos?

Quando se é, por opção, um artista ligado a um regime – como tantos o são no governo Lula – acaba-se por carregar para si todas essas ambiguidades. O premiado diretor Kleber Mendonça é um forte apoiador do petismo em suas ações públicas. No lançamento de seu filme “Aquarius”, na Europa, “denunciou” o “golpe” de Michel Temer contra Dilma Rousseff, em 2017. O diretor também compartilhou postagens contra jornalistas que têm revelado meandros do escândalo que envolve o Banco Master. Wagner Moura segue o mesmo caminho político.

Fica então a pergunta que vale para qualquer um: por que, na prática, tem sido tão difícil para as pessoas influentes serem contra qualquer ditadura, não importa a sua ideologia? Por último e mais importante, quem realmente usufrui a arte sabe separar o que faz o artista de sua obra – nesse sentido, “O Agente Secreto” segue como atração essencial para os dias de hoje.

 

 

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