Por que a Europa correu para fechar o acordo
A aprovação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, após mais de duas décadas de negociações, não foi um gesto súbito nem um movimento impulsivo. Foi a resposta tardia da Europa a uma transformação estrutural do sistema internacional de comércio, investimento e poder. Uma transformação que já vinha ocorrendo diante de seus olhos, enquanto o mundo mudava e a América do Sul se reposicionava.
Desde 2009, a China superou os Estados Unidos como principal parceiro comercial do Brasil. Atualmente, cerca de 28% das exportações brasileiras têm como destino o mercado chinês. A União Europeia responde por aproximadamente 14% e os Estados Unidos por cerca de 11%. A diferença não apenas se mantém, ela cresce. O mesmo padrão se repete em países como Argentina, Chile e Peru, consolidando a China como principal parceiro comercial da maior parte da América do Sul.
O salto no comércio China–América Latina é expressivo. Em 2000, o intercâmbio somava cerca de US$ 12 bilhões. Em 2024, alcançou aproximadamente US$ 500 bilhões, um crescimento próximo de 4.000% em pouco mais de duas décadas. Enquanto isso, a Europa atravessou anos de estagnação econômica, disputas internas e hesitação estratégica em relação à região.
Mas a disputa nunca foi apenas comercial. A China avançou de forma consistente nos investimentos em infraestrutura, logística, energia e telecomunicações. Desde 2003, mais de US$ 110 bilhões foram direcionados à América Latina. Portos no Peru, ferrovias na Argentina, projetos energéticos no Brasil e a expansão do 5G redesenharam fluxos econômicos e cadeias produtivas. Cada investimento representou espaço ocupado, influência ampliada e presença consolidada.
O Porto de Chancay, inaugurado no Peru em novembro de 2024, sintetiza esse movimento. Com investimento de US$ 3,6 bilhões, tornou-se o maior porto da América do Sul, construído e operado por empresas chinesas, a poucos quilômetros de Lima. Ele altera rotas globais, reduz custos logísticos e aproxima ainda mais a América do Sul da Ásia.
Durante esse período, a União Europeia assistiu. Em 2019, anunciou um acordo político com o Mercosul, mas recuou diante de pressões internas, especialmente de agricultores franceses e setores ambientalistas. Enquanto discutia cláusulas e condicionantes, o mundo seguia em frente.
O cenário mudou com o retorno do protecionismo norte-americano. Tarifas generalizadas, especialmente contra a China, recolocaram a Europa diante de uma escolha estratégica clara. Ou diversificava parceiros e mercados, ou ficaria comprimida entre Estados Unidos e China, perdendo relevância global.
Relatórios recentes, como o liderado por Mario Draghi, foram explícitos. A Europa precisa investir, diversificar mercados e reduzir dependências. A América do Sul oferece exatamente isso, alimentos, energia, minerais estratégicos, lítio, terras raras e um mercado de cerca de 450 milhões de consumidores.
Há ainda um elemento decisivo. Apesar da presença chinesa, a América do Sul não está definitivamente alinhada à China. O Brasil não aderiu à Belt and Road Initiative. A Argentina hesita. O México também. Esses países concentram cerca de 60% do PIB regional. Para a Europa, trata-se de uma janela real, mas estreita.
A sequência dos fatos não deixa dúvidas. Dezembro de 2024, anúncio do acordo. Janeiro de 2025, endurecimento tarifário dos Estados Unidos. Janeiro de 2026, aprovação pelo Conselho Europeu, com ampla maioria liderada por Alemanha e Espanha. A França, principal opositora, foi derrotada.
No fim, não se trata de afeição, simpatia ou narrativa romântica. A Europa não fechou o acordo porque “gosta” do Brasil ou do Mercosul. Fechou porque percebeu o risco estratégico de perder a América do Sul para a China. Após 26 anos de hesitação, a súbita urgência não é acaso, é cálculo. Geopolítica operando com precisão. O acordo nunca foi apenas sobre comércio. Sempre foi sobre influência, acesso, poder e posicionamento estratégico. O jogo não é econômico, é de poder. E o poder, no século XXI, pertence a quem age no tempo certo. O que acabamos de ver foi uma jogada sendo feita, consciente, tardia, mas decisiva.
