27 de janeiro de 2026
Politica

O que importa mais no cenário político brasileiro em 2026

Na semana passada, escrevi nesta coluna sobre os principais riscos geopolíticos de 2026, uma lista na qual o Brasil ocupa posição secundária. Essa posição relativamente privilegiada, porém, não tira o peso do que está em jogo no cenário político doméstico. Para quem vive e trabalha no Brasil, 2026 será um ano crítico, o que torna essencial identificar, desde já, os principais temas que devem orientar a análise.

O ponto de partida é um Lula favorito à reeleição. A maior parte das análises converge para a pergunta sobre quais fatores poderiam virar o jogo— ou, ao contrário, consolidar essa vantagem.

Lula e Flávio Bolsonaro devem se candidatar à Presidência da República neste ano
Lula e Flávio Bolsonaro devem se candidatar à Presidência da República neste ano

Por ora, há atenção excessiva à candidatura de Flávio Bolsonaro e à possibilidade de outros nomes da centro-direita ou de algum outsider. Essa ênfase, porém, desvia o olhar do que é essencial: a probabilidade de vitória de Lula depende mais da sua própria força como candidato do que da capacidade de organização da oposição.

A taxa média de aprovação do presidente gira em torno de 45%. É suficiente para uma reeleição apertada, mas deixa pouca margem de erro. Uma queda de poucos pontos pode tornar qualquer adversário competitivo.

Daí a necessidade de focar nos fatores que afetam a popularidade do governo. Lula tem uma base sólida e uma rejeição igualmente consistente, o que faz sua aprovação oscilar em uma faixa relativamente estreita. O eleitor decisivo é pouco ideológico e pouco engajado politicamente.

A experiência recente mostra que, nesse contexto, a principal variável é econômica. A popularidade caiu quando a inflação subiu, em um contexto de dólar elevado, e se recuperou quando a inflação recuou.

O cenário de 2026 é, em princípio, favorável para Lula, já que juros altos tendem a conter pressões inflacionárias. Ainda assim, qualquer deterioração pode ser eleitoralmente decisiva.

Segurança pública é outro vetor relevante, sobretudo se eventos de grande repercussão ocorrerem durante a campanha. A eventual designação de PCC e CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos também pode gerar constrangimentos ao governo, caso Brasília mantenha posição contrária.

Um segundo eixo da análise diz respeito às políticas públicas do próximo mandato. A campanha eleitoral também tem importância nesse ponto, pois molda expectativas e compromissos.

Aqui, novamente, o foco recai sobre Lula e sua equipe; não apenas porque a reeleição é o cenário mais provável, mas porque é onde está a maior incerteza. De Flávio Bolsonaro, já se sabe o que esperar: a continuidade da política de Paulo Guedes, personificada por outro ministro da Economia, com respaldo inicial do Congresso.

Lula levanta mais perguntas. A campanha deverá enfatizar promessas de apelo popular e uma retórica contra privilégios, deixando os detalhes da execução para depois. A avaliação da Eurasia Group é que, se reeleito, Lula tentará repetir o script atual: equipe pragmática e esforço de conciliar o arcabouço fiscal com as promessas eleitorais, ainda que com maior vulnerabilidade a choques externos e menor margem de manobra no Congresso.

Sobre esse ponto, cabe notar a dificuldade de fazer projeções seguras sobre as eleições legislativas no Brasil, mas será importante monitorar a montagem das listas para a Câmara e a corrida para o Senado em cada estado, em busca de sinais que confirmem ou questionem a tendência de crescimento da direita no Congresso.

Por fim, a terceira mensagem é sobre o principal ponto de incerteza em qualquer análise do cenário brasileiro hoje: as operações policiais em curso. Investigações envolvendo crime organizado, emendas parlamentares, INSS e grandes grupos empresariais atingem autoridades de alto escalão e têm desfechos imprevisíveis.

Algumas cabeças importantes podem rolar: basta ver o nervosismo no Congresso a cada tentativa frustrada de blindagem no ano passado, ou os esforços no Judiciário para questionar as investigações do caso Master. Mas essa onda de investigações pode ter efeitos mais profundos sobre a relação do Congresso e dos partidos com o governo no próximo ciclo. A análise de cenários para 2026 e depois também terá que incorporar esses elementos de incerteza.

 

 

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