17 de janeiro de 2026
Politica

Ida de Bolsonaro a Papudinha teve ação de Tarcísio e Michelle para convencer Moraes; leia bastidores

BRASÍLIA — A transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para uma cela no presídio da Papudinha após uma articulação encabeçada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ocorre numa semana em que os dois estiveram sob artilharia de críticas da militância e de aliados.

A determinação de transferência foi dada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes na tarde desta quinta-feira, 15. A Papudinha é o nome popular do 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, que faz parte do complexo penitenciário da Papuda e onde ficam presos policiais e pessoas politicamente expostas.

Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas (à direita de Bolsonaro) articularam transferência de cela ao ex-presidente
Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas (à direita de Bolsonaro) articularam transferência de cela ao ex-presidente

Pessoas próximas à família Bolsonaro relataram ao Estadão que Michelle e Tarcísio conversaram com ministros do STF nos últimos dias, num apelo para que o ex-presidente fosse enviado à prisão domiciliar.

Os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e André Mendonça são mencionados como alvo de telefonemas e encontros com os articuladores. O STF nega.

Uma pessoa próxima a Michelle diz que a articulação de Michelle e Tarcísio contrasta com a dos aliados que costumam criticá-los por razões diversas. O episódio mostra que “enquanto tem gente fazendo barulho, tem gente séria trabalhando nos bastidores visando o melhor para o presidente Bolsonaro”, segundo esse aliado.

A movimentação de Michelle e Tarcísio passou incólume ao conhecimento dos filhos de Bolsonaro como Eduardo e Flávio, diz essa pessoa, o que mostra o distanciamento entre dois grupos que têm estratégias diferentes para lidar com a prisão do ex-presidente.

Além de Tarcísio e Michelle, dois outros aliados ajudaram no trabalho de bastidor: o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, e a senadora Damares Alves, do mesmo partido. Um aliado do dirigente afirmou que ele também conversou com alguns ministros do STF.

O movimento de bastidor coincide com uma série de atritos gerada dentro do bolsonarismo — e direcionados a Michelle e Tarcísio. A esposa do governador, Cristiane Freitas, por exemplo, foi criticada na última semana por ter demonstrado apoio a uma eventual pré-candidatura presidencial do marido.

“Nosso País precisa de um novo CEO, meu marido!”, comentou a primeira-dama de São Paulo num vídeo publicado por Tarcísio, em que ele fala como presidenciável e apresenta propostas para o Brasil.

O comentário de Cristiane pegou mal junto a uma parte do bolsonarismo porque vem num momento em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), declarado sucessor do pai, começa a decolar nas pesquisas eleitorais.

O ex-vereador do Rio Carlos Bolsonaro (PL-SC) ironizou a situação e publicou uma foto do ex-governador João Doria segurando um cartaz escrito “CEO”. Doria é visto pelo bolsonarismo como traidor por ter se elegido com o apoio de Bolsonaro e depois rompido com o ex-presidente.

Dias depois, Tarcísio negou que sua publicação tivesse relação com o jogo presidencial. “A mensagem é um desabafo contra o PT”, disse ele. “A gente está dizendo ali o seguinte: a gente precisa de um gestor que pense o Brasil, tenha liderança para enfrentar os grandes desafios e resolver os problemas”.

A mensagem de Cristiane foi feita na terça-feira, 13, horas depois de Michelle republicar o mesmo vídeo de Tarcísio, o que foi visto pelos desafetos como um aceno da ex-primeira-dama ao governador pelas costas do enteado.

Entre todos os críticos, Michelle escolheu reagir ao comunicador Allan dos Santos, foragido da Justiça, segundo quem a ex-primeira-dama age em alinhamento com políticos do Centrão ao endossar uma candidatura de Tarcísio.

“Esse tal de Allan não sabe o que eu e o meu marido conversamos, ignora os nossos planos de vida e tampouco me conhece, mas se apressa em me julgar e a outras pessoas como se seus achismos fossem verdade”, escreveu Michelle nas redes sociais, chamando o comunicador de “Allan dos demônios”.

Aliados de Bolsonaro relataram ao Estadão que o ex-presidente gostou da decisão de Moraes e definiu a transferência como um “bom gesto”.

O entorno de Bolsonaro agora coloca suas esperanças na perícia por uma junta médica da Polícia Federal para analisar a situação de saúde do ex-presidente. O exame deverá ser feito antes de Moraes analisar um novo pedido de prisão domiciliar humanitária, segundo decisão assinada na quinta-feira pelo ministro.

A perícia poderá facilitar eventuais adaptações de acomodação na sala da Estado Maior na Papudinha ou a necessidade de transferência para um hospital penitenciário.

A defesa requereu a Moraes a concessão de prisão domiciliar humanitária a Bolsonaro e a realização de nova “avaliação médica independente, em caráter de urgência, a fim de aferir a compatibilidade do estado clínico atual do peticionário com o ambiente prisional”.

A transferência de Bolsonaro vem sendo tratada com alívio por parte de aliados em conversas reservadas, mas criticada em público. O Estadão conversou com pessoas próximas ao ex-presidente para medir o sentimento sobre a decisão de Moraes.

A avaliação geral é que a mudança de cela vai trazer um ganho na qualidade de vida a Bolsonaro, mas não pode ser comemorada em público, sob o risco de arrefecer a campanha pela prisão domiciliar.

Michelle afirmou nesta sexta-feira, 16, que as instalações da Papudinha, para onde Bolsonaro foi transferido, são “menos torturantes”. A publicação ocorreu por volta das 13h e, uma hora depois, outra foi postada sem a expressão.

Na nova versão, Michelle afirmou que as instalações do 19.º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal são “menos prejudiciais à saúde” do ex-presidente. A ex-primeira-dama também excluiu o primeiro parágrafo do texto original, no qual dizia: “Meu marido não cometeu crime algum. Não houve nenhum golpe. Nunca deveria ter sido condenado. Está tudo errado desde o início”.

 

 

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