24 de janeiro de 2026
Politica

Jânio Quadros foi padrinho de casamento de repórter e deu ‘calote’ em hotel quando preso no MT

A prisão de Jair Bolsonaro (PL) engrossou a lista de mandatários brasileiros que foram presos durante ou após o exercício da Presidência da República. Entre os 10 chefes do Executivo do País que enfrentaram reclusões, Jânio Quadros passou quatro meses confinado no interior de Mato Grosso por criticar a ditadura militar, em 1968. Durante o período de confinamento, Jânio tinha permissão para sair do quarto de hotel em que estava e circular por uma região delimitada pelo Exército. Passou a frequentar os restaurantes da cidade e foi padrinho de casamento do repórter do jornalista que cobria sua detenção.

O decreto de prisão contra Jânio foi baixado pelo então ministro da Justiça, Gama e Silva, com base no Ato Institucional nº 2 (AI-2), um dos atos de exceção do regime militar. O arbítrio contra o ex-presidente fez parte da escalada autoritária que, até o fim daquele ano, levaria ao decreto do AI-5.

Jânio Quadros acena de dentro de um carro em 26 de agosto de 1961, um dia após sua renúncia à Presidência da República
Jânio Quadros acena de dentro de um carro em 26 de agosto de 1961, um dia após sua renúncia à Presidência da República

Eleito presidente em 1960, após uma meteórica ascensão política entre os anos 1940 e 1950, Jânio renunciou em agosto de 1961, após sete meses no cargo. Por anos, recusou-se a detalhar os motivos que o levaram à decisão, alimentando rumores sobre o episódio. A interpretação mais corrente entre historiadores, e corroborada por depoimentos de aliados, é de que Quadros tentou um autogolpe para aumentar seus poderes, abrindo mão do cargo na expectativa de retomá-lo sob clamor popular, o que não se confirmou.

No ano seguinte, em 1962, tentou retornar ao governo de São Paulo, perdendo a eleição por estreita margem para Ademar de Barros, seu arquirrival na política paulista: Barros obteve 1,24 milhão de votos e Jânio, 1,12 milhão. Foi o primeiro revés eleitoral do ex-presidente desde seu ingresso na carreira pública, em 1947.

Entre 1962 e 1964, permaneceu afastado da vida política, mas apoiou a deposição do então presidente João Goulart, que havia sido seu vice durante o breve mandato na Presidência. Apesar da adesão à solução militar, Quadros teve os direitos políticos cassados pelo AI-1, o primeiro ato de exceção do novo regime, em abril de 1964. A partir de então, afastou-se ainda mais da política, dedicando-se ao mercado editorial.

Com direitos cassados e focado em atividades privadas, Jânio estava à margem da política nacional, mas incomodou os militares após ser procurado por Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara, nas articulações do movimento político conhecido como “Frente Ampla”. Lacerda apoiou o golpe e foi um dos principais conspiradores da queda de Goulart, mas se incomodou com os rumos que o governo tomou – em grande medida, pois a escalada autoritária dos militares minou seus próprios planos de poder. O ex-deputado federal pretendia se candidatar na eleição presidencial de 1965, que estava marcada, mas nunca ocorreu.

O então governador de São Paulo, Jânio Quadros, discursa no Cine Nacional, em 27 de setembro de 1958
O então governador de São Paulo, Jânio Quadros, discursa no Cine Nacional, em 27 de setembro de 1958

O ex-governador da Guanabara buscou ex-rivais políticos, como Juscelino Kubitschek e Goulart, para a formação de uma frente de oposição à ditadura. O movimento, lançado em outubro de 1966, acabou extinto em abril de 1968. Jânio foi contatado por Lacerda, mas não aderiu formalmente à Frente Ampla. Ainda assim, em declarações dúbias, demonstrava apoio ao grupo de oposição.

Durante o primeiro semestre de 1968, o então ministro da Justiça, Gama e Silva, chegou a desmentir rumores de que Jânio seria preso pelo regime. Em junho, ao retornar ao Brasil desembarcando em um porto de Recife, o ex-presidente concedeu uma entrevista em que dizia “ter uma imensa dívida com o povo brasileiro”. “Posso jurar que a resgatarei”, afirmou, sugerindo um retorno à política. Na mesma entrevista, questionado sobre o receio de uma eventual represália pelas declarações, rebateu: “Mas o que é que eu tenho a perder?”

Em resposta ao ex-presidente, Gama e Silva voltou a afirmar que não pretendia detê-lo. “O governo tem mais com o que se preocupar e não pode perder tempo com o senhor Jânio Quadros”, declarou o ministro da Justiça. Nas semanas seguintes, Jânio criticou o regime novamente. No final de julho, em referência aos militares, declarou que “o que aí está não serve porque não é nada”. Foi chamado a depor e, em 29 de julho, foi alvo de um decreto de “domicílio provisório” de 120 dias em Corumbá, no interior de Mato Grosso. Hoje, o município está localizado no Mato Grosso do Sul. No dia seguinte, a residência do ex-presidente no Guarujá, no litoral paulista, foi cercada por tropas do Exército e da Polícia Federal.

Durante os quatro meses de confinamento, Jânio hospedou-se com a esposa, Eloá, em um quarto do Hotel Santa Mônica, sob vigia de dois policiais federais. Tinha permissão para sair do quarto e circular por uma região delimitada pelo Exército. Passou a frequentar os restaurantes da cidade e foi padrinho de casamento do repórter Mauro Ribeiro, que cobria a detenção do ex-presidente.

Confinado, enfrentou até boatos sobre seu falecimento. Enquanto isso, sua defesa tentava livrá-lo da reclusão. Os advogados de Jânio recorreram ao Tribunal Federal de Recursos (precursor dos Tribunais Regionais Federais e do Superior Tribunal de Justiça) e, como última opção, ao Supremo Tribunal Federal (STF).

“Desde a violência deste confinamento, adiei minha morte sine die (sem data para retomá-la) e, brasileiro e cristão, confio nas decisões do Supremo”, disse Quadros em desmentido à imprensa sobre sua morte. Dias depois, o STF negou um habeas corpus a Jânio.

O confinamento terminou em 27 de novembro. Alegando que estava ali de forma forçada, Jânio não pagou todos os valores devidos ao hotel. O ex-presidente arcou com despesas extras de 6 mil cruzeiros, mas não bancou as diárias e refeições, que somavam 7 mil cruzeiros. Segundo Jânio, caberia ao governo federal assumir esses custos. O Ministério da Justiça, por outro lado, afirmava que só pagaria o valor se Quadros apresentasse um “atestado de pobreza”. Não há registros sobre a quitação do recibo.

Jânio Quadros retomou a carreira política após hiato entre as décadas de 1960 e 1970
Jânio Quadros retomou a carreira política após hiato entre as décadas de 1960 e 1970

Jânio seguiria afastado da política até meados da década seguinte. Com a distensão gradual do regime, retomou as atividades políticas. Candidatou-se ao governo do Estado em 1982, terminando a disputa em terceiro lugar. Três anos depois, elegeu-se para um segundo mandato como prefeito de São Paulo. Morreu na capital paulista em fevereiro de 1992.

 

 

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