24 de janeiro de 2026
Politica

Ratinho Júnior aproveita fragilidades de Flávio Bolsonaro e se lança no tabuleiro eleitoral

Se há algo que o bolsonarismo faz com maestria é ressabiar lideranças que deveria atrair. O método Bolsonaro de fazer política é truculento, impositivo, cheio de rancores e cobranças, como se o ex-presidente tivesse chegado ao poder sozinho e merecesse devoção eterna.

Esse modo de operar contamina a militância mais ligada ao clã, que passa a agir do mesmo jeito. Intransigente. Punitiva. Condena aliados potenciais ao primeiro tropeço. Basta uma meia verdade, um olhar torto ou uma frase interpretada como enviesada para transformar nomes que poderiam somar em quase inimigos. É uma espécie de inquisição moral, ameaçadora, que não se sustenta no mundo real.

O governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD)
O governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD)

A entrada de Flávio Bolsonaro na corrida presidencial seguiu esse roteiro. Surgiu mais como imposição do que como construção, sem a costura prévia com pilares importantes da direita brasileira. Na política, a imposição até pode ser engolida, mas raramente é bem digerida.

O incômodo se instala. E, na primeira oportunidade, os incomodados saltam do barco. Basta aparecer uma carruagem mais afável perante vaidades e com espaço para negociação, que a troca acontece.

É esse movimento que parece estar sendo vislumbrado pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab. Exímio leitor de cenários, com a habilidade de agir antes do tabuleiro ficar explícito, ele percebeu que há lugar para uma nova embarcação nesse mar eleitoral que começa a se formar. E tirou da manga a carta que mantinha com o nome do governador do Paraná.

Ratinho Júnior vinha sempre sendo lembrado em conversas sobre 2026, mas mantinha uma distância segura dos holofotes, esperando o momento mais adequado de se colocar no quadro.

Antes de Flávio Bolsonaro se estabelecer com argumentos familiares, o candidato natural da direita seria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Conservador, competitivo, e, sobretudo, mais atraente para parte do centro, entraria no jogo com baixa rejeição e chances amplas de vitória.

No entanto, ao anunciar que concorrerá à reeleição, Tarcísio deixa um espaço aberto no campo da direita moderada. Um espaço que tende a ser ocupado por quem ofereça a promessa mais simples de todas, que é encerrar a intensa guerra política e seguir adiante.

Esse discurso tem mercado. Há um contingente relevante de eleitores que não se enxerga nem como petista nem como bolsonarista. Gente que rejeita os dois polos e procura um caminho menos barulhento. Nas redes, essa parcela já aparece com peso comparável ao dos grupos mais radicalizados, ainda que seja mais silenciosa, menos organizada e menos militante.

Ratinho Júnior tenta entrar justamente por essa fresta. Aproveitou um evento realizado nesta quarta-feira, 14, na sede do governo paranaense, para deixar a porta aberta. Disse que seu nome está à disposição para a disputa do Planalto: “Eu Penso que as pessoas não estão mais aguentando esse ambiente de briga política, que não está trazendo resultado nenhum”, afirmou, referindo ainda que está à disposição para liderar um novo projeto para o Brasil.

Meias palavras que valem por um dicionário inteiro na política e que são suficientes para abrir conversas, atrair interlocutores e negociar sem o peso da imposição e com espaço para composição.

O governador do Paraná, assim, dá forma à chamada terceira via, que hoje é uma verdadeira autoestrada, diante do desgaste dos polos. Mas romper barreiras cristalizadas não é simples. Ainda mais em um ambiente em que exércitos digitais radicalizados operam com disciplina, alcance e capacidade de intimidação.

O certo é que, mesmo que o cenário permaneça polarizado e dificulte a travessia até um segundo turno, Ratinho tende a ganhar relevância junto ao eleitorado de centro, que, mais uma vez, pode funcionar como fiel da balança. E isso não é pouco.

Para um governador que tenta romper a regionalização e alçar voos maiores, esse capital é o caminho mais curto para se consolidar como liderança nacional. E, em uma disputa em que um discurso adequado pode decidir rumos a alianças, pode também ser a porta de entrada para uma vitória.

 

 

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