18 de janeiro de 2026
Politica

A melhor forma de barrar a ideologia, na educação, é o cultivo do livre pensamento

Causou certo frisson a notícia de que uma universidade no Texas havia censurado um trecho de Platão, em um curso de filosofia. Martin Peterson, o Professor, virou um sujeito pop, como em geral ocorre com os censurados.

Seu foco era discutir temas de gênero e sexualidade. Uma das passagens vetadas traz um diálogo sobre as formas de Eros que “se voltam ao masculino”, visto como “naturalmente mais forte e inteligente”. Platão misógino? Apologia da homoafetividade? Bobagem.

A Texas A & M University foi envolvida em polêmica por conta de censura a trechos de Plantão
A Texas A & M University foi envolvida em polêmica por conta de censura a trechos de Plantão

O anacronismo um tipo de banalidade. Não se julga o passado com alguma régua moral do presente. Afora isso, chegamos ao impasse: impor ideologia em sala de aula é um erro. Nesse sentido os texanos têm um ponto. Mas cortar um texto clássico para evitar discussão é simplesmente amputar a própria ideia de universidade.

O tema ganhou escala porque foi uma censura “conservadora”. Passamos os últimos anos assistindo o inverso: a esquerda identitária impondo seus padrões. Desde As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, com suas expressões “racialmente impróprias”, até nosso Monteiro Lobato, passando pela supercancelada J.K. Rowling, autora de Harry Potter, por suas ironias sobre a cultura trans.

Os conservadores agora querem dar o troco. A estratégia é “proibir a ideologia’. E usar o poder para fazer isso. O governo Trump tenta fazer isso com algumas grandes universidades, Harvard à frente. A ideia é de que a esquerda tem ampla hegemonia nas instituições e meios de opinião (o que é verdade), e que o conservadorismo precisa agora ingressar na guerra cultural usando o poder do Estado, conquistado pela via eleitoral. Não vai funcionar.

Um governo pode proibir algum diálogo platônico, ou mandar fechar um escritório de ativistas DEI, em uma universidade. Mas não pode mudar a cabeça das pessoas. Simplesmente não há como fiscalizar todas as aulas, todos os livros, toda retórica ou a conversa no cafezinho. Além disso, seria o próprio inferno. A modernidade é produto de uma grande ideia: a força não pode, ou deve, mover a consciência. E disso não deveríamos abrir mão.

Só há uma solução para esta grande loucura: o livre pensamento associado a um senso de responsabilidade. O problema é ético, portanto, e nada simples. O ativista, em regra, é mais eficiente do que o livre pensador. Ele sabe ocupar espaços, impõe regras, age em bando, usa e abusa do cancelamento.

Muita gente me diz que se trata de uma guerra perdida. Que vivemos em uma época medíocre, apaixonada pela padronização, e que nem mesmo uma civilização como a do renascimento seria possível. Exigiríamos safe spaces para Boccaccio e Caravaggio. Correríamos para cobrir com folhas de parreira imensas todos aqueles nus falocratas, como fez Daniele de Volterra, com Michelangelo.

Não andamos longe disso, à esquerda e à direita, e quem não gostar terá que se conformar em andar na minoria. De minha parte, há muito já me acostumei.

 

 

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