18 de janeiro de 2026
Politica

Por que Simone Tebet pode se tornar um elemento surpresa na reeleição de Tarcísio em São Paulo?

“Você sabia que São Paulo nunca teve uma governadora mulher?” A pergunta foi feita a eleitores paulistas durante uma pesquisa quantitativa conduzida pelo cientista político Jairo Pimentel. O desconhecimento do dado – na casa dos 40% — já era esperado. O que surpreendeu foi o efeito seguinte: ao tomar conhecimento dessa informação, parte dos entrevistados mudou sua intenção de voto para o governo de São Paulo. O movimento tem impacto direto sobre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que até o momento diz que tentará a reeleição.

Pimentel coordenou o levantamento por meio de sua consultoria, a Quanti.Lab. A pesquisa, não registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ouviu mil eleitores por telefone entre 22 e 23 de dezembro de 2025. No mesmo período, o cientista político Nilton Tristão, diretor da GovNet & Opinião Pesquisa, conduziu um estudo qualitativo através de roteiros aplicados em profundidade com objetivo de aferir como o eleitor paulista reage a candidaturas fora do espectro tradicional – em especial, as femininas.

Ambos os levantamentos aos quais o Estadão teve acesso foram encomendados por apoiadores de Simone Tebet, que preferiram não se identificar. A iniciativa, no entanto, não partiu da ministra, que tampouco tem se articulado para disputar o Palácio dos Bandeirantes.

Simone Tebet (MDB) em homenagem durante evento do Grupo Prerrogativas
Simone Tebet (MDB) em homenagem durante evento do Grupo Prerrogativas

Segundo esses aliados, o levantamento vem na esteira da avaliação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisará de um palanque competitivo em São Paulo. Como mostrou a Coluna do Estadão, embora Lula tenha pedido para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, volte a disputar o governo do Estado, Haddad resiste à ideia.

Segundo Jairo Pimentel, que é doutor em Ciência Política pela USP, a pesquisa quantitativa foi estruturada como um experimento para medir o efeito sobre o eleitor da informação de que São Paulo nunca teve uma governadora mulher.

Na primeira etapa, os entrevistados respondiam normalmente à pergunta de intenção de voto para Bandeirantes. Em seguida, eram questionados se tinham conhecimento do dado sobre o histórico de governadores e se ele mudaria sua escolha no pleito.

Cerca de um quarto dos ouvidos na pesquisa disse que saber dessa informação influencia, sim, na escolha do candidato. Não por acaso, a comparação entre os cenários de intenção de voto antes e depois da pergunta mostra uma queda no desempenho de Tarcísio e avanço de Tebet.

Entre as mulheres, Tebet avança a ponto de empatar tecnicamente com Tarcísio. A deputada federal Erika Hilton (PSOL) também registra crescimento, embora em patamar inferior.

Atalho informacional

“É uma informação bastante valiosa, um atalho informacional na decisão de voto, especialmente entre as mulheres. Isso pode pesar ao longo da campanha. Se Simone for candidata e se apresentar a partir do fato de que São Paulo nunca teve uma governadora, cria-se um apelo de identidade. Hoje, ela ainda é pouco conhecida pela maior parte do eleitorado, mas esse fator histórico pode gerar tração, sobretudo entre as mulheres”, diz Pimentel.

A eleição para o governo de São Paulo é vista tanto por aliados de Tarcísio quanto por petistas como uma disputa com amplo favoritismo do atual governador. Alguns aliados do chefe do Executivo paulista arriscam a dizer que ele teria chances de vencer no primeiro turno. As duas pesquisas indicam, no entanto, que Tebet tem potencial para se tornar elemento disruptivo na corrida.

Aliados do governador Tarcísio de Freitas arriscam a dizer que ele tem chances de vencer no primeiro turno numa disputa pelo Bandeirantes
Aliados do governador Tarcísio de Freitas arriscam a dizer que ele tem chances de vencer no primeiro turno numa disputa pelo Bandeirantes

Além do fator de gênero, que tem apelo junto a uma parcela do eleitorado, Tebet dialoga com um dado central da pesquisa quantitativa: a maioria dos eleitores quer algum grau de mudança na condução do governo paulista, sobretudo mudanças parciais. O desejo por mudança é mais acentuado entre as mulheres, o que também favorece a ministra, segundo Pimentel.

“O eleitor paulista quer mudança, mas não uma mudança radical; quer uma mudança segura”, diz o sócio-diretor da Quanti.LAB. Segundo ele, essa ideia de segurança está associada à experiência em cargos públicos, e não a perfis outsiders.

“Tarcísio tem chance de vencer no primeiro turno contra Haddad ou Alckmin porque nenhum dos dois oferece um elemento surpresa. São nomes com alto recall, já conhecidos do eleitor. Para evitar uma vitória no primeiro turno é preciso um candidato que traga informações novas e surpreenda. Tebet surge como essa novidade: atrai um voto diferente, tira votos de Tarcísio e pode ser fundamental para impedir a definição já no primeiro turno”, completa Pimentel.

O obstáculo do desconhecimento

Na pesquisa qualitativa, que diferente da quantitativa busca elucidar tendências e entender como o eleitor processa diferentes informações, Tebet aparece com imagem predominantemente positiva: 48% dos participantes a definiram de forma favorável, 28% demonstraram dificuldade para julgá-la e 24% a classificaram negativamente. Isso mostra que a ministra não tem rejeição significativa, mas precisa superar o desconhecimento circunstancial no estado.

Quando estimulados a citar mulheres que poderiam governar São Paulo, 65% dos participantes conseguiram mencionar algum nome. Tebet foi citada espontaneamente por 15%. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) foi lembrada por 10% e a deputada federal Tabata Amaral (PSB), por 8%.

Segundo Tristão, Tebet foi projetada por parte do grupo da pesquisa como sendo uma “liderança competente, empática e conciliadora”, representando a mulher que “pensa, organiza e conduz com equilíbrio e decoro os interesses públicos”.

Efeito Lula

A aliança com Lula provoca duas leituras distintas sobre Tebet. Para parte do eleitorado, a aproximação é vista como expressão de sua trajetória política e da convergência ética, e não como subordinação doutrinária. Já as avaliações negativas se concentram entre eleitores que a consideram oportunista ou traidora por ter apoiado o presidente.

Aliança com Lula provoca leituras distintas entre potenciais eleitores de Tebet
Aliança com Lula provoca leituras distintas entre potenciais eleitores de Tebet

No estudo qualitativo, 60% dos entrevistados afirmam que aceitariam votar em Simone Tebet para governadora. Esse contingente se divide entre eleitores já decididos, parcialmente decididos ou volúveis. Segundo Nilton Tristão, a força da ministra está concentrada entre os decididos, que já estabelecem vínculo de confiança e identificação com a ex-presidenciável.

Entre os parcialmente decididos, pesa a favor uma avaliação pragmática, baseada na coerência entre discurso e prática da ministra. Já o maior potencial de crescimento está entre os volúveis, atraídos pela percepção de novidade, pela identidade feminina e pelo desejo de mudança.

Com base no levantamento, Tristão avalia que a eventual entrada de Tebet na disputa redefiniria a lógica da eleição paulista:

“Existe a mística de que, se Tarcísio disputar a reeleição, representará a condição de postulante praticamente imbatível. Uma vez que a pesquisa confirma que, contra candidatos tradicionais da esquerda, a chance de sucesso seria alta. Mas quando são inseridos elementos novos na disputa, começam a surgir mudanças comportamentais, a partir de novas perspectivas e possibilidades”, afirma.

Tristão pondera, no entanto, que o potencial da ministra depende também do arranjo político. Para ele, Tebet não poderia ser candidata pelo PT, pois, hoje, aparece como possível postulante com rejeição baixa. No momento em que for relacionada formalmente ao PT, essa rejeição mais que dobra, diz ele.

De modo geral, Tristão afirma que a pesquisa qualitativa indica que o eleitor associa a eleição de uma mulher ao governo à humanização das políticas sociais e de saúde, à percepção de esgotamento do poder masculino e à valorização de uma gestão firme, porém equilibrada. Essas expectativas dialogam com a imagem que Tebet desperta entre os eleitores paulistas, segundo o pesquisador.

Petistas ainda veem Fernando Haddad e Geraldo Alckmin como os nomes mais consolidados para disputar o governo de São Paulo.
Petistas ainda veem Fernando Haddad e Geraldo Alckmin como os nomes mais consolidados para disputar o governo de São Paulo.

Embora alas do PT incentivem a candidatura de Tebet, especialmente pessoas ligadas ao Grupo Prerrogativas, na prática, petistas ainda veem Haddad e Geraldo Alckmin como os nomes mais consolidados para disputar o governo de São Paulo. Além disso, caso decidisse entrar na corrida, Tebet teria de deixar o MDB: em São Paulo, o partido integra a base de apoio de Tarcísio e não apoiaria uma candidatura de oposição ao governador. A ministra tem evitado comentar o assunto publicamente e diz a aliados que só definirá seu futuro político após uma conversa com Lula.

Em entrevista ao Estadão, o presidente do MDB, Baleia Rossi, afirmou que, na última conversa que teve com a correligionária, ela disse ter a intenção de disputar uma vaga no Senado pelo Mato Grosso do Sul, seu Estado de origem. “Claro que essas especulações acontecem, a gente acompanha. Acho que isso só engrandece o nome da Simone. Mas, conhecendo a Simone como eu conheço, acredito que ela não estaria falando em ser candidata pelo Mato Grosso do Sul se tivesse outra ideia”, disse Baleia.

 

 

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