24 de janeiro de 2026
Politica

Precisa-se de engenheiros: nova indústria demanda também novas formas de ensino e conhecimento

O processo e a trajetória da formação de engenheiros do país estão intimamente relacionados às condições econômicas e ao desenvolvimento industrial. O processo de industrialização, acentuado a partir dos anos 1930 sob a liderança de Getúlio Vargas, com a implantação da indústria de base (petroquímica, siderurgia, insumos básicos), significou uma ruptura com o padrão anterior.

Naquele contexto, a demanda por engenheiros crescia de forma acentuada. Porém a oferta dessa força de trabalho mais qualificada estava muito aquém das necessidades da indústria: até a década de 1950 havia apenas 16 Instituições de Ensino Superior (IES) ofertando 62 cursos de Engenharia no total.

No período seguinte, a economia brasileira experimentou um crescimento acelerado no governo JK (os “50 anos em 5”), marcado principalmente pela massiva entrada de investimentos estrangeiros diretos na indústria. Após a crise e ruptura institucional com o golpe militar de 1964, a economia logrou crescimento expressivo (o “milagre econômico”) até o final da década de 1970 e o Estado realizou importantes investimentos na infraestrutura, baseados em robusto plano de desenvolvimento – o II PND –, o que o ministro do planejamento no período de 1969 a 1979, João Paulo dos Reis Velloso, chamou de O último trem para Paris.

Já os anos 1980 foram marcados por profunda crise econômica, processo inflacionário galopante e acentuada recessão econômica (“estagflação”). Os efeitos mais perversos foram um desemprego aberto e uma desindustrialização de profundas consequências sobre a capacitação técnico-profissional, em especial no que se refere aos engenheiros.

Após várias tentativas de controle do processo inflacionário, o Plano Real, consolidado durante o governo FHC no início dos anos 1990, conseguiu a estabilização da moeda e, consequentemente, criou um clima favorável aos investimentos na indústria.

No início dos anos 2000 (primeiro governo Lula) um novo ensaio de política industrial se apresentou na Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), priorizando ações nos setores de semicondutores, software, bens de capital e fármacos, mas também com poucos resultados concretos nas cadeias produtivas da economia brasileira.

O que é especialmente relevante destacar é que, ao longo de mais de quatro décadas, a participação da indústria de transformação no PIB, que já havia atingido mais de 20% em meados da década de 1980, reduziu-se para próximo de 11% nos anos mais recentes, fruto de mudanças na estrutura produtiva do país e dos novos modelos de negócios trazidos pela disrupção tecnológica da indústria 4.0. Agora com inteligência artificial, aprendizagem de máquinas e demais tecnologias digitais afins.

Do ponto de vista da formação de engenheiros, pode-se destacar que, ao longo deste período, o número de formados anualmente não atingia 30 mil. Houve uma mobilização na época para evitar o que se chamava de “apagão de engenheiros”. A partir do início do século, o número de vagas e formandos cresceu significativamente: entre 2001 e 2011, as vagas triplicaram, embora a taxa de conclusão fosse baixa (cerca de 44% na década).

Por volta de 2010-2012 o Brasil formava cerca de 40 mil engenheiros por ano, atingindo um pico em 2018, com 128.871 engenheiros formados. Confrontada com os números de outros países de industrialização recente, nossa realidade ainda é bastante preocupante: Rússia, Índia e China formam 190 mil, 220 mil e 650 mil engenheiros/ano, respectivamente. Até mesmo países com menor peso na economia global, como Vietnã e Indonésia, também têm números impressionantes, produzindo mais de 100.000 engenheiros anualmente.

O “Nova Indústria Brasil”, programa lançado recentemente pelo governo central, busca, mais uma vez, impulsionar o desenvolvimento da indústria nacional até 2033, focando em sustentabilidade e inovação, com investimentos da ordem de R$ 300 bilhões para os próximos anos.

Neste novo cenário, os desafios que se colocam para a retomada do processo de industrialização no Brasil são enormes. Os níveis de automação e sensorização na indústria de transformação brasileira ainda estão longe de operar sob o conceito da Indústria 4.0 – há pouco tempo (2019), apenas 5% das empresas industriais haviam atingido esse nível, segundo pesquisa da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Além disso, a revolução da inteligência artificial só aprofunda a necessidade da oferta de força de trabalho altamente qualificada para viabilizar o conjunto das políticas e missões pré-estabelecidas.

É notório o fato de que a taxa de evasão nos cursos de Engenharia no Brasil é muito elevada e se constitui em sério desafio para os formuladores de políticas educacionais no país. O ensino a distância (EaD) é o que mais sofre, com taxas de evasão que podem chegar a 80%. Algumas causas aventadas para esta triste realidade são: dificuldades acadêmicas, falta de preparação em disciplinas básicas como matemática e física, carga horária elevada, deficiência na qualidade do ensino (especialmente em cursos EAD), falta de maior identificação com o curso e expectativas pouco otimistas com relação ao futuro das oportunidades profissionais.

Na busca de novas estratégias surgem, por exemplo, modelos pedagógicos como o expresso na sigla STEM. Nascida nos EUA nos anos 90 e difundida no início dos anos 2000 pela National Science Foundation (NSF), ela representa as áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Com claras implicações no ensino de Engenharia, tal modelo fundamenta-se em abordagem interdisciplinar, com maior foco nas habilidades práticas. Busca incorporar, também, habilidades de gestão, tais como a valorização do trabalho em equipe, melhor comunicação e capacidade de liderança de pessoas. Novas vertentes passaram a incorporar a letra “A” na sigla (STEAM), que implica incentivar os estudantes a desenvolverem habilidades em áreas como a música, artes plásticas, design e outras expressões artísticas.

Alinhado a estas alternativas, o movimento pelo empreendedorismo social pode se constituir em importante alavanca para a superação dos problemas e desafios atuais do ensino de Engenharia. Ao aluno poderiam ser apresentados desafios de problemas complexos logo no início de seus respectivos cursos. As disciplinas da estrutura curricular tradicional poderiam vir como “ferramentas” para apoiar a resolução de tais problemas. Métodos que estimulem de fato a criatividade e a imaginação deveriam ser, também, ingredientes fundamentais nestas novas estratégias de ensino e de formação de engenheiros.

 

 

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