23 de janeiro de 2026
Politica

O rei está nu. E os príncipes também

Há fábulas que atravessam séculos intactas. Famosa é a que nos brindou “o rei está nu” para situações em que o ridículo salta aos olhos. Todavia, convém estendê‑la aos demais membros do séquito real.

Falamos do Estado brasileiro, donde a obesidade institucional é num contraste tão gritante que o velho menino da fábula voltaria a erguer a voz, agora a apontar não para um único monarca, mas para toda a procissão de cortesãos que cruzou o rubicão da decência.

Nos últimos anos, a carga tributária brasileira atinge a casa entre trinta e quarenta por cento do PIB, cifra digna de Estados‑providência setentrionais, embora o retorno em bens públicos esteja páreo a páreo com repúblicas que ainda lutam por alfabetização.

Se, por um lado, esse índice, que consta no Boletim de Estimativa da Carga Tributária Bruta do Governo Geral de 2024, está próximo da média de países que compõem a OCDE, com cerca de 34% da riqueza produzida convertida em tributos, por outro, é um valor singularmente alto no contexto latino-americano, onde a média gira em torno de 21% do PIB, conforme o estudo Estatísticas de Receitas na América Latina e no Caribe 2024, publicado pela OCDE.

Ao lado dessa dissonância entre carga e retorno, os debates concentram‑se em frivolidades. Entre um meme e outro, políticos são tratados como celebridades da internet, protegidos pelo seu fã clube histérico digno de espanto até por Maquiavel.

Não há qualquer esforço em perceber a engenharia financeira que opera, à luz do dia, a transferência de riscos privados ao corpo difuso da coletividade. E nisso se tratando do mesmo poder que fiscaliza com zelo microscópico o contribuinte ordinário.

Recentemente, diante do colapso de uma instituição financeira de grande repercussão midiática – da qual o mandatário da Fazenda disse poder ser a maior fraude bancária do país –, os brasileiros viram-se diante de uma coreografia institucional para converter em fatalidade aquilo que fora gestado por escolhas conscientes. Tornou-se um exemplo do que ocorre quando decisões conscientes e reiteradas de agentes públicos e privados convergem para um resultado desastroso.

Se a fábula nos ensina algo, é que não se trata apenas de sugerir que as instituições brasileiras estão “nuas”, mas de demonstrar que a nudez é menos um acidente de percurso do que um resultado de mecanismos que preferem a aparência à responsabilidade normativa.

E os tempos recentes resumem-se a isto: crises tratadas como episódios isolados. O Leviatã, longe de emagrecer, aprende a vestir-se melhor, enquanto convence os súditos de que a nudez sempre pertence ao outro.

 

 

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