Janeiro Branco como ponto de partida, não como limite
Janeiro retorna todos os anos como um marco público de atenção à saúde mental. Mais do que um sinal de encerramento simbólico, esse período aponta para a necessidade de uma conversa que atravesse o tempo, os contextos e a vida cotidiana. O cuidado psíquico não responde a marcos sazonais, porque o sofrimento humano não se organiza a partir do calendário.
A mobilização proposta pela campanha Janeiro Branco ocupa escolas, empresas, serviços públicos e espaços comunitários. Esse movimento revela algo relevante: existe demanda, existe sofrimento nomeado e existe desejo social de cuidado. O desafio não está em iniciar a conversa, mas em sustentá-la quando o mês termina.
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em 2024 mostraram crescimento nos atendimentos realizados pelos Centros de Atenção Psicossocial. Ansiedade, depressão e sofrimento vinculado ao trabalho aparecem de forma recorrente. Esses números não indicam um pico pontual, mas uma pressão constante sobre a rede pública, que atravessa todo o ano.
No mesmo período, o sistema previdenciário registrou afastamentos por transtornos mentais entre as principais causas de licenças prolongadas. Esse cenário afeta renda, vínculos profissionais e organização familiar. Também expõe o custo social de intervenções tardias, quando o sofrimento já compromete o funcionamento cotidiano.
Compreendo o Janeiro Branco como um lembrete coletivo. Ele sinaliza que a atenção à saúde mental precisa ocorrer de forma contínua, assim como outras práticas de cuidado que não se restringem a campanhas. Quando a escuta acontece apenas em janeiro, o sujeito aprende que sua dor tem prazo de validade.
Estudos publicados no Brasil ao longo de 2024 indicaram que intervenções iniciadas nos primeiros sinais de adoecimento reduzem a progressão de sintomas e diminuem a necessidade de afastamentos longos. Esses efeitos não se limitam ao indivíduo. Eles alcançam políticas públicas, gestão de recursos e planejamento de serviços.
A partir dessas evidências, alguns estados e municípios passaram a integrar triagens na atenção básica, fluxos de encaminhamento para redes psicossociais e ações de educação emocional em escolas e ambientes de trabalho. Essas iniciativas apontam para um entendimento mais amplo do cuidado, que não depende de urgência, mas de acompanhamento.
A permanência dessa lógica exige cultura e estrutura. Quando a sociedade reconhece que saúde mental não se resume a um mês, o acompanhamento deixa de ser episódico e passa a fazer parte da vida cotidiana. Isso implica formação de profissionais, financiamento estável e acesso territorializado.
Relatórios recentes da Organização Mundial da Saúde registraram aumento global de transtornos mentais no período pós-pandemia. As recomendações seguem na mesma direção: ampliação de serviços comunitários, fortalecimento da prevenção e políticas sustentadas no tempo.
No Brasil, conselhos profissionais, universidades e organizações civis utilizam o Janeiro Branco para divulgar sinais de alerta, caminhos de acesso ao cuidado psicológico e redes de apoio existentes. Essa difusão cumpre um papel pedagógico relevante, desde que não se encerre com o fim do mês.
Janeiro permanece, assim, como um marco simbólico. Ele aponta para um compromisso que precisa atravessar fevereiro, março e todos os meses seguintes. Cuidar da mente não pertence a um período isolado. Trata-se de uma prática contínua, inserida na saúde coletiva e na vida comum.
