24 de janeiro de 2026
Politica

Vaga na Academia

Mestre Miguel Reale, o pai, costumava declamar um poema em francês que descrevia a volúpia com que candidatos almejam uma vaga na Academia de Letras. Não consigo localizar esse texto. Mas ele dizia, em síntese, que se somos quarenta – nenhuma vaga – somos ignorados ou até vilipendiados. Mas se somos trinta e nove – há uma vaga – então só faltam ajoelhar diante de nós.

Em francês é bonito, porque “nous” – nós – rima com “genoux” – joelhos. Em português falta a rima. Porém, não é menos verdadeira a situação. E isso é frequente e continua a ocorrer, como fenômeno inextirpável da vida acadêmica.

A propósito, Humberto de Campos, após lamentar a morte de Oliveira Lima, fala da movimentação dos candidatos à sua vaga. Não se entusiasma tanto: “Os nomes que surgem são de rapazes que ainda não têm uma obra, e que prometem trabalhar, quando entrarem para a Academia”.

Já houve tempos mais glamourosos na renovação acadêmica. Os candidatos visitavam, pessoalmente, cada um dos trinta e nove eleitores. E passavam por uma sabatina informal.

Para a vaga de Oliveira Lima, Humberto de Campos iniciou entrevistas no edifício do “Petit Trianon”. Era o didata Carneiro Leão. Troca ideias com seus confrades Medeiros e Albuquerque e Augusto de Lima. Este sugere algum grande nome fora da literatura profissional e lembra o Ministro Edmundo Lins, do Supremo Tribunal Federal. A ideia enfrenta resistências. “Contra as grandes figuras há, porém, o pequeno exército das mediocridades, no seio da Academia. Os poetas que metemos na casa não querem agora senão poetas”.

O temor de Humberto de Campos era o do declínio da Academia Brasileira de Letras. “Ou se promove uma reação, ou a Academia estará perdida para o decurso de duas ou três gerações. Aí está, O. (ele, quando quer fazer uma crítica mais acerba, só coloca as iniciais, mas tudo indica seja Olegário Mariano), incapaz de escrever um parecer com a própria pena, e que, para conseguir o seu discurso de recepção, teve de ir a Buenos Aires, onde o obteve do seu íntimo amigo Ildefonso Falcão, funcionário do consulado. Aí está L.C., cuja prosa é inferior a qualquer ditado de normalista romântica. Aí está, finalmente, A.T., cuja obra se resume a meia centena de quadrinhas, o que dá uma quadrinha de dois em dois anos, e que nem isso escreveu mais, depois que entrou para a Academia”.

Já fora do recinto da Academia, Humberto de Campos encontra outro candidato: “Pequeno, magro, entanguido, com o seu fraque preto que data, parece, do tempo do Império, e um chapéu coco contemporâneo do fraque – com o seu tipo, em suma, de antigo chefe de seção de secretaria de Estado – encontro na Livraria Leite Ribeiro o historiador Rocha Pombo. O bigode de sexagenário, cai-lhe, branco, dos cantos da boca. Toda a sua figura respira, em suma, pobreza limpa e modéstia. Falo-lhe da sua candidatura à Academia, na vaga de Oliveira Lima. Animo-o, peço-lhe que trabalhe, que se resolva, que se agite. Os olhos do bom velhinho, olhos que não se escondem por trás de qualquer vidro, se iluminam, como os de uma criança a quem se prometesse doce”.

– “E depois, se vocês não me elegem? – ponderou, de repente, numa expressão de tristeza – “Eu já nem alimento esperanças…”

Mas voltou à sua serenidade habitual, como quem quer evitar toda a sorte de tentação:

– “A minha vida, como eu já disse uma vez num álbum, tem sido um constante varrer de escada de baixo para cima…”.

Enquanto isso, a Academia elegia em abril de 1928 Ramiz Galvão, na vaga de Carlos de Laet, por 21 votos, em segundo escrutínio, contra 14, dados a Lindolfo Collor. Umberto

Humberto votou em Collor, seu companheiro na Câmara. Não só pela relação política, mas pela desconfiança quanto ao mérito do seu competidor. “Dizem-no um beletrista notável, senhor de grande cultura; a verdade, porém, é que admirador seu, como quase toda a gente, por informação, sofri a mais amarga das decepções, ao ler um discurso por ele proferido no Instituto Histórico. Estilo obscuro, pronomes mal colocados e, por toda a parte, o mau gosto literário”.

O eleitorado acadêmico é exigente. E nem sempre se tem notícia dos critérios que levam a eleger um dos candidatos. Estes precisam de paciência, perseverança e humildade.

 

 

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