Última ida de Toffoli ao Tayayá foi para festa de Ano Novo, sem cobrança de consumo dos convidados
ENVIADOS ESPECIAIS A RIBEIRÃO CLARO (PR) — A última vez que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, esteve no resort Tayayá foi na última virada de Ano Novo, quando ofereceu uma festa a centenas de convidados no local. Toffoli foi procurado por meio da assessoria do STF, mas não se posicionou até a publicação desta reportagem.
O Estadão se hospedou na quinta-feira, 22, e sexta-feira, 23, no hotel. Uma funcionária contou à reportagem que os convidados do ministro levaram a própria bebida, como champanhe e vinho.
Ainda segundo ela, os pedidos no bar do resort eram cortesia. Normalmente, a cobrança é feita por uma pulseira que os hóspedes recebem quando fazem o check-in. O item possui um chip, possibilitando que o pedido seja registrado diretamente na conta da reserva.
“Aqui quando cobra, a gente passa na pulseirinha. Mas deles não. Eles só pedem e a gente entrega”, afirmou ela, acrescentando que na festa o drinque mais pedido foi piña colada. A bebida leva leite de coco, suco de abacaxi, leite condensado, rum e coco ralado. O preço é R$ 48.
O resort não respondeu ao questionamento do Estadão sobre o consumo liberado para Toffoli e seus convidados.

A funcionária contou ainda que Toffoli e seus familiares ficam em uma área à parte quando vão aos restaurantes do resort. O ministro costuma se hospedar em uma área mais exclusiva do resort, o condomínio Ecoview. Uma cota da casa no local, que dá direito a quatro semanas de hospedagem por ano, custa R$ 750 mil.
A reportagem abordou outros funcionários durante a estadia no resort. Eles eram simpáticos, mas ficavam nervosos quando o nome de Toffoli era mencionado. Àquela altura, diversas matérias sobre o resort e o ministro do STF já haviam sido veiculadas pela imprensa, inclusive pelo Estadão.
Irmãos de Toffoli venderam sua parte no resort para advogado que atuou em causas da JBS
Uma empresa administrada por dois irmãos de Toffoli chegou a ter 33% do Tayayá. A Maridt Participações S/A deixou a sociedade no ano passado, quando vendeu o que restava de sua participação ao advogado Paulo Humberto Barbosa.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, Barbosa advogou para a JBS em causas tributárias na Justiça goiana e junto à Secretaria da Fazenda de Goiás. Ele também é sócio de uma empresa, ao lado do genro de José Batista Júnior, irmão mais velho de Joesley e Wesley, e de um executivo da Friboi. Em dezembro de 2023, o ministro Dias Toffoli suspendeu o pagamento das parcelas da multa de R$ 10,3 bilhões do acordo de leniência da J&F.
Antes de negociar com Barbosa, a Maridt já havia vendido, em 2021, uma fatia da sua participação para o fundo Arleen, que como mostrou o Estadão à época era controlado pelo empresário Fabiano Zettel. Ele é cunhado de Daniel Vorcaro, ex-presidente do banco Master investigado pelo STF por fraude na gestão da instituição financeira. O ministro Toffoli é o relator do caso.
Piscinas, jet ski e loteria instantânea
O Tayayá tem uma extensa área de lazer, com diferentes tipos de atração. Piscinas com toboágua, quadras poliesportivas, lago para passeio de caiaque ou jet ski, entre outras. O Estadão também foi a uma espécie de cassino, local que é chamado de sala de jogos ou videoloteria pelos funcionários. Trata-se de uma modalidade de loteria instantânea, permitida no Paraná desde 2024.
O ambiente da sala emula cassinos norte-americanos, com paredes escuras e sem iluminação natural. São 14 máquinas disponíveis para aposta, com jogos variados. Em cada turno, o apostador compra um bilhete com resultado pré-determinado – premiado ou não. As máquinas são certificadas pela Lottopar, empresa do governo paranaense. Também é possível pedir bebidas e porções em um bar instalado no local.
O repórter apostou R$ 20 e perdeu tudo. Já o fotógrafo depositou o mesmo valor e ganhou R$ 50, totalizando uma retirada de R$ 70. Os depósitos são feitos por meio de uma chave Pix disponibilizada pela própria máquina; quando há retirada, também é feito um Pix para a conta bancária informada.
‘Sócio? Olha a minha casa!’
O luxo do Tayayá contrasta com a casa em Marília, interior de São Paulo, registrada como sede da Maridt, empresa administrada pelos irmãos José Eugênio e José Carlos Dias Toffoli, que é padre.
A casa, que apresenta sinais de deterioração, é onde moram José Eugênio Dias Toffoli e sua esposa, Cássia Pires Toffoli. O Estadão foi até o local. Questionada, Cássia negou que o local fosse sede da empresa e que seu marido, que é engenheiro eletricista, fosse sócio do resort. Ele estava viajando, segundo ela.
“Você está vendo a situação da minha casa? Eu não tenho nem dinheiro para arrumar as coisas da minha casa! Se você entrar dentro, vai ficar assustado. O que está lá (na Junta Comercial), eu não sei. Eu sei que moro aqui há 24 anos e não sei de nada que é sede (da Maridt) aqui. Aqui é onde eu moro”, acrescentou.
Procurado, José Eugênio Dias Toffoli disse à reportagem que a Meridit, empresa sediada na casa dele, não faz mais parte do Tayayá e que todas as informações financeiras da empresa foram declaradas à Receita Federal. O Estadão foi duas vezes à casa de José Carlos. Em ambas, atendeu o interfone e dispensou a reportagem rapidamente.
O Estadão revelou que a Maridt também foi sócia de um segundo resort da rede Tayayá, às margens do Rio Paraná, conhecido como Tayayá Porto Rico. O empreendimento ainda não teve suas obras concluídas.
A reportagem obteve acesso a documentos da Junta Comercial do Paraná que mostram que os dois irmãos representaram a Maridt no negócio. Há até registro da assinatura de próprio punho do padre em uma das assembleias de sócios.
