A semana em que Nikolas conseguiu unificar a direita e alavancar a candidatura de Flávio Bolsonaro
Nikolas Ferreira conseguiu algo que vinha faltando à direita. Ao longo de uma caminhada de sete dias, iniciada em Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, e concluída com um ato em Brasília, unificou o campo político nas redes, reduziu conflitos internos e transformou engajamento digital em presença física.
A manifestação na capital federal, que reuniu milhares de pessoas debaixo de chuva, não foi um resgate automático do bolsonarismo. Foi algo novo, resultado de um gesto simbólico potente, ancorado na ideia de um caminho a ser percorrido coletivamente até um objetivo comum. Ação que gerou muitos posts virais nas redes e milhões de interações. Uma estratégia de marketing político muito atual e eficaz, que parte do offline para povoar o online, com ações no mundo físico dando o tom da comunicação.
Ao longo da caminhada, Nikolas Ferreira atuou como catalisador. Centralizou a pauta, organizou o discurso e empurrou lideranças para um mesmo eixo. A direita respondeu. Canais, parlamentares e influenciadores alinharam mensagens, suspenderam disputas laterais e voltaram a operar como bloco.

Esse movimento produziu um segundo efeito relevante. A caminhada impulsionou a imagem de Flávio Bolsonaro. Em apenas uma semana, os posts que mencionaram o senador ampliaram em seis pontos o porcentual de menções associadas à confiança. Dados da AP Exata mostram que, no dia da manifestação, 21% dos conteúdos que falaram de Flávio carregavam esse enquadramento. Uma semana antes, eram 15%. O patamar superou inclusive o momento em que ele havia alcançado maior visibilidade, quando divulgou a carta do pai confirmando a candidatura presidencial.
Os números ajudam a explicar uma inflexão na dinâmica da direita. Flávio emerge como um fenômeno político que se beneficia simultaneamente do carisma herdado de Jair Bolsonaro e da capacidade de liderança digital e organizacional exercida por Nikolas Ferreira. Essa combinação supre uma fragilidade própria. Flávio não mobiliza massas sozinho, mas cresce quando inserido em um ecossistema que lhe fornece sentido, pertencimento e direção política.
Nesse processo, o que se observou foi a retomada do repertório central de 2022, com forte marca antiesquerda e apelo moral e religioso, mas sem avanço relevante na agenda programática. A mobilização, portanto, aponta mais para a reorganização do bolsonarismo do que para sua atualização retórica.
Enquanto isso, Lula trabalha em outra chave. O governo trabalha em uma narrativa econômica ancorada em resultados imediatos. Redução do desemprego, crescimento do PIB, desaceleração da inflação dos alimentos e queda da desigualdade são apresentados como evidências concretas de gestão. É por esse caminho que o presidente tenta alcançar apoio entre eleitores moderados, menos mobilizados por disputas ideológicas e mais sensíveis ao impacto direto no cotidiano.
Nesse movimento, a pauta do desequilíbrio fiscal perde centralidade no debate público. Ela não desaparece do plano técnico, mas se torna abstrata para grande parte do eleitorado. Projeções futuras, mesmo quando negativas, competem mal com indicadores percebidos no presente. O eleitor entende melhor o preço no supermercado, o emprego alcançado ou preservado e a renda no fim do mês do que alertas sobre riscos fiscais de médio prazo.
A reorganização dos conservadores era um passo fundamental para viabilizar eleitoralmente um candidato de perfil mais morno como Flávio Bolsonaro, na disputa contra um presidente de perfil populista. Esse avanço, no entanto, não encerra o desafio. Para chegar à vitória, a direita precisará ir além da própria base e conquistar o eleitorado de centro. Sem avançar para uma agenda capaz de dialogar com o eleitor moderado, a força demonstrada tende a permanecer circunscrita ao próprio campo. É nesse ponto, ainda em aberto, que a disputa eleitoral será decidida.
