27 de janeiro de 2026
Politica

PF acha em apartamento em Santos cartas com ‘orientações financeiras’ de lavagem do PCC com cripto

A Polícia Federal encontrou em um apartamento da rua São José, no bairro do Embaré, em Santos, correspondências manuscritas contendo orientações do esquema de lavagem de dinheiro do tráfico por meio de criptomoedas. O achado ocorreu na Operação Narco Azimut, deflagrada na quarta-feira, 21 – cinco suspeitos de ligação com o PCC foram presos, entre eles Fernando Henrique Caetano da Cunha, o ‘Jimmy’, destinatário das cartas enviadas por Davidson Praça Lopes, o ‘Azimut’, que está preso desde abril do ano passado.

‘Jimmy’ é apontado pela PF como ‘responsável pela movimentação de criptoativos e conferência de valores em espécie’ e um dos ‘principais articuladores logísticos’ da organização. Em uma carta, de 28 de dezembro passado, ‘Azimut’ repassa orientações específicas a ele, relacionadas com Júlio César Oliveira Otaviano, ‘informando necessidades operacionais e de transações financeiras’.

Apontado como o líder do grupo, Davidson ‘repassa inúmeras orientações quanto às movimentações financeiras de valores e de bens’, diz a PF. A Operação Narzo Azimut indica que ‘Jimmy’ exerce o papel de sócio de Davidson ‘Azimut’. Ele seria o responsável pela movimentação de criptoativos e conferência de valores em espécie.

As transações, segundo a investigação, atingiram a quantia de R$ 39 milhões.
As transações, segundo a investigação, atingiram a quantia de R$ 39 milhões.

O próprio Davidson se refere a ‘Jimmy’ como seu sócio. Em um diálogo com ‘Biel Work’, que também faz parte da estrutura do grupo, Davidson passa a ele o contato de ‘Jimmy’. “Meu sócio irá atendê-lo.”

As transações, segundo a investigação, atingiram a quantia de R$ 39 milhões. Desse montante, R$ 15,5 milhões foram movimentados em espécie – R$ 8,7 milhões por meio de transferências bancárias e R$ 15,4 milhões em criptoativos.

Davidson ‘Azimut’ foi preso em abril do ano passado na Operação Narco Bet, inquérito que faz parte do mesmo escopo de investigação que prendeu Rodrigo de Paula Morgado em outubro de 2025, apontado pelos federais como contador do PCC, preso em outubro.

“Assim se confirmam, ainda mais, a contemporaneidade das condutas praticadas por esses investigados. Isto porque, mesmo preso, o principal investigado identificado até o momento, Davidson, ainda continua coordenando os esquemas espúrios da associação criminosa constituída para a prática delitiva de ocultação ou dissimulação de bens e valores, bem como a movimentação ilegal de grandes quantias em espécie, transferências bancárias e criptoativos (notadamente USDT – Tether), tanto no território nacional quanto no exterior”, assinala o juiz Anderson Vioto, da 5.ª Vara Criminal Federal de Santos.

Em despacho de 19 páginas, o magistrado transformou o decreto de prisão temporária dos sete alvos da Operação Narco Azimut em prisão preventiva – sem prazo para vencer. “Diante desse conjunto probatório robusto, conclui-se que Fernando Henrique Caetano da Cunha, o ‘Jimmy’, Júlio César Oliveira Otaviano e Davidson Praça Lopes, o ‘Azimut’, ‘continuam exercendo função essencial no núcleo logístico e financeiro do grupo investigado’.

Cinco investigados já estavam aprisionados em regime de prisão temporária desde a quarta-feira, 21, quando a operação foi às ruas por ordem do juiz Roberto Lemos, titular da 5.ª Vara Federal de Santos – Davidson Praça Lopes, Fernando Henrique Caetano da Cunha, João Gabriel de Jesus Fernandes, Rafael Pio de Almeida e Marcelo Henrique Antunes da Palma.

Dois suspeitos estão foragidos – Ezequiel da Silva Fernandes e Júlio Cesar Oliveira Otaviano.

“Suas condutas apresentam alto grau de reiteração e sofisticação, com evidente risco de continuidade delitiva, além de representar ameaça à efetividade da persecução penal, caso permaneçam em liberdade”, observa o juiz.

Amparado nos indícios colhidos pela PF, o juiz pontua que ‘Azimut’ desponta como ‘líder e principal articulador do núcleo transnacional, inclusive se encontrando recolhido por força de comando judicial no âmbito da denominada Operação Narco Bet, envolvido em esquemas semelhantes aos apurados nestes autos’.

“Os diálogos e as análises realizadas demonstram a capacidade real de articulação externa dos investigados, razão pela qual eventual soltura poderia frustrar as diligências em andamento, permitir a fuga dos envolvidos, causar reiteração delitiva ou comprometer a colheita da prova penal”, alerta o juiz.

Na avaliação de Anderson Vioto ‘em face da gravidade concreta das condutas, da multiplicidade de núcleos funcionais envolvidos (logística para o manuseio, conferência, transporte e entrega de valores, comunicações, financeiro, lavagem patrimonial, contratação de ‘laranjas’ e fachada empresarial), da clara estrutura de comando e da transnacionalidade das remessas e transações financeiras praticadas, a prisão preventiva mostra-se absolutamente imprescindível e não substituível por medidas cautelares alternativas, sob pena de grave risco à ordem pública, à instrução criminal e à aplicação da lei penal.”

O juiz frisa que ‘todas as condutas identificadas e as participações concretas dos investigados nos fatos apurados demonstram a periculosidade dos agentes, o evidente risco à ordem pública e notadamente à ordem econômica, dado ao fato do estratagema criminoso destacado que evidencia a prática de delitos financeiros e de natureza destinada a ocultação e a dissimulação da circulação de valores, inclusive transnacionais’.

Segundo ele, a regularidade da instrução criminal e a aplicação da lei penal ‘também se evidenciam em risco, visto que uma vez colocados em liberdade provavelmente se furtarão às obrigações processuais ou cautelares menos gravosas acaso impostas’.

O magistrado se reporta ao fato de Davidson ‘Azimut’, mesmo atrás das grades continuar operando. “Como objetivamente demonstrado, o investigado Davidson, mesmo preso, prossegue controlando e organizando a estrutura criminal juntamente com seus comparsas. Impende destacar, que o fundado receio de reiteração delitiva por parte dos indiciados, inclusive à vista da existência de outros inquéritos e ações penais em curso, se demonstra pleno e incontestável. Se afigura inseparável a relação desta apuração Narco Azimut com os fatos investigados no âmbito da Operação Narco Bet e também da Operação Narco Vela.”

Ao se reportar ao papel de Davidson ‘Azimut’ na estrutura do crime, o juiz da 5.ª Vara Federal de Santos diz que ‘a análise de três correspondências manuscritas, por ele redigidas e endereçadas a Fernando Henrique Caetano da Cunha, ‘Jimmy’, revela o repasse de orientações relativas à movimentação de valores e bens, evidenciando a continuidade da atuação criminosa e corroborando o quadro fático delineado na hipótese criminal dos autos’.

“Tais elementos demonstram que ambos os investigados mantêm intensa atividade criminosa, no caso de Davidson, mesmo sob prisão temporária, o que evidencia risco concreto de reiteração delitiva, apto a comprometer a garantia da ordem pública, justificando, assim, a conversão da prisão temporária em prisão preventiva, nos termos do artigo 312 do Código de Processo Penal”, pontuou Anderson Vioto.

 

 

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