27 de janeiro de 2026
Politica

Flávio passa verniz religioso em candidatura com símbolos e alusões bíblicas e repete passos do pai

BRASÍLIA – “Estou aqui num lugar chamado Monte das Bem-Aventuranças. Foi aqui que Jesus Cristo fez seu primeiro discurso, e a partir daqui Ele começou sua peregrinação pelo mundo para levar esperança a todos. Então, queria pedir a todos aí (no Brasil) que fechassem os olhos para fazermos uma oração.”

De uma colina próxima ao Mar da Galiléia, em Israel, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez uma videochamada em tom profético com o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), que compartilhou a ligação com dezenas de parlamentares bolsonaristas ao seu redor.

Flávio Bolsonaro se banha no rio Jordão, em Israel, numa repetição de ato feito pelo pai em 2016
Flávio Bolsonaro se banha no rio Jordão, em Israel, numa repetição de ato feito pelo pai em 2016

“Senhor Deus, nós te agradecemos (…) por todas as dificuldades e o sofrimento que nós temos passado. Nós temos a certeza de que isso é para que tenhamos cada vez mais musculatura espiritual para enfrentarmos os problemas do Brasil, para que possamos libertar o País das garras do atual governo, que tem feito o povo sofrer tanto”, orou Flávio pelo celular, numa cena publicada em seu perfil nas redes sociais.

Do outro lado da chamada, Gayer e um grupo liderado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que marchou de Paracatu (MG) até Brasília para protestar contra a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e motivar a militância em ano eleitoral, ouviam com atenção as palavras de Flávio. O senador é pré-candidato à Presidência da República e tenta unificar a direita em torno de sua empreitada – como seu pai fez oito anos atrás.

Desde que deu o pontapé na pré-campanha, Flávio vem pincelando verniz religioso em sua caminhada, com simbolismo, referências bíblicas e acenos ao eleitorado evangélico. Os paralelos com os passos do pai podem ser notados na viagem que faz a Israel nesta semana.

Flávio se banhou na quinta-feira, 22, nas águas do rio Jordão, num gesto que o pai, católico, fizera dez anos atrás, em maio de 2016. Era parte da estratégia visando a eleição de 2018, da qual acabaria vencedor. O local é ponto de peregrinação para cristãos, especialmente evangélicos, por ser o lugar onde Jesus teria sido batizado por João Batista.

“Já somos batizados, mas não podemos perder a oportunidade de mais uma vez aqui, diante do rio Jordão, renovar os nossos votos aqui, a nossa aliança com Deus, e aceitar mais uma vez Jesus Cristo como o nosso salvador”, declarou para o vídeo que publicaria em suas contas nas redes sociais.

Na mesma viagem, na sexta-feira, 23, esteve no Muro das Lamentações, importante e sagrado monumento situado em Jerusalém, e fez referências a Bolsonaro nas redes sociais. “Mais uma vez, sigo os passos do meu pai”, escreveu em publicação em que aparece orando no local.

Em outra postagem, Flávio faz uma comparação direta com o momento em que o pai esteve no monumento. O ex-presidente visitou o muro em 2019, ao lado do primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu. “Não é coincidência. É propósito, é missão dada por Deus”, disse, ao compartilhar foto semelhante à de Bolsonaro.

Flávio foi citado por Netanyahu num evento de combate ao antissemitismo realizado nesta segunda, 26. Em discurso, o premiê agradeceu a presença do senador e do irmão dele, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O trecho, em vídeo, logo foi publicado nas redes sociais do parlamentar.

Em 7 de dezembro, num evento tido como marco zero de sua pré-campanha, Flávio foi a um culto na Igreja Comunidade das Nações, em Brasília. “Sabia que Deus ia agir, mas não tão rápido, e converter a imprensa”, disse aos jornalistas a que deu entrevista após a agenda. A partir de então, as alusões religiosos se empilharam.

Em entrevista ao canal LeoDias TV, em 15 de dezembro, Flávio declarou que “a batalha não é só política, é espiritual”. No dia 22 daquele mês, no culto “Grande Clamor pelo Brasil”, organizado no estacionamento do aeroporto de Vitória, ele disse que “Deus tem um plano para o Brasil” e pediu uma oração pelo País. Em 3 de janeiro, compartilhou uma música que a cantora gospel Mirian Cassia fez com a letra da oração que o senador tinha conduzido no Espírito Santo duas semanas antes. No fim de semana passado, publicou um vídeo no qual diz que sua pré-candidatura é um “projeto de Deus”.

Flávio deve arrebatar para si a maior parte do eleitorado evangélico se herdar os votos do pai – em 2022, católicos ficaram com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto os protestantes, com Bolsonaro –, mas os diversos acenos não têm sido suficientes para arregimentar aliados de peso, como o pastor Silas Malafaia.

Apesar de ser homem de confiança e aliado de última hora de Jair Bolsonaro, Malafaia tem defendido o nome do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como o nome mais viável para desalojar o PT do Palácio do Planalto. O pastor diz que Flávio “não empolgou a direita”.

Em entrevista ao SBT News, Malafaia disse que derrotar Lula passa por construir uma frente que reúna centro e direita, algo que, na sua leitura, Tarcísio é mais capaz de fazer.

Ele também mencionou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro como ativo eleitoral, ao citar a capacidade de diálogo com mulheres e evangélicos. “A direita pura não ganha a eleição”, declarou ao defender uma candidatura com maior “capilaridade” e apoio além do núcleo bolsonarista.

Carô Evangelista, diretora do Instituto de Estudos da Religião, diz que a alusão a elementos religiosos não deve trazer novo eleitorado a Flávio, mas ajudá-lo a manter o que já tem – como se os apoiadores não esperassem outro comportamento. “É meio que o mínimo esperado da cartilha conservadora”, afirma.

“Eles (candidatos da direita) têm ‘símbolos e medos’ para mobilizar, porque os fatos ou são desfavoráveis a eles, como as condenações e prisões de aliados, ou não são suficientemente desfavoráveis para o outro lado, como o desempenho concreto do governo Lula”, diz a pesquisadora.

O Censo 2022, publicado no ano passado, mostra que os evangélicos já representam mais de um quarto da população brasileira, número que segue crescendo, enquanto o de católicos vem diminuindo. Nas últimas eleições, o segmento foi disputado pelos diferentes candidatos.

Na eleição presidencial de 2022, Lula teve de fazer diversos acenos ao eleitorado, que embarcou em peso na campanha de Bolsonaro. Ele chegou a divulgar uma carta aos evangélicos, em evento com lideranças religiosas, e reafirmou o compromisso, se eleito, com a liberdade de culto no País. O texto dizia que os evangélicos eram bem-vindos para participar do Executivo e listava medidas do petista ao segmento enquanto presidente pela primeira vez (2003-2010), como a sanção da Lei da Liberdade Religiosa e a criação do Dia da Marcha para Jesus.

 

 

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