1 de fevereiro de 2026
Politica

Propina da Saúde a prefeitos era entregue em caixas de isopor, diz PF

O suposto esquema de desvios de verbas da Saúde que se teria instalado em cinco municípios do Rio Grande do Norte usava a expressão ‘no isopor’ para se referir ao pagamento de propinas e à coordenação de saques em dinheiro, segundo investigadores da Polícia Federal. Nesta terça-feira, 27, a corporação deflagrou a Operação Mederi, que atingiu empresários, prefeitos e servidores públicos, suspeitos de lesarem os cofres públicos em R$ 13 milhões.

Nas diligências realizadas nesta manhã, que alcançaram 35 endereços, a Polícia Federal confirmou as suspeitas dos investigadores e apreendeu maços de dinheiro escondidos em um isopor.

Para a PF, valores armazenados 'no isopor' demonstram a 'necessidade de coordenação para realização de saques fracionados'
Para a PF, valores armazenados ‘no isopor’ demonstram a ‘necessidade de coordenação para realização de saques fracionados’

As fraudes em licitações de medicamentos teriam ocorrido nos municípios potiguares de Serra do Mel, Mossoró, Paraú, São Miguel e José da Penha. O esquema contava com a atuação de duas empresas farmacêuticas, segundo o inquérito da PF: Dismed e Drogaria Mais Saúde.

Os prefeitos de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil); Paraú, João Evaristo Peixoto (Progressistas); e São Miguel, Leandro Michel do Rêgo Lima (União Brasil), além do ex-vice de Serra do Mel, José Moabe Zacarias Soares (PSD), foram alvos de busca e apreensão. O atual vice de Mossoró, Marcos Bezerra (PSD), também entrou na mira das diligências.

Em nota, o prefeito de Mossoró informou que “colaborou integralmente com a diligência, franqueando acesso às informações solicitadas”. (leia a íntegra abaixo)

Estadão busca contato com a defesa dos demais citados. O espaço está aberto.

‘No isopor não rende nada’

A Operação Mederi identificou a empresária Roberta Ferreira Praxedes Costa, sócia da Drogaria Mais Saúde, como integrante do esquema que mais usava a artimanha do ‘dinheiro no isopor’. Ela é mulher de Oseas Monthalggan, sócio da Dismed e operador do esquema junto às prefeituras.

Em um diálogo interceptado pela PF, Roberta confirma a Oseas o uso do ‘isopor’ e valores em espécie.

‘Não, amor. É que eu vou fazer o seguinte. Eu ia sacar os R$ 43 mil para pegar R$ 10 mil aqui que eu tenho no isopor e passar os R$ 53 mil para o cara, certo! Só que é o seguinte, é melhor eu dar os R$ 30 mil que eu tenho no isopor, com R$ 23 mil e deixar R$ 20 mil aí na poupança que vai rendendo alguma coisa, né?“, disse a empresária, alvo das diligências da PF nesta terça.

Operação Mederi identificou a empresária Roberta Ferreira Praxedes Costa, sócia da Drogaria Mais Saúde, como integrante do esquema que mais usava a artimanha do 'dinheiro no isopor'
Operação Mederi identificou a empresária Roberta Ferreira Praxedes Costa, sócia da Drogaria Mais Saúde, como integrante do esquema que mais usava a artimanha do ‘dinheiro no isopor’

“É melhor tá no banco do que no isopor. No isopor não rende nada, viu? Mas eu vou cuidar de sacar aqui para passar, que o cara tá me cobrando”, completou Roberta no áudio.

Para a PF, “valores armazenados ‘no isopor’, com referências a saques de R$ 43.000,00 (quarenta e três mil reais) e R$ 53.000,00 (cinquenta e três mil reais), além da expressão ‘que eu tenho no isopor’ demonstram a necessidade de coordenação para realização de saques fracionados, o que pode indicar tentativa de evitar comunicações obrigatórias ao sistema de controle financeiro”.

Na decisão que autorizou as diligências, o desembargador do Tribunal Regional Federal da 5.ª Região (TRF5), Rogério Fialho Moreira, destacou informação da Controladoria Geral da União, segundo a qual ‘todas essas práticas ilícitas teriam sido encabeçadas pelo alto escalão’ das gestões municipais.

O magistrado assinala que “as referidas empresas teriam suas receitas compostas essencialmente de recursos públicos, sendo a maior parte oriundos de Fundos Municipais de Saúde, os quais constituem-se de verbas federais repassadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS)”.

Os investigados poderão responder por crimes relacionados a desvios de recursos públicos e fraudes em contratações administrativas.

 

 

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