Aliados de Gilmar, Barbalho e Alcolumbre comandam grupos da CPF para modernizar futebol brasileiro
BRASÍLIA E SÃO PAULO – Há nove meses sob a presidência de Samir Xaud, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) manteve a tradição de empoderar cartolas ligados a lideranças políticas e envolveu nas suas principais iniciativas o instituto do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Duas medidas relacionadas à arbitragem e às finanças consideradas importantes para a melhoria do futebol brasileiro, anunciadas pela CBF, são coordenadas por aliados do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da família Barbalho, do Pará.
Em paralelo, o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), de Gilmar Mendes, amplia a influência nos bastidores. Francisco Schertel Mendes, filho do ministro, virou vice-presidente da federação do Mato Grosso e tem ganhado protagonismo dentro da entidade máxima do futebol brasileiro.
A reportagem procurou por todos os “padrinhos políticos” citados. Nenhum fez comentários. Em nota, a CBF afirmou que pauta a sua atuação “pelo enfrentamento dos problemas estruturais do futebol brasileiro” e que os “avanços só são possíveis” porque a entidade “conta hoje com executivos e dirigentes capacitados, com experiência no futebol e em diversos setores do mercado” (leia mais abaixo).
Responsável pela CBF Academy, estrutura de formação oferecida pela faculdade de Gilmar Mendes à CBF, Francisco tem ampliado relações com as federações estaduais, com a cúpula da entidade e ocupado uma posição de “observador privilegiado”.
A atuação do ministro Gilmar Mendes, no STF, foi determinante para o deslocamento de poder na CBF. Foi dele a decisão que, primeiro, manteve o então presidente da entidade, Ednaldo Rodrigues, após denúncias de fraude na eleição de 2022 apontadas em processo que começou no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
O contrato do IDP, de Gilmar, com a CBF é de agosto de 2023. O pedido de restituição de Ednaldo ao cargo foi apresentado em dezembro daquele ano. Gilmar foi sorteado relator e em janeiro decidiu a favor do então presidente da entidade.
Também foi dele o despacho que pediu nova apuração sobre a situação de Ednaldo e devolveu o caso ao Rio de Janeiro, o que meses depois resultou no afastamento definitivo de Ednaldo Rodrigues.
Os chefes dos grupos de trabalho
Para o GT de arbitragem, o presidente da CBF designou Raimundo Pereira Góes da Silva Netto, o Netto Goés, vice-presidente da Federação de Futebol do Amapá. O grupo anunciou providências nesta terça-feira, 27, como a contratação de equipe de 72 árbitros.
Candidato a deputado federal pelo PSD em 2022, Netto é filho do deputado estadual Roberto Góes (União), que por sua vez é primo do ministro Waldez Góes (PDT), da Integração e do Desenvolvimento Regional. Pai e filho são aliados de Davi Alcolumbre no Estado e mandam no futebol amapaense há duas décadas.

O GT de arbitragem teve em sua composição o engenheiro Davi Vale, gerente do IDP que atua como gerente-geral da CBF Academy. E ainda Caio Cordeiro de Resende, coordenador do Mestrado Profissional em Economia e Gestão do Esporte do IDP, e Raphael Carvalho, advogado e professor do IDP.
Funcionário do instituto de Gilmar, Cordeiro de Resende também é figura chave no outro GT, o do fair play financeiro. Ele foi escolhido pela CBF como um dos sete diretores da nova Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol. Anunciada em novembro, a agência tem o papel de fiscalizar o cumprimento das regras do novo regulamento financeiro e aplicar punições.
Este GT foi presidido por Ricardo Gluck Paul, que comanda a Federação Paraense de Futebol desde 2022 e foi reeleito em 2025, por aclamação, para permanecer à frente da entidade até 2030. A família Gluck Paul é ligada aos Barbalho há quarenta anos.

O pai de Ricardo, Ambire Gluck, presidiu uma extinta estatal no governo de Jader Barbalho, que teve também Sônia Gluck Paul, mãe do cartola Ricardo, como defensora-geral do Estado. Ex-presidente do Paysandu, Ricardo cresceu no futebol paraense com o apoio do governador Helder Barbalho (MDB).
O estreitamento da relação do governo local com a entidade de futebol resultou na presença da seleção brasileira em Belém nas Eliminatórias – 5 a 1 sobre a Bolívia, em 2023 – e em treinamentos em 2024. Além disso, Ana Carolina Gluck Paul, irmã de Gluck Paul, é a primeira mulher a ocupar o posto de procuradora-geral do Estado, no governo Hélder.

Os Barbalho ainda têm outro aliado forte dentro da CBF. O diretor-executivo é, desde novembro de 2024, Helder Melillo. Levado por Ednaldo Rodrigues, segue firme na função com Xaud. Ele foi o relator do GT do fair play financeiro, cujo modelo foi apresentado pela CBF no fim de novembro, em São Paulo.
Quando completou um ano em seu cargo na CBF, em novembro, Melillo afirmou ter a convicção de que é possível “construir um novo momento para o futebol brasileiro”.
Melillo é jornalista, mas nunca trabalhou na área. Servidor público de carreira, o brasiliense de 34 anos teve cargo em dois governos antagônicos: foi o número 2 do Ministério de Desenvolvimento Regional sob Jair Bolsonaro e até 2024 era secretário-executivo no Ministério das Cidades no governo Lula.
Também foi presidente do Conselho de Administração da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba, a Codevasf, conhecida como “estatal do Centrão”.
Xaud ascendeu mantendo parte do grupo anterior e sua gestão foi vista inicialmente como uma continuidade de Ednaldo Rodrigues, embora tenha prometido construir “uma nova CBF” quando foi eleito em maio com o apoio de 25 federações. Uma parte da alta cúpula que esteve com Ednaldo foi mantida na confederação, como os vices Ednailson Rozenha, Gustavo Dias Henrique, Rubens Angelotti e Fernando Sarney (filho do ex-presidente José Sarney, investigado pela Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, e autor do recurso que pôs o Estadão sob censura por nove anos). Aos poucos, Xaud busca se dissociar do antecessor.

Um dos vices mais próximos de Samir Xaud é Gustavo Dias Henrique. Natural de Brasília, ele foi da diretoria Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap) e, depois, indicado à presidência da Biotic S/A, subsidiária da Terracap, na gestão do governador Ibaneis Rocha (MDB).
Nunca tinha sido cartola de futebol até chegar à CBF, da qual se tornou uma das figuras mais influentes na gestão de Xaud. Com formação em Ciência Política e Relações Internacionais, faz articulação política para a entidade e costuma ser consultado pelo presidente.
Na segunda-feira, 27, Henrique acompanhou Xaud, o técnico da Seleção Brasileira, Carlo Ancelotti, e o presidente da Fifa, Gianni Infantino, em visita ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Palácio do Planalto, em Brasília.
Sua relação com o futebol, ele contou ao portal Metrópoles, começou quando jogou como lateral-esquerdo nas categorias de base do Brasília. Contudo, não seguiu a carreira como atleta. É mais hábil fora de campo, nos bastidores do poder na capital federal.
Antes de ser vice, Dias foi diretor de relações governamentais da confederação. Foi ele o responsável por uma casa de lobby e de eventos no Lago Sul, bairro nobre repleto de mansões, que a CBF abriu em 2024, ainda sob Ednaldo.
A atual gestão da CBF tem ainda outros quadros com fortes ligações políticas. Ex-prefeito de Boca da Mata (AL), Gustavo Feijó é aliado do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) e ocupa o cargo de diretor de Seleções da CBF. O filho dele, Felipe Feijó, virou o responsável pelo departamento de e-Sports da CBF.
CBF diz que dirigentes são técnicos e responsáveis por avanços no futebol
Em nota, a CBF afirmou que a gestão de Samir Xaud tem pautado sua atuação pelo enfrentamento dos problemas estruturais do futebol brasileiro e que nos primeiros oito meses “promoveu mudanças profundas nos calendários masculino e feminino, lançou as regras do fair play financeiro e, nesta semana, anunciou a profissionalização da arbitragem brasileira, medidas aguardadas pelo futebol nacional há décadas”.
“Esses avanços só foram possíveis porque a CBF conta hoje com executivos e dirigentes capacitados, com experiência no futebol e em diversos setores do mercado”, destacou.
A entidade avalia que a atuação de Netto Góes e Ricardo Gluck Paul “reflete o compromisso da atual gestão com governança, qualificação e modernização”.
A CBF destacou que as iniciativas contam com o “suporte técnico” da CBF Academy que serve como “centro de produção e disseminação de conhecimento no futebol brasileiro, contribuindo diretamente para a profissionalização e o desenvolvimento do esporte”.
“Todas as reformas estruturantes foram desenvolvidas a partir de grupos de trabalho que contaram com ampla participação dos vários segmentos da indústria. A atual gestão da CBF reafirma seu compromisso de enfrentar as questões estruturais do futebol brasileiro, de forma transparente, democrática e técnica”, frisou.
