Antecipação de candidatura de Flávio aumenta barreira à terceira via
A principal novidade da semana foi a troca de partido do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que se filiou ao PSD para disputar, internamente, a vaga de candidato à Presidência com Ratinho Júnior e Eduardo Leite. O movimento sinaliza uma tentativa de reduzir a dispersão da chamada terceira via, concentrando esforços em menos nomes.
Apesar disso, o gesto dificilmente altera o quadro geral. O cenário segue apontando para uma eleição polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro, com espaço limitado para candidaturas fora desses polos. A principal dificuldade da centro-direita hoje não é a fragmentação em si, mas a consolidação precoce de Flávio como o candidato preferencial da oposição bolsonarista.

Vale lembrar que a surpresa do fim do ano passado não foi a preferência de Jair Bolsonaro pelo filho, em detrimento de alternativas como Tarcísio de Freitas ou Michelle Bolsonaro. O inesperado foi o momento. A expectativa predominante era que Bolsonaro repetisse a estratégia de Lula em 2018, retardando a definição e transferindo votos apenas no auge da campanha. Ao antecipar a escolha, ele assumiu riscos de exposição e ataques, mas ganhou tempo para construir a imagem de Flávio como candidato.
Essa decisão antecipou a migração do eleitorado mais fiel ao bolsonarismo. Trata-se de um contingente relevante, que se moveu cedo e reduziu o oxigênio disponível para outros nomes que aspiravam se firmar como alternativas de oposição a Lula. Além de Ratinho Júnior, Caiado e Eduardo Leite, entram nesse grupo Romeu Zema, pelo Partido Novo, e Renan Santos, do Partido Missão. Todos partem agora de uma posição mais frágil para se consolidar.
Com a definição precoce, diminuiu a ambiguidade para o eleitor: já não há dúvida sobre quem representa Bolsonaro. Restou às candidaturas alternativas defender a ideia de terceira via e apostar no voto útil – o argumento de maior viabilidade contra Lula no segundo turno. Essas estratégias podem gerar alguma visibilidade, mas não superam o obstáculo central: a inércia criada pela polarização já estabelecida. Lula tende a reter o eleitorado que aprova o governo; Flávio, por sua vez, deve agregar a direita alinhada ao bolsonarismo, um grupo que parte de cerca de 20% do eleitorado e pode se aproximar de 30% ao longo da campanha. Aos demais, sobra um eleitor mais desengajado, que decide tarde.
Nesse contexto, o papel mais claro dessas candidaturas pode ser outro: posicionar partidos como o PSD e o Novo como forças relativamente independentes, fortalecendo palanques estaduais e disputas ao Congresso sem alinhamento automático aos polos.
