Par ou ímpar: Atividade de Inteligência de Estado e jornalismo no jogo democrático
A Atividade de Inteligência tem a ver com tomada de decisão. Democracia também tem a ver com tomada de decisão. Não há contraste entre essas ideias e a relação entre as duas não é sequer uma intersecção que pressupõe que haja elementos comuns aos conjuntos; na verdade, a Atividade de Inteligência é elemento do conjunto democrático, pois há de estar inteiramente dentro dele e, mais do que isso, a seu serviço.
A Atividade de Inteligência de Estado, no Brasil, busca promover a decisão livre e informada do agente político, escolhido em eleições justas e periódicas, representante legítimo do povo. Para tanto, o ramo inteligência propicia a compreensão dos objetos de decisão e o ramo contrainteligência resguarda a liberdade para que ela ou ele decida sem constrangimentos que não sejam unicamente os legais.
Por motivos similares, o jornalismo tem a ver com tomada de decisão e democracia; ao informar o cidadão, permite que esteja esclarecido para decidir inclusive sobre quem o representa e sobre que modelo de governo e de instituições almeja, tornando o voto algo mais que um domingo de outubro brasileiro.
Pares: tanto o jornalismo quanto a Atividade de Inteligência lidam com segredos, com o sigilo de suas fontes e, por vezes, de seus métodos. Buscam informação em primeira mão, exclusiva e desconhecida por seu destinatário (cidadãos para os jornalistas, autoridades para profissionais de Inteligência). Ambos trabalham com fatos, com busca de verdade objetiva, com afastamento de arbitrariedades e vieses para prover informação precisa, oportuna, abrangente e útil ao bem público. Ambos progridem em ambientes de liberdade e adulteram-se nos autoritários. Os dois precisam de profissionais com alta capacidade de análise, pensamento crítico, habilidades comunicacionais superiores. Jornalismo e Atividade de Inteligência têm na emergência de novas tecnologias digitais, na circulação de informações e na desinformação desafios do século XXI. No entanto, ímpares: há diferenças essenciais sobre usuários, processos, patrocinadores, profissionais, vocabulário, embora tais diferenças não os coloquem, de modo algum, em campos opostos.
São distintos os destinatários dos produtos do jornalismo e da Atividade de Inteligência: o jornalismo é de ampla circulação e se dirige ao povo; o produto de inteligência de Estado é restrito, por regra sigiloso, e entregue com exclusividade a agentes políticos.
São também distintos os processos: para o jornalismo, há ênfase na comunicação e na narrativa corrente e parte, muitas vezes, de casos e histórias pontuais; para a Atividade de Inteligência, há adesão à metodologia da produção do conhecimento para identificação de padrões, compreensão, descrição e interpretação de fatos, situações e fenômenos de caráter estratégico, muitas vezes questionando o senso comum. O jornalismo pode ser vinculado a casas editoriais, já a Atividade de Inteligência de Estado é serviço público e apenas o interesse público deve pautá-la. O jornalismo pode ser opinativo, um redator pode incluir comentários e até mesmo subjetivismo lírico, mas a inteligência, ainda que possa ser descritiva, diagnóstica, preditiva ou prescritiva, não poderá ser subjetiva. Jornalismo e a Atividade de Inteligência compartilham palavras, atribuindo-lhes, contudo, significados próprios — a entrevista do jornalista não é exatamente a técnica de entrevista do profissional de inteligência.
Apesar de — ou, talvez, por isto mesmo — semelhanças e diferenças entre as duas atividades, ambas são peças fundamentais ao “jogo democrático”. A democracia é submetida a regras e os oponentes disputam de forma previamente combinada (mesmo que sujeita a revisões), o que torna a competição legítima e segura. A liberdade de expressão e de informação necessária ao jornalismo assiste os participantes desse jogo para que conheçam as regras, verifiquem e controlem sua aplicação e tomem parte nas suas formulação e revisão.
Já a existência de Atividade de Inteligência profissional, perene e especializada contribui para o próprio andamento do jogo, para a segurança dos jogadores, para o funcionamento das instituições e a preservação das regras que o regem — e a Atividade de Inteligência faz isso na medida em que tem interesse no placar positivo: afinal, ainda que a democracia seja um jogo infinito, o Brasil estabelece metas para tornar o jogo limpo; construir uma sociedade livre, justa e solidária, garantir o desenvolvimento nacional, erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades e promover o bem de todos.
Assim, seja na tomada de decisão política, seja na construção do debate público, o “fair play” da democracia precisa dessa dupla de ímpares, e uma ameaça a essas atividades, suas instituições regulares e seus profissionais é uma ameaça ao próprio jogo democrático.
