1 de fevereiro de 2026
Politica

Troca de Tarcísio na Casa Civil reforça articulação com prefeitos e reaproxima PP

O Progressistas de São Paulo selou nesta terça-feira, 27, uma reaproximação com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) após a troca no comando da Casa Civil. Deixou o cargo Arthur Lima, ex-militar e aliado de longa data do chefe do Executivo, e assumiu o presidente estadual do Republicanos, Roberto Carneiro. A opção por um perfil político para a pasta ocorre após desgastes na relação do governo com prefeitos da base aliada.

Em 28 de dezembro, o PP chegou a avaliar o desembarque do projeto de reeleição do governador e a possibilidade de lançar candidatura própria ao Palácio dos Bandeirantes este ano. Entre os nomes ventilados para um eventual voo solo estavam o do empresário Filipe Sabará, ex-secretário estadual na gestão João Doria e aliado do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Outra possibilidade seria lançar o deputado federal Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente no governo Bolsonaro e pré-candidato ao Senado pelo Partido Novo.

Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, fez mudança na Casa Civil de sua gestão
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, fez mudança na Casa Civil de sua gestão

Com a mudança no comando da secretaria, o presidente estadual do Progressistas, Maurício Neves, interpretou a decisão como um “aceno inteligente” do governo, ao ressaltar o perfil político de Carneiro, descrito como um parceiro próximo do partido, com forte atuação na articulação e, inclusive, um dos nomes indicados pela legenda para a pasta. Atualmente, a legenda conta com 54 líderes municipais. “Isso não é só uma reclamação de prefeitos do PP. É uma reclamação de prefeitos do Estado inteiro, de todas as siglas. E eu acho que temos que arrumar uma forma de equacionar esse problema. Eu estou muito confiante, esperançoso”, disse Neves ao Estadão/Broadcast.

O dirigente estadual afirmou que tem agenda marcada com o secretário da Casa Civil na próxima quinta-feira, 29, às 17h, para tratar de uma “repaginação” de governo. Segundo ele, a avaliação dentro do PP (percepção compartilhada entre integrantes de outros partidos da base) é de que a gestão Tarcísio apresenta uma “deficiência” justamente na articulação política e no diálogo mais próximo com os aliados municipais.

O próprio Tarcísio admitiu o imbróglio durante coletiva com jornalistas após a entrega habitacional no município de Embu das Artes (SP), na última sexta-feira, 23. O governador afirmou que o ex-titular da pasta, Arthur Lima, cumpriu um papel técnico relevante na reorganização administrativa do governo, mas que o momento, segundo ele, passou a exigir um perfil mais político para a função. Ele deve assumir a pasta de Justiça e Cidadania, agora.

“O Arthur é um cara técnico, fez um trabalho de estruturação técnica da Casa Civil, de reorganização administrativa, de informação. Conduziu isso muito bem”, continuou. “Agora eu preciso de um perfil um pouco mais político para organizar a jornada que vem.”

Segundo ele, Carneiro que passará a atuar oficialmente como articulador político dentro do Palácio dos Bandeirantes. “Ele vai ser uma pessoa de confiança dentro do Palácio pra tratar com partidos, prefeitos, pra me ajudar nessa jornada. Eu precisava desse suporte”, disse.

Apesar disso, um aliado próximo do chefe do Executivo paulista avalia que as críticas representam uma “injustiça” com Tarcísio. Segundo ele, prefeitos teriam ficado “mal acostumados” com a gestão anterior de Rodrigo Garcia, que ampliou repasses no último ano de mandato na tentativa de se reeleger em 2022. Esse padrão, afirmou, não foi mantido pelo “perfil técnico” de Lima, que esteve na Casa Civil desde o início da gestão, chegou a se filiar ao PP, mas deixou a sigla em 2024.

Neves também criticou o orçamento destinado à segurança pública. Ao comentar a passagem do deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP) pela pasta, o dirigente afirmou que, apesar do “baita trabalho” realizado, o PP discordou da decisão de reservar, neste ano, apenas um quarto do volume de investimentos aplicado no último ano do governo João Doria. Segundo ele, a legenda defendia uma candidatura própria com maior ênfase na segurança. Derrite, no entanto, segue como pré-candidato ao Senado com o apoio de Tarcísio.

Nesse sentido, a insatisfação de lideranças municipais é descrita como generalizada. Não são raros os eventos no Bandeirantes em que o governador reúne prefeitos e busca promover um contato mais individualizado, em movimento interpretado como um esforço de aproximação. Além de Arthur Lima, outro alvo de críticas é o secretário de Governo e Relações Institucionais, Gilberto Kassab (PSD), responsável pela interlocução com a Assembleia Legislativa (Alesp) e pela liberação de emendas junto às pastas técnicas. Nesse contexto, como mostrou o Estadão, a chegada de Carneiro à Casa Civil tende a enfraquecer Kassab. A assessoria do secretário já negou problemas nesse sentido.

Uma das principais críticas de parlamentares, inclusive bolsonaristas, é que o governo estadual tem conseguido quitar apenas as emendas impositivas, as voluntárias destinadas à saúde e as transferências via “emenda Pix”. Outras modalidades, que exigem elaboração de projetos ou maior articulação das secretarias, acabam travadas.

Na prática, isso obriga deputados a concentrarem recursos no custeio da saúde nos municípios. O problema, segundo eles, é o baixo retorno político desse tipo de destinação: enquanto um repasse de R$ 1 milhão para custeio tende a passar despercebido pela população, verbas aplicadas em reformas, aquisição de equipamentos ou obras específicas geram impacto muito mais visível.

Cada deputado tem direito a R$ 10 milhões por ano em emendas. Ao todo, são 52 parlamentares governistas na Alesp, e as reclamações se estendem a diferentes partidos, embora haja casos de deputados que tiveram, proporcionalmente, mais emendas pagas do que outros. O volume total em atraso não foi informado. Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que há emendas pendentes desde 2023. Além disso, como mostrou o Estadão nesta quarta-feira, há reclamações na base após o governo turbinar emendas não obrigatórios ao PT, que passou a granhar mais do que partidos aliados.

Apesar do desgaste, a hipótese de rompimento com Tarcísio ou com um candidato por ele apoiado é, hoje, descartada. “Por mais que o governador, muitas vezes, pise na bola, ele é muito mais próximo e mais posicionado na nossa formatação ideológica do que a maioria dos outros candidatos”, afirmou um deputado estadual do PL.

 

 

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