1 de fevereiro de 2026
Politica

Um tipo errado de paixão

Entre razão e paixão, dúvida alguma persiste. A humanidade se move pela paixão. A racionalidade se extinguiu em todos os quadrantes. É por isso que se convive tranquilamente com o final dos tempos.

Apocalipse? Não. Mera constatação de que se não leva a sério o perigo da extinção de qualquer espécie de vida neste frágil planeta, em virtude dos maus hábitos de seus inquilinos. Maus hábitos? Melhor seria dizer péssimos hábitos. Verdadeiro crime, que até já tem nome: ecocídio.

Os humanos são tão cegos e egoístas que se condoem com micro-dramas e não prestam atenção a ocorrências macro, tais como a extinção das florestas na Europa, o esgotamento do carvão na Inglaterra, a extinção dos bisões nos Estados Unidos. Tragédias passadas não levam a sociedade mundial a contemplar com preocupação o derretimento das geleiras, a seca no Pantanal, a eliminação do remanescente de cobertura vegetal na última floresta tropical da Terra.

A ciência não se furtou a advertir de que o ponto de inflexão estava mais próximo. Talvez com discreta contenção, pois o cientista não ousa afirmar que as coisas realmente acontecerão como previsto. Mas a gravidade do quadro justificaria uma urgência prática, insatisfatória e insuficiente a urgência teórica. A catástrofe climática mora na mente dos intelectuais, dos mais sensíveis, lamentavelmente, a minoria da minoria.

Para os que detêm o controle das decisões públicas, interessa mais é pensar nas próximas eleições ou na matriz de todos os males da política partidária, que é o instituto da reeleição. Mal se inicia o primeiro dia do primeiro mandato e já se começa a pensar no período seguinte. Tudo se faz na perspectiva da manutenção do poder.

É incrível constatar que os mais abonados pensem na herança material, na alternativa de criar esquemas de proteção patrimonial, criem-se planos sucessórios que defendam a fortuna. Porém, não há espaço para a herança climática. Haverá mundo vivível a legar aos seus herdeiros?

A busca de soluções para os cataclismos climáticos tem de passar pela conscientização de toda a sociedade humana. Hoje absorta em cuidar de seu próprio quintal, emocionada com alguma tragédia individual, bem explorada pelos mass media, mas incapaz de antecipar os efeitos de uma catástrofe global, a cada momento mais próxima e mais previsível.

Se a razão tivesse vez na consciência humana, pensar-se-ia numa conversão universal. Explorar-se-ia a inevitável realidade de que temos prazo de validade e que a finitude é parte inseparável de nossa frágil e efêmera existência.

Para quem vive algumas décadas, não mais, qual o sentido de acumular bens materiais? A vida se resume a obter dinheiro, fama, poder, influência sobre os demais?

O ritmo contemporâneo da aventura humana sobre a Terra é aquele ditado pelas paixões. A paixão pelo dinheiro, em primeiro lugar. Para os excluídos, ele é a alternativa à extinção. Não se consegue viver sem alimentação, sem saúde, sem moradia, sem trabalho, sem algum estímulo a que se permaneça na miséria, sem que se vislumbre um horizonte mais digno.

Para os que já têm, quanto mais melhor. A ambição é desmedida. Em nome do dinheiro sacrifica-se o acervo de valores que um dia inspirou os filósofos, ingênuos crentes de que a vocação humana seria a perfectibilidade. A história de cada indivíduo seria a busca do melhor. Obrigação de cada ser racional tornar-se, todos os dias, um pouco melhor do que se foi ontem.

Em segundo plano, as paixões pelos guias indicadores do caminho a seguir. Os influencers que conquistam milhões de seguidores, pregando o ódio, não o amor. As eleições têm sido a rejeição daquilo que se odeia, do que se considera abjeto, ignóbil, indesejável. Não se escolhe por acreditar nos propósitos, nas intenções, na serena apreciação de um passado e na confiança que o caráter do candidato inspire ao eleitor.

O voto é a manifestação de rejeição àquilo que odiamos. Os partidos não atraem eleitores. Basta verificar qual o resultado que as siglas obtêm nos seguidos pleitos. A cada dois anos, todos os eleitores são chamados a manifestar sua opinião. E o que prevalece é a ojeriza, a rejeição, o ódio.

No Brasil, o voto é obrigatório. Ainda assim, qual o percentual da abstenção, do voto em branco, do voto nulo?

Os candidatos sérios e bem-intencionados – eles existem! – devem se preocupar com o tipo errado de paixão que faz ignorar o que é relevante e prevalecer o que é acidental, superficial e inútil. Pensemos nisso neste 2026 de renovação de tantos cargos que podem mudar, para melhor, os destinos do Brasil.

 

 

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