Além de impactos para Lula e Flávio, ida de Caiado ao PSD afeta corrida ao Senado e até a de 2030
Os impactos da filiação de Ronaldo Caiado ao PSD são maiores do que o potencial eleitoral que o governador de Goiás tem demonstrado até agora na disputa pela Presidência da República. Mais do que fortalecer o projeto de centro ou centro-direita representado pelo PSD ao Planalto, o movimento traz reflexos na corrida ao Senado – e em consequência no controle da Casa de 2027 em diante – e até na disputa eleitoral de 2030. Eis o verdadeiro plano de Gilberto Kassab para sua sigla, que sempre foi de longo prazo.
Na corrida presidencial, é inegável que o fortalecimento de uma candidatura alternativa contribui para o isolamento de Flávio Bolsonaro. Além de poder atrair o apoio de outras siglas de centro ao projeto que hoje ainda tende a ser liderado por Ratinho Júnior – o Estadão mostrou por exemplo que o MDB já se insinua ao PSD – deixa pouca margem para que Flávio avance sobre outras siglas no campo da direita. Basicamente, restam a federação União Brasil e PP, que é cercada de disputas internas e o Republicanos -se Tarcísio não for obrigado a deixar a legenda e ir para o PL. A tendência é que partidos menores se abriguem no guarda-chuva do PSD.
Do lado de Lula, torna-se mais difícil agregar já no primeiro turno um eleitorado mais moderado que, embora não seja de esquerda, torce o nariz para o radicalismo da família Bolsonaro. Havendo uma alternativa de centro-direita razoavelmente viável, a decisão poderá ser adiada para o segundo turno. E com esses candidatos depois se alinhando a Flávio pode haver alguma perda para o petista.

Mas engana-se quem pensa que Kassab joga apenas pensando na disputa presidencial de 2026. Ainda que Ratinho ganhe vitalidade com Caiado – que agrega capilaridade no Centro-Oeste e melhora ainda mais a interlocução com o agro – as pesquisas deixam pouca dúvida de que o caminho para um eventual segundo turno é bastante tortuoso. Lula, com a máquina na mão e caminhando sozinho na esquerda, tem vaga quase cativa. E é difícil imaginar que a mobilização no centro seja suficiente para furar o piso do bolsonarismo que irá com Flávio.
O movimento que levou Caiado ao PSD tem implicações em outras disputas. Uma delas é a do Senado. Ao reunir a trinca Eduardo Leite, Ratinho e Caiado no partido, na prática, Kassab praticamente garante duas vagas à Casa Legislativa, com candidatos quase imbatíveis em seus Estados. Se desistir de lançar um nome à Presidência, leva três. E isso é relevante para tentar fazer frente ao avanço do PL, que coloca muitas de suas fichas na corrida ao Senado. Hoje o PL tem 15 senadores e o PSD tem 14. Com dois terços da Casa em disputa, qualquer eleito a mais será decisivo para garantir a maior bancada. Isso ajudaria a retomar o comando do Senado a partir de 2027.
Mas Kassab tem como norte também a eleição de 2030, quando Lula – reeleito ou não – estará fora da disputa e, espera-se, o bolsonarismo esteja ainda mais enfraquecido. É uma disputa mais aberta e o PSD trabalha para dar visibilidade máxima a seus nomes agora e ter uma carteira mais completa para oferecer ao eleitor. Se a vitória em 2026 for de Flávio, há nomes como o de Eduardo Paes (que concorre com amplo favoritismo ao governo do Rio) e o de Eduardo Leite para fazer oposição e disputarem quatro anos depois. Se for de Lula, um pitbull como Caiado e um nome mais moderado mas com agenda econômica bem distinta da do petista para fazer esse mesmo papel. O desafio vai ser manter todos eles no mesmo barco até lá, mas Kassab sabe jogar.
