Flamengo x Corinthians: as cifras e a política por trás da ‘tradição’ da Supercopa em Brasília
BRASÍLIA E SÃO PAULO – A decisão da Supercopa Rei, entre Flamengo e Corinthians, no próximo domingo, 1º., será a quarta das sete edições da competição realizada no Estádio Mané Garrincha, em Brasília – as outras três foram na Arena Pantanal (Cuiabá), no Mineirão (Belo Horizonte) e no Mangueirão (Belém).
A predominância do Mané Garrincha como palco da competição se dá por uma mistura de fatores logísticos, políticos e empresariais que atendem a uma série de interesses de lideranças locais e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Em nota, a CBF disse que a opção por Brasília “atende a critérios técnicos e operacionais para garantir a melhor realização do evento” e que a decisão “foi tomada em pleno alinhamento com clubes e federações envolvidas” (leia mais abaixo).
A edição deste ano chegou a ser direcionada para o Maracanã, no Rio de Janeiro. Com a garantia de divisão igualitária das arquibancadas, o Corinthians inicialmente topou jogar na “casa” do rival. Mas o acerto não evoluiu e as Arenas da Amazônia, em Manaus (AM), e o Castelão, em Fortaleza (CE), se tornaram opções.
A CBF enviou técnicos a esses estádios, ainda no fim do ano passado, e eles fizeram ressalvas às atuais condições dos gramados. Só aí que o Mané Garrincha surgiu como opção, segundo relatos de autoridades locais, dirigentes esportivos e integrantes da CBF ouvidos pela reportagem nas últimas semanas.
Há um consenso entre dirigentes da alta cúpula da CBF de que a arena de Brasília, entre todas as construídas para a Copa do Mundo de 2014, “foi a que melhor envelheceu”. Ademais, o estádio atende uma demanda informal dos clubes de encurtar o deslocamento nesta fase de início de temporada.
Com tudo isso, fazer o jogo entre dois times de maiores torcidas do País, em uma arena com gramado considerado em ótimas condições, e com maior capacidade – 72 mil pessoas -, foi considerado pela gestão de Samir Xaud um “tiro certeiro”.
O Mané não era o “plano A” para a Supercopa porque a CBF nutre outras ideias para ele, como torná-lo a casa da seleção brasileira, transferir ao estádio partidas-chave da temporada regular e até transformá-lo, no futuro, em palco fixo da Supercopa.
Além das facilidades logísticas e da vantagem de estar em uma região “neutra” para os times mais habituais da competição, a pressão política das autoridades locais contribui a favor da atração do espetáculo.

Dos sete jogos de Supercopa desde a retomada da competição em 2020, o Flamengo esteve em seis. Governador do Distrito Federal desde 2019, Ibaneis Rocha (MDB) é flamenguista e, ao lado de dois de seus filhos, tem duas lojas de revenda de produtos do clube em shoppings da cidade por meio de uma empresa com capital social de R$ 1 milhão. Uma das lojas fica a menos de 1 quilômetro do Mané Garrincha e tem aumento de demanda às vésperas de jogos.
O Estadão apurou com integrantes do governo e da CBF que Ibaneis pressionou a concessionária do estádio para que houvesse uma substituição do gramado em 2024, investimento que o viabilizou para qualquer competição nacional e internacional, como jogos da seleção brasileira. Procurada, a concessionária não se manifestou.
Além disso, o Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do Distrito Federal, se tornou patrocinador do Flamengo em 2020. O acordo, válido inicialmente por três anos, previa R$ 32 milhões anuais. A parceria sofreu duas renovações e é válida até abril deste ano. Uma nova renovação está em debate, apesar da crise do banco, que demanda aportes para manter o funcionamento depois de se envolver em suspeitas de fraudes bilionárias com o Banco Master.
O crescimento dos patrocínios fez parte de uma política agressiva do BRB nos últimos anos. Em 2020, o banco orçou R$ 27,3 milhões em patrocínios, de todas as naturezas. Em 2025, o valor chegou a R$ 125,7 milhões.
Em 2021, o BRB ainda anunciou a compra, por R$ 7,5 milhões, dos “naming rights” do estádio para que ele passasse a ser chamado de Arena BRB Mané Garrincha até 2024.
A reportagem perguntou ao banco os termos da renovação do direito ao rebatismo do estádio, mas a instituição não respondeu. O BRB também não deu explicações sobre o crescimento de mais de quatro vezes dos gastos com patrocínios no período.
A alavancagem dessa despesa se deu sob a presidência do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afastado por ordem da Justiça por suspeitas de fraudes na tentativa de compra do Banco Master. A aquisição foi barrada pelo Banco Central e a Polícia Federal aponta que o Master pode ter vendido ao BRB R$ 12 bilhões em carteiras de crédito falsas.
A administração do estádio e do complexo no qual ele está inserido, na área central de Brasília, foi concedida à iniciativa privada em 2019. O governo de Ibaneis Rocha é criticado por opositores na Câmara Legislativa por vista grossa sobre a falta de contrapartidas da empresa previstas no contrato de privatização. Há processo aberto no Tribunal de Contas do DF.
Uma comissão criada pelo próprio governo distrital, em setembro de 2024, apontou considerável atraso na execução de obras e nas metas estipuladas para a concessionária, além de construções de estruturas não autorizadas pelo projeto urbanístico.
A reportagem perguntou ao governo as providências tomadas diante dos problemas apontados e não obteve respostas. Em nota, a Casa Civil disse somente que “o grupo de trabalho analisou a execução do contrato de concessão” e que “todos os detalhes estão disponíveis no relatório já disponibilizado”.
O dono do concessionária que administra, Richard Dubois, também não quis comentar.
Dubois teve como CEO da arena, entre junho e setembro de 2025, Bernardo Bessa, que deixou o posto para virar diretor de marketing de Seleções, na CBF. Ele é filho do advogado Marcelo Bessa, que tem entre os seus clientes de longa data o ex-senador e empresário Luiz Estevão, outro personagem central do ecossistema dos grandes jogos de futebol em Brasília.
A indicação de Bernardo para o cargo é atribuída, por políticos de Brasília, a Gustavo Dias Henrique, vice-presidente da entidade máxima do futebol que é da capital federal. Henrique não quis dar entrevista e a reportagem não conseguiu contato com Bernardo.
Dono do grupo Metrópoles, Luiz Estevão comprou da CBF, por meio dessa empresa, a operação das últimas quatro edições da Supercopa, desde 2023 – inclusive, as realizadas fora da capital federal, em Belo Horizonte e Belém.
“Eu não opino sobre o local da partida. É uma negociação sempre muito difícil. A CBF recebe muitas propostas. Acho que eles levam em consideração duas premissas. A primeira é o valor que ofereço. A segunda é a capacidade organizacional”, disse o ex-senador.
Luiz Estevão é uma figura controversa da política nacional. Em 2000, ele teve o mandato de senador cassado pelos pares. Na época, respondia por participação em esquema de desvios em obra iniciada em 1992 do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP), presidido pelo juiz Nicolau dos Santos Neto.
Foram dezenas de recursos e uma CPI no Congresso até que ele fosse condenado e preso. Estevão cumpriu pena em regime fechado entre 2016 e 2020, na Penitenciária da Papuda. Hoje, segue como um dos maiores e mais influentes empresários de Brasília, nos segmentos de imóveis, eventos e comunicação.
Os custos dele são em parte cobertos com dinheiro do BRB. Dos valores gastos com patrocínio pelo banco, o Metrópoles recebeu R$ 15,3 milhões entre 2022 e o primeiro semestre de 2025, para eventos artísticos e esportivos. Só para a Supercopa de 2025, realizada em Belém, o BRB pagou R$ 1 milhão ao Metrópoles.
Segundo membros da CBF, a opção pela empresa de Luiz Estevão é meramente financeira. A justificativa é a de que são poucas as empresas dispostas a assumir todo o custo da organização. A entidade acolheria tranquilamente outra proposta, caso os valores oferecidos fossem maiores. Outros empresários de grandes eventos esportivos, porém, se queixam da falta de abertura da CBF para conversas com outros interessados.
Em 2023, o Metrópoles anunciou ter feito uma proposta de R$ 6 milhões para organizar aquela edição da Supercopa. Estevão disse que os valores atuais são protegidos por sigilo e não revelou as cifras negociadas.
A reportagem consultou fontes ligadas à realização da partida entre Flamengo e Corinthians deste domingo e apurou que o Metrópoles pagou cerca de R$ 9 milhões à CBF. O contrato prevê que a empresa de Luiz Estevão assume todos os custos do evento, como com segurança, ambulâncias, brigadistas, limpeza e aluguel do estádio.
Em contrapartida, fica com a receita da bilheteria e do serviço de bar do dia da partida. Apesar das altas cifras envolvidas, a margem de lucro do jogo, isoladamente, é considerada baixa por operadores do mercado. Os contratos com a CBF e com a concessionária demandam lotes de milhares de ingressos para que eles comercializem camarotes e convidem parceiros.
Dos 72 mil lugares disponíveis, entre 45 e 50 mil são vendidos ao público geral pelo Metrópoles. Considerando as meias entradas e gratuidades legais, a renda esperada gira em torno de R$ 13 milhões.
Segundo pessoas próximas, o ganho expressivo de Luiz Estevão é com o prestígio empresarial e político que consegue ao realizar o evento e com os patrocínios que o jogo atrai para o portal de notícias e entretenimento que comanda.
As publicações relativas à Supercopa no Metrópoles têm anúncios de BRB, Sesc, Ultrabox e Brahma.
Em nota, a CBF afirmou que o Mané Garrincha é uma arena “moderna e preparada para grandes competições” e que “Brasília reúne todas as condições necessárias para receber com excelência uma partida que envolve duas das maiores torcidas do Brasil, assegurando conforto, segurança e equilíbrio competitivo”.
A entidade organizadora do futebol ressaltou que a capital federal “se destaca pela localização, praticamente equidistante de Rio de Janeiro e de São Paulo”, é servida por malhas áreas e rodoviárias que facilitam o deslocamento de torcedores de todas as regiões do país e conta “com uma rede hoteleira robusta, capaz de absorver a demanda gerada por um jogo dessa relevância”.
