1 de fevereiro de 2026
Politica

Compadrio brasileiro é movido a contratações de parentes de ministros, jatinhos, charutos e resorts

Há um vezo patrimonialista nisso tudo. O banqueiro que contrata o ex-ministro da Fazenda e com isso emplaca um encontro fora da agenda com o presidente. Depois contrata o escritório da esposa de um ministro. E logo adiante o escritório de um segundo ministro, para “serviços jurídicos estratégicos”.

Isso é a grande festa do compadrio brasileiro, movida a jatinhos, charutos, resorts e eventos de luxo. Alguma ilegalidade nisso tudo? De um interlocutor escutei que “não”. E seu raciocínio era cristalino: são os ministros que dizem o que é legal ou ilegal. Valia para a instância devida e para a censura prévia, lembram? Porque não valeria agora para uso de jatinhos e conflito de interesses?

Observando estas coisas me lembrei de quantas vezes escutamos, nestes anos todos, que a justiça era “cega, mas não tola”. Isso valeu para quase tudo. A moça do batom rabiscando naquela estátua; o dossiê do PL sobre as urnas; aquela turma de empresários no WhatsApp. Apenas um papo-furado? Ora, ora, a Justiça é cega, mas não é tola… Agora tudo se inverteu? A esposa do ministro surge com um contrato de R$ 129 milhões e o marido vai julgar o caso. Os irmãos do relator têm negócios com o investigado.

Relações do dono do Master com autoridades estão no centro do debate público
Relações do dono do Master com autoridades estão no centro do debate público

Algum problema? Nenhum. Se aceitamos lá atrás a regra de que é a autoridade que subordina a lei, e não o contrário, porque deveríamos reclamar, justo agora?

Haveria uma saída, para tudo isso? A resposta veio de ministro Fachin. “Quem tenta desmoralizar o STF”, diz ele, “está atacando o próprio coração da democracia…”. Já escutamos isso em algum lugar. A lógica é: se você critica o STF, “corrói sua autoridade”. E com isso “ataca a democracia”. Perfeito. Se alguém quiser ajudar a democracia, jamais critique o STF. É algo ridículo, mas durante anos foi a pedra de toque de nossa elite e “mídia profissional”.

O sinal de Fachin é claro: não haverá correção interna de rumos. O Tribunal aprendeu, há bom tempo, que o melhor é jogar parado. Não foi assim com o caso Tagliaferro? Ao invés de uma investigação, é o denunciante que vira réu. Alguma reação? É o mesmo agora. Alguém fará alguma coisa com os contratos das esposas, filhos, irmãos? Logo chega o Carnaval, depois a pré-campanha, a polarização de sempre. E é vida que segue. Nossos donos do poder, entre um charuto e outro, em Brasília, descobriram algo simples: a sociedade não é cega. Os fatos estão aí, para quem quiser enxergar. Mas é tola. Foi tola quando aceitou que tudo podia ser feito para “salvar a democracia”. E tola agora para aceitar a promessa vaga de um código de ética para “depois das eleições”, sem que ninguém faça ideia do que uma coisa tenha a ver com a outra.

Tola por não compreender que o vezo patrimonialista, a mistura do público com o privado, a quebra da norma no cotidiano da república, expressa a verdadeira degradação da democracia. E nisso, lamento dizer, todos perdemos.

 

 

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