De que ética o Brasil precisa?
Repito como se fora mantra, já perdi a voz, de tanto dizer: a ética é a matéria prima de que o Brasil se ressente. País pródigo em biodiversidade, em metais raros, em agronegócio que “salva a lavoura”, em uso de energias limpas, quais o etanol, de que ainda não sabemos como nos servir da melhor maneira. Temos tudo: falta vergonha na cara!
Estudo ética, leio sobre ética, escrevo sobre ética há meio século. Sou forçado a reconhecer que só tenho visto retrocesso. Em todos os setores. Infelizmente, até naquele ao qual me devotei durante décadas, e que deveria ser o farol inspirador de todos os demais.
Quando me pedem para conceituar ética, falo na ciência do comportamento moral do ser humano em sociedade. Não desconheço que ética é mais falada do que praticada. A sofisticação dos intelectos costuma revesti-la de fórmulas bem elaboradas.
Desde sempre se falou e se escreveu sobre ética. Aristóteles escreveu “Ética a Nicômaco” para educar seu filho. Baruch Espinosa tem um livro chamado “Ética”. Tantos outros pensadores se devotaram e ministrar lições que são pouco lidas e nada observadas.
Tanto se elaborou o pensamento ético, a ponto de surgirem múltiplas teorias. As clássicas são as escolas das virtudes, baseadas na busca do bem, que coincide com o belo. As escolas normativistas, que elaboraram a Deontologia, a ciência dos deveres. Por isso é que se fala em Código Deontológico dos Advogados, dos Médicos, dos Dentistas, dos Engenheiros, dos Arquitetos, dos juízes (menos os do Supremo; estes se consideram acima de qualquer ética).
Existem ainda as escolas consequencialistas ou utilitaristas. Visa-se o resultado a se colher caso se adote ou se repudie uma postura ética no caso concreto.
Outra vertente visa incidir sobre a motivação. Por que é que alguém se comportará eticamente? É uma convicção, a certeza de que agir corretamente é o melhor ou a única opção, ou apenas nos constrangemos se formos apanhados em deslizes éticos?
Em tese de doutorado de Ênio Alterman Blay, o intuito foi analisar a complexidade entre ética e IA – Inteligência Artificial. A partir do substancioso trabalho de Edgar Morin, que continua firme após completar cem anos, ele detectou uma taxonomia de que extraiu nova classificação para a ética. Nela, o foco é a diversidade de maneiras pelas quais as pessoas lidam com seu trabalho, agora no terreno da IA – Inteligência Artificial. Ele encontrou cinco preocupações: conscientização, percepção, necessidade, desafio e abordagem.
A conclusão da tese – que merece leitura atenta – é a de que existe enorme variedade de combinações e uma tendência majoritária a uma postura consequencialista ou utilitarista. A IA já está em nosso cotidiano e não vai retroceder. Ao contrário: estamos nos entregando a cada minuto mais e mais à volúpia algorítmica.
Parece que a humanidade avança em ciência e tecnologia, mas anda de marcha-a-ré em termos de valores. O nojo pelas práticas de corrupção explícita e de podridão disfarçada na ambiguidade da hermenêutica já não causa rubor. Perde-se a capacidade de indignação e se considera normal que a política seja o refúgio dos desonestos. É a velha fala de Rui: “de tanto ver triunfar as nulidades…”.
Em ano de renovação do Congresso, de onde têm saído uma cornucópia de exemplos de descomprometimento com o bem comum, com a saúde do planeta, com a urgência do trato consequente de uma educação capenga, de uma desigualdade vergonhosa que evidencia a nossa indigência ética, é de se indagar se o Brasil tem futuro digno.
Escolher deputados e senadores probos é a obrigação moral de cada eleitor que pretende uma Pátria liberta de maus elementos, de política partidária profissional que só se preocupa com o enriquecimento e com a busca dos interesses personalíssimos e quase sempre distanciados de qualquer conotação ética.
De que ética o Brasil precisa?
De qualquer uma. Não interessa a classificação, a escola ou o rótulo. Aquela ética muito singela, simplória até, de procurar atender ao bem comum. De pensar primeiro no próximo. De encarar a participação política, assim como já foi há algumas décadas, uma forma de melhorar a vida comunitária. De servir ao semelhante e à Nação.
Depois da rouquidão de uma pregação inglória, que não produziu frutos, acredito no milagre da ressurreição daqueles “homens de boa vontade” que já foram chamados um dia a participar da edificação de um reino de amor. Vamos sonhar mais um pouco! Sem utopia, está difícil de engolir o Brasil de nossos dias.
