5 de fevereiro de 2026
Politica

Motta prometeu reforma administrativa e entregou ‘trem da alegria’

Expectativa: ao assumir a presidência da Câmara, em fevereiro do ano passado, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) tinha planos de aprovar um projeto de peso que ficaria como marca de sua gestão. Seus dois antecessores passaram reformas importantes durante seus mandatos na presidência: Rodrigo Maia, a da Previdência, em 2019, e Arthur Lira (PP-AL), a tributária, em 2023. Motta procurava uma reforma para chamar de sua e escolheu a administrativa.

Realidade: Um ano depois, Motta não entregou reforma nenhuma. Ao contrário. Nesta semana, patrocinou a aprovação de um projeto “fura-teto” que cria uma gratificação para servidores da Câmara que passarão a ter um dia de licença para cada três de trabalho, descanso esse que poderão receber em dinheiro. Depois de defender a administrativa dizendo que o Brasil tem um modelo de funcionalismo em que “engorda a barriga do Estado, enquanto o cidadão emagrece”, Motta aprovou um “trem da alegria” que terá custo de R$ 800 milhões. Uma baita dieta de engorda.

Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, prometeu reforma administrativa, mas entrega aumento de gastos
Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, prometeu reforma administrativa, mas entrega aumento de gastos

Servidores do “andar de cima” da Câmara poderão ganhar até R$ 80 mil por mês com as mudanças. E detalhe, a licença é compensatória e não incide tributos sobre o valor. Cai livre no bolso do funcionário, sem pagar Imposto de Renda, como outros trabalhadores.

A equipe econômica falou em imoralidade e escárnio, disse que não foi consultada, mas a verdade é que a aprovação teve apoio dos parlamentares do governo, cuja liderança não orientou voto contrário ao projeto.

Em corporativismo esperado, o texto foi aprovado pelo Senado e seguiu para sanção presidencial. Está nas mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva agora. Ele, que tanto gosta de investir no discurso “ricos contra pobres”, teria um argumento econômico simples para vetar a inacreditável escala 3×1 da Câmara, que beneficia, mais uma vez, a elite do funcionalismo público. Como mostrou o Estadão/Broadcast, a área técnica deve recomendar o veto. A decisão, no entanto, será estritamente política.

Lula não quer comprar mais briga com Motta e o Legislativo, longe disso, e vem tentando fazer as pazes e aparar arestas de outros entreveros. Nesta quarta-feira, reuniu Motta e líderes no que teria sido um jantar descontraído e informal, em que evitou tocar em assuntos conflituosos. Lula vai encarar o custo político de barrar o “trem da alegria” da Câmara em ano eleitoral?

 

 

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