Espionagem na prefeitura do Recife: advogado fala em ‘investigação ilegal’ que remete à ditadura
O advogado Eduardo Trindade, que defende o secretário de articulação política do prefeito do Recife, João Campos (PSB), monitorado pela Polícia Civil, criticou os métodos “invasivos” de investigação e afirmou que o modus operandi da Polícia lembra os tempos da ditadura militar:
“Em 30 anos de atividade como advogado, nunca me deparei com uma investigação dessas. Não é uma investigação sigilosa, é uma investigação clandestina, isso era coisa da época da ditadura”, criticou o advogado à Coluna do Estadão.
Os alvos da suposta espionagem são o secretário de Articulação Política e Social da prefeitura, Gustavo Monteiro, e seu irmão, Eduardo Monteiro. Eles foram monitorados por três meses, de agosto a outubro do ano passado, inclusive com o uso de um rastreador em um carro funcional utilizado pelo secretário.
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a Polícia Federal (PF) investigar o caso.
O caso de espionagem aquece ainda mais a campanha eleitoral de outubro, na qual a atual governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), e o prefeito do Recife devem se enfrentar na disputa pelo governo do Estado.
Polícia Civil de Pernambuco entra em contradição
Segundo a Polícia Civil, as denúncias tratam de recebimento de propina envolvendo justamente um carro da prefeitura usado pelo secretário de João Campos. Mas a investigação não tinha registro, e a polícia entrou em contradição.
Em nova nota divulgada nesta sexta-feira, 6, a corporação afirmou ser “incorreta” a informação de que a Polícia admitiu ter realizado monitoramento indevido a aliados do prefeito. Procurada, a governadora Raquel Lyra, chefe da Polícia Civil, reforçou a nota da corporação.
Já na nota divulgada na quinta-feira, 5, o chefe da Polícia Civil de Pernambuco, Felipe Monteiro Costa, admitiu que a investigação foi feita sem o registro de um boletim de ocorrência, sem número de protocolo ou registro oficial da denúncia. Teria sido realizada a partir de uma denúncia anônima recebida em um envelope.
Raquel Lyra diz que caso não deve virar ‘palco eleitoreiro’
A governadora chegou a se pronunciar sobre o caso em um vídeo no Instagram na semana passada. Ela afirmou que não se deve transformar “tema técnico em palco eleitoreiro”.
“A Polícia Civil de Pernambuco é uma instituição de Estado, com autonomia e responsabilidade funcional. Ela não pertence a governos, não serve a interesses políticos, e jamais será instrumento de ninguém”, disse.
