Nos tornamos o País do retrocesso?
O debate da semana foi sobre a escala 3 x 1 no Congresso. A coisa toda é simples: o funcionário trabalha três dias e folga um. Para que isso? Combater o stress, compensar a trabalheira toda. O ponto é que a folga pode ser convertida em dinheiro, e lá se foi o descanso. Na prática, há um enorme aumento no salário, que pode ultrapassar em muito o teto do funcionalismo. Como uma coisa dessas foi aprovada pelo Congresso? Simples: voto simbólico, discussão nenhuma. E sem ninguém saber direito de onde vai sair o dinheiro.
É um bom retrato do Brasil atual. Quem defendeu a ideia de que era “preciso aumentar impostos”, tem aqui sua resposta. Precisa sim, só que para fazer crescer mais um pouco os supersalários. Já temos o Parlamento mais caro do planeta em relação à renda média. E o país que mais gasta com penduricalhos.

O fato é que o Brasil se tornou o País do retrocesso. Ano passado, houve algum barulho em torno da reforma administrativa. O deputado Pedro Paulo fez um bom trabalho, e o presidente Hugo Motta chegou a anunciar aquilo como prioridade. Nada saiu do papel.
No tema da Previdência, o Congresso aprovou um recuo inexplicável. Reintroduziu a paridade e a integralidade para os agentes de saúde (coisa que havia sido extinta em 2003), além de permitir aposentadorias aos 50 anos.
É o mesmo com as estatais. De um superávit acima de R$ 6 bilhões em 2022, fomos a um déficit superior a R$ 5 bilhões ano passado. No meio do caminho, flexibilizamos a Lei das Estatais, além de engavetar solenemente o programa de desestatização.
Não penso que o retrocesso seja um “projeto”. É sua ausência. Produto de um País cuja prioridade é a entrega da gratuidade do dia, ao invés do enfrentamento dos temas complicados ligados ao aumento da produtividade.
Dias atrás, escutava um ministro do governo dizendo, orgulhoso, que temos hoje 25% da população nos programas de transferência de renda, e que o governo “sustentou” o consumo das famílias por estes anos. Vai aí a fórmula que move o País: despreocupação fiscal, aumento de impostos, dívida pública crescendo e distribuição de gratuidades aos mais pobres, fazendo crescer sua dependência ao Estado. Isso e o abandono do ímpeto reformista que nos legou a reforma trabalhista, o Marco do Saneamento, a autonomia do Banco Central.
A captura do Estado pelas corporações é apenas um sintoma. Em um País sem rumo, cada lobby bem estruturado busca sua fatia no bolo. O Brasil nunca decidiu se deseja ou não um “choque de capitalismo”, como Mário Covas sugeriu nas eleições de 1989. Covas era um político de esquerda. Um socialdemocrata. Estas questões são menos ideológicas e mais civilizatórias. O País moderno x arcaico. O foco nos interesses difusos ou o mando das corporações. Um debate existencial que o País terá de fazer neste ano decisivo de 2026.
